Candidatos perfilam-se para a corrida
José Maria Neves anunciou segunda-feira a candidatura à sua própria sucessão, colocando oficialmente em marcha a disputa por um segundo mandato. No discurso de apresentação, o Presidente afirmou que não pretende fazer da candidatura uma repetição dos cinco anos anteriores, mas antes uma proposta para responder aos desafios que Cabo Verde terá pela frente. “Esta candidatura não é uma candidatura para repetir os últimos cinco anos. É uma candidatura para os próximos cinco anos”, afirmou. O Presidente justificou a decisão com a vontade de continuar a servir o país, mas também com os apelos que, segundo disse, recebeu de cidadãos, organizações, partidos políticos e personalidades independentes para permanecer no cargo. A candidatura surge depois de um primeiro mandato que José Maria Neves apresentou como marcado pela proximidade institucional, pelo diálogo e pela procura de reforço da unidade nacional. Entre os aspectos que destacou estão a chamada “Presidência na Ilha e na Diáspora”, a agenda ligada aos oceanos, a preservação do património natural e cultural africano e a realização do encontro internacional da Criolidade Atlântica. Mas é sobretudo no futuro que o candidato presidencial pretende concentrar a nova etapa. Inteligência artificial, alterações climáticas, transição energética, envelhecimento da população, saída de jovens e desigualdades de oportunidades entre as ilhas foram alguns dos desafios identificados. José Maria Neves defende, neste contexto, a necessidade de antecipar transformações, aproximar gerações, promover a renovação e reforçar os consensos políticos para acelerar reformas. A candidatura pretende assumir-se como um “grande movimento nacional”, envolvendo cabo-verdianos residentes no país e na diáspora, independentemente das suas sensibilidades políticas. “Não vos peço apenas confiança em mim, peço-vos confiança em nós”, declarou. A apresentação da candidatura ficou ainda marcada pelo anúncio da suspensão imediata do mandato presidencial, nos termos da legislação eleitoral. Segundo José Maria Neves, a Presidente da Assembleia Nacional, Janira Hopffer Almada, deverá assumir a Presidência interina da República durante o período previsto na lei. O candidato revelou também que já manteve contactos com partidos políticos, incluindo o PAICV, e com personalidades independentes. Mário Lúcio Sousa foi apresentado como mandatário nacional, enquanto Lúcia Fortes será mandatária nacional para as mulheres e Viviane Brito para a juventude. Ultrapassar fronteiras partidárias Do outro lado da corrida, Joana Rosa procura apresentar uma candidatura com uma identidade própria, apesar do apoio formal do Movimento para a Democracia. Na conferência de imprensa realizada no final de Agosto, depois de o MpD anunciar o apoio à sua candidatura, a antiga ministra da Justiça insistiu em definir o projecto como “da sociedade civil” e “aberta a Cabo Verde”. A candidata defendeu uma Presidência de proximidade e diálogo com os cidadãos e um exercício independente das competências constitucionais. A sua proposta passa por uma “magistratura de referência”, assente no equilíbrio, na dignidade institucional, no diálogo e na defesa dos interesses permanentes da República. “Estamos a construir uma candidatura que se constitui como uma plataforma aberta, plural e agregadora”, afirmou Joana Rosa. A candidata procurou, desde o anúncio do apoio do MpD, estabelecer uma distância em relação à lógica estritamente partidária. Agradeceu o apoio e a confiança do partido, mas afirmou que pretende “estender a mão muito para além das fronteiras partidárias”. A estratégia passa pela construção de uma plataforma eleitoral colectiva, baseada nas auscultações realizadas durante deslocações a várias ilhas. Joana Rosa afirmou que o documento deverá incorporar propostas e preocupações recolhidas junto dos cidadãos. Entre as prioridades enunciadas está também a redução da pobreza e a melhoria das condições de vida dos cabo-verdianos. A candidata quer utilizar a Presidência como espaço de influência sobre o desenvolvimento do país e defende uma maior divulgação da Constituição, para que os cidadãos conheçam os seus direitos e possam exigir o cumprimento dos princípios constitucionais. A candidatura de Joana Rosa surge num contexto de alguma fragmentação do campo político. Questionada sobre a decisão de Milton Paiva de avançar para a corrida presidencial apesar da escolha do MpD, Joana Rosa classificou a situação como parte do exercício democrático, sublinhando que a candidatura presidencial é pessoal. Mais candidatos na corrida A disputa presidencial conta, entretanto, com outros nomes. Jorge Luís dos Santos formalizou segunda-feira a candidatura junto do Tribunal Constitucional. Segundo a Inforpress, a candidatura tem como principais motivações a situação das famílias, o poder de compra e a emigração juvenil. A candidatura enfrenta, contudo, uma questão constitucional relacionada com os requisitos de elegibilidade. A Inforpress recorda que o artigo 110.º da Constituição estabelece que o Presidente da República deve ser cidadão eleitor cabo-verdiano de origem, não possuir outra nacionalidade e ter tido residência permanente no território nacional nos três anos imediatamente anteriores à candidatura. Jorge dos Santos reside nos Estados Unidos. Gilson Alves foi outro dos candidatos que já entregou formalmente a candidatura ao Tribunal Constitucional. Além de José Maria Neves, Joana Rosa, Jorge dos Santos e Gilson Alves, manifestaram publicamente intenção de concorrer Casimiro de Pina, Péricles Tavares, Fernando Delgado e Antero Lopes Tavares. O prazo para apresentação das candidaturas termina esta quarta-feira, 16 de Setembro, enquanto as eleições estão marcadas para 15 de Novembro. Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1294 de 16 de Setembro de 2026.
