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O Seminário-Liceu foi criado há 160 anos (III)

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Na memória dos estudantes Permitam-me registar, na dimensão contida de um artigo de jornal, fragmentos de testemunhos escritos/ditos por alunos do Seminário-Liceu que se notabilizaram pela sua dedicação à educação e à cultura de Cabo Verde. Pedro Monteiro Cardoso 1 , jornalista, poeta, ensaísta e compositor, no artigo “Instrução primária e superior em Cabo Verde”, que publicou no jornal A Voz de Cabo Verde de 2 de setembro de 1912, dá a sua opinião sobre o Seminário: Em primeiro lugar direi do seminário-liceu, o nosso único estabelecimento de ensino superior. Como escrevi já neste jornal e secção, 6 anos vivi muros a dentro daquele instituto, à época florescente sob a administração de uma ilustre personagem [o Vice-Reitor Francisco Ferreira da Silva] a quem ao diante terei de me referir com mais vagar, e de todo o tempo lá passado só tenho agradáveis recordações. (…) O seminário-liceu, é inegável que tenha servido para habilitar padres, amanuenses e aspirantes. Se para as funções oficiais, o novo regime dispensa a cooperação dos cidadãos de tonsura e sotaina, não pode igualmente dispensar, por ainda, os serviços daqueles humildes e pouco custosos funcionários de alamares e farda de cotim. Mas para ser-se um digno e idóneo amanuense da Fazenda ou aspirante de alfândega, escusado é a frequência do liceu-seminário. (…) O liceu-seminário possui na ilha de S. Nicolau bons prédios, belas propriedades e uma importante criação de gado, ao que ainda se pode ajuntar um pequeno museu e gabinete de física e uma sofrível biblioteca. José Maria Cabral de Azevedo, professor durante 37 anos na Escola da Praia Branca na ilha de São Nicolau, recorda o tempo em que estudou no Seminário-Liceu e, em particular, “o saudoso padre João Nunes d’ Aguiar que muita amizade me dispensava e me ensinava, ainda criança, a ler e escrever”. Num artigo intitulado “S. Nicolau - Um liceu em Cabo Verde”, que publicou no jornal O Futuro de Cabo Verde de 28 de maio de 1914, defendeu a continuidade do Seminário Eclesiástico na sua ilha face ao anticlericalismo das autoridades coloniais: O povo desta ilha na sua quasi totalidade, é verdadeiramente crente, não sendo fácil desviá-lo das suas crenças tão cedo. Sou também republicano convicto, respeito e observo devotamente as constituições que regem a minha querida nação e pátria. (…) O Seminário-Liceu tem prestado um serviço admirável nesta província, onde hoje, a cada passo, se encontram rapazes abalizadíssimos que não deixam invejar aqueles que cursam as mesmas disciplinas nos liceus da metrópole. Convém que se providencie sobre o projectado Liceu, antes que se elimine o Seminário, porque pode suceder que nós os caboverdeanos, fiquemos sem um e sem outro, «mais vale um na mão que dois a voar». José dos Reis Borges. que lecionou ao longo de 38 anos da Escola Central da Praia, publicou no Boletim da Agência Geral das Colónias o artigo intitulado “O Seminário-Liceu da Ilha de S. Nicolau de Cabo Verde”(março 1929): A fundação do Seminário-Liceu [onde frequentou o Curso Preparatório] é um dos acontecimentos mais felizes da história caboverdeana, porquanto é dêle que partiu a luz que mais intensamente iluminou Cabo Verde. (…) Efectivamente, quem, senão o Seminário, produziu esses formosos talentos – prosadores brilhantes uns, poetas distintos outros – que se chamam José Lopes, Corsino Lopes, Miguel Monteiro, Porfírio Tavares, Pedro Monteiro Cardoso, Silva Araújo, para não falar em mortos ilustres como Costa Teixeira, Duarte da Graça, Lopes Cardoso, Marques Lopes, Pedro Delgado e Tertuliano Ramos? Filhos do Seminário são ainda esses esperançosos moços, cujos nomes registará também a História da Literatura Caboverdeana, e que se chamam Barbosa Ferreira, Barreto de Carvalho, Francisco Duarte, José Calazans, Lela Lopes, Mário Pinto e quantos outros mais! A acção educativa do Seminário-Liceu foi, pois, decisiva na civilização caboverdeana. Contudo, foi o Seminário extinto… E contra essa extinção, que representa um gravíssimo êrro administrativo, para não dizer crime tremendo, protestámos na imprensa cabo-verdiana; mas a nossa voz era muito débil para que seu eco pudesse chegar aos ouvidos do Governo Central… Abafaram-no, infelizmente, as ondas do Atlântico… Baltazar Lopes da Silva, Professor e Vice-Reitor do Liceu do Mindelo, iniciou a sua formação no Seminário como aluno externo. Na Oração de Sapiência, que proferiu em outubro de 1967, evocou a instituição onde fez o exame de 2.º grau: Naquele tempo havia uma tradição arreigada e carregada de prestígio – a cultura intelectual ou a simples ilustração. (…) Tinha sido decisiva a acção do Seminário-Liceu, criado 51 anos antes, em 1866. Por aquela velha casa de S. Nicolau passaram gerações sucessivas de homens que foram semeadores de primeira ordem, em vários sectores de actividade. É bem conhecida ‒ e é uma saudade ‒ o nível que esses homens imprimiram ao ensino primário, nível que, se examinado na reactividade dos tempos, excedia as exigências dum simples ensino de base. O certo é que, por sua vez, muitos dos que fizeram o seu 2.º grau primário, saíram dele munidos de predisposição para um auto-didatismo que fez deles, tanta vez, as peças mestras dos quadros, tanto das actividades oficiais como das que se situavam no âmbito da iniciativa privada. Havia uma sede que exigia ser satisfeita, não que a sede se erguesse metaforicamente em altos brados reivindicativos. A sua função operante consistia em «ser». Porfírio Tavares, pároco e professor na ilha da Boavista, no artigo “Ecos sobre a extinção do Seminário-Liceu de Cabo Verde” 2 , lamenta a extinção do Seminário, onde obteve a sua formação religiosa e académica e evoca brilhantes figuras do seu corpo docente. O corpo docente foi sempre feliz e rigorosamente selecionado, constituído por professores distintos, entre os quais se salientam os vultos eminentes do Cónego Manuel Correia de Figueiredo, Deão Berardo José da Costa, Joaquim da Silva Caetano, grande latinista e geógrafo, José Félix Machado, Dr. Manuel António Ramalho, Dr. Ferreira da Silva, António José de Oliveira Bouças, José Correia, Dr. Lereno, Dr. João Augusto Martins, sem esquecer o concentrado, excêntrico e profundo Dr. Damião, o temível e ardoroso professor Moniz e o finíssimo gentlemen St’ Aubyn. O Padre Porfírio Tavares defendeu o restabelecimento do Seminário na ilha de São Nicolau e a manutenção e melhoramento da dotação do Clero Missionário, que se achava tão reduzida, que chega a dar-se o caso fenomenal de um só pároco com o encargo de nada menos de seis freguesias. Ao concluir dou a palavra a Frederico Cerrone, Missionário Capuchinho e autor da História da Igreja de Cabo Verde (1983): “No período de 1920 a 1940 estendeu-se um véu de silêncio sobre a Igreja de Cabo Verde. A Escola Superior de S. Nicolau, que ainda permitia a formação de alguns seminaristas, foi suprimida inesperadamente em 1931 e transformada em albergue de 200 deportados políticos, perdendo-se assim a sua valiosa biblioteca. Pouco tempo depois foi o mesmo edifício ocupado por tropas de Angola. Nas outras ilhas sentia-se a falta de pastores: morriam os párocos e não eram substituídos por os não haver”. ______________________________________________________ Notas de fim de texto: 1. Os dados biográficos das personalidades referidas no texto (à exceção de Porfírio Tavares e de Frederico Cerrone) foram colhidos no livro Biografias de 31 Personalidades da Educação. Cabo Verde. Século XX, ed. LPC, 2025. 2. A colónia de Cabo Verde , n.º especial, dezembro 1940. Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1294 de 16 de Setembro de 2026.

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