Por que as mortes por overdose de fentanil caíram vertiginosamente nos EUA
As mortes por fentanil nos Estados Unidos atingiram seu pico em 2022 e vêm diminuindo desde então Getty Images/BBC Por 15 anos, as mortes causadas pelo consumo de fentanil nos Estados Unidos apresentaram aumentos contínuos. Até que, em meados de 2023, elas repentinamente desabaram. No final de 2024, o número havia caído em mais de um terço. Este fenômeno não aconteceu apenas nos Estados Unidos. As mortes também diminuíram muito no Canadá. Esta é uma notícia fantástica, mas não deixa de ser preocupante que os pesquisadores não saibam ao certo os motivos que levaram a esta queda tão repentina e significativa. Não houve nenhum grande avanço da medicina, nem uma iniciativa nacional de criação de novos centros de reabilitação. Agora no g1 Isso levou a equipe do professor Keith Humphries, da Universidade de Stanford, no Estado americano da Califórnia, a investigar as possíveis causas e publicar um estudo expondo suas hipóteses sobre os reais motivos que levaram à queda das overdoses mortais e qual a probabilidade de que esses índices se mantenham no futuro. BBC News - Professor, o senhor e seus colaboradores escreveram um artigo sobre o que vocês acreditam que esteja por trás dessa redução dramática das mortes em 2023. O que vocês concluíram? Keith Humphries - Para entender o artigo, preciso explicar rapidamente de onde provém o fentanil. O fentanil é produzido a partir de substâncias químicas chamadas precursores, que provêm da China. Estas substâncias são enviadas para traficantes na América do Norte, que fabricam a droga com elas. Posteriormente, o produto é consumido, principalmente nos Estados Unidos e no Canadá. Os dois países enfrentaram crises de opioides paralelas, iniciadas na década de 1990, com a era dos analgésicos em comprimidos. Mas a estrutura do seu comércio ilegal é diferente. No caso dos Estados Unidos, os precursores químicos chegam da China para o México. Ali, grupos do crime organizado os processam para obter fentanil, que é transportado por terra através da nossa fronteira sul. Já o Canadá conta com seus próprios grupos de fabricação ilícita. Os produtos químicos chegam diretamente ao país, onde o fentanil é elaborado para os consumidores canadenses. Quando observamos todas essas mudanças ocorrendo simultaneamente nos dois países, é possível deduzir que a causa não pode ser um fator exclusivo do México (porque, neste caso, só os Estados Unidos seriam afetados), nem algo próprio do Canadá, pois teria repercutido apenas naquele país. Qual é, então, o denominador comum? Os precursores químicos chineses. É difícil obter informações sobre a China, que não é uma sociedade muito aberta. Mas a hipótese mais plausível é que o país tenha intensificado suas medidas de proibição contra os fabricantes de precursores. Esta parece ser a explicação mais lógica do motivo por que os dois países (Estados Unidos e Canadá) vivenciaram, ao mesmo tempo e em escala nacional, uma queda drástica do fornecimento de fentanil. Aparentemente, a China reduziu o comércio de precursores químicos para a produção de fentanil Getty Images/BBC BBC News – Qual o motivo da sua confiança de que a queda das mortes nos Estados Unidos e Canadá esteja relacionada aos precursores que saem da China? Humphries – Temos total certeza de que existe uma alteração repentina da oferta, como mostram os indicadores dos dois países. O componente chinês desta situação, na verdade, é uma especulação baseada em indícios indiretos. Por que os dois países vivenciariam esta alteração ao mesmo tempo? É complicado, especialmente por se tratar da China e de uma atividade ilícita. Por isso, não podemos perguntar aos produtores (nem a mais ninguém ao longo da cadeia de abastecimento) exatamente o que aconteceu. Mas podemos observar medidas nos relatórios oficiais chineses, como o fechamento de websites e a assinatura de um acordo com os Estados Unidos em 2023, para aumentar a pressão sobre este tipo de comércio. As autoridades chinesas estão plenamente conscientes de que participar do tráfico de fentanil prejudica sua reputação internacional. Além disso, a tomada de medidas a respeito traz benefícios, ou seja, constitui um trunfo nas negociações internacionais. É uma ação que eles podem empreender e que outros países desejam ver realizada. Estas são todas as razões, mas insisto que se trata de especulação. BBC News – Pode nos contar como funciona a relação do governo chinês com os fabricantes de precursores de fentanil? Evidentemente, não é o governo que está fabricando essas substâncias para exportá-las em seguida. Humphries – É uma sociedade diferente. Por isso, a separação entre a empresa privada e o governo nem sempre é clara, como ocorre nos Estados Unidos ou no Canadá. Mas a produção é ilegal. Ela é provavelmente feita por pessoas que mantêm vínculos com a indústria legal, mas não é dirigida pelo governo. E, claramente, o governo tem a capacidade de suprimir este comércio e acredito que tenha demonstrado, agora, a vontade de fazê-lo. Com a queda da exportação dos precursores de fentanil provenientes da China, o consumo no Canadá e nos Estados Unidos também diminuiu Getty Images/BBC BBC News – Imagino que uma boa notícia decorrente da sua investigação é, sobretudo, que o número de mortes diminuiu. A outra é que a diplomacia funciona e que, se interagirmos com a China, podemos alterar seu comportamento de forma que nos beneficie aqui, na América do Norte. Mas não posso deixar de pensar que a má notícia é que isso, agora, é controlado pela China, não algo que nós estejamos fazendo. Ou seja, nós não alteramos necessariamente o comportamento dos americanos, não encontramos tratamentos mais eficazes, nem investimos em centros de reabilitação. De certa forma, nós dependemos dos chineses. E, se eles reduziram a quantidade de fentanil sendo exportada, é possível supor que eles poderão reverter a situação. Humphries – Pois esta é a grande incógnita. Será a mudança da oferta um fenômeno duradouro? O que todos nós observamos com certa preocupação neste momento é se o número de mortes voltará a aumentar. Até agora, não foi o que aconteceu, o que é notável e parece sugerir que o choque na oferta persiste. Mas isso não significa que as pessoas que se encontram no Canadá ou nos Estados Unidos não podem tomar ações a respeito. A prestação de tratamento salva vidas. Resgatar as pessoas com medicamentos de emergência contra overdoses salva vidas e foi o que aconteceu ao longo de todo este processo, que já dura 30 anos. O que não pode ser feito é transformar radicalmente toda a situação em questão de seis meses, pois desenvolver estes sistemas exige muito tempo. Por isso, reconhecer o impacto do choque na oferta não diminui a importância dos serviços de saúde destinados às pessoas que enfrentam problemas de consumo de drogas. A crise do fentanil causou estragos em muitas cidades dos Estados Unidos e do Canadá Getty Images/BBC BBC News – Se o senhor tivesse uma varinha mágica para influenciar agora mesmo as políticas públicas, neste período em que as mortes diminuíram, o que o sr. faria para promover a resiliência do país, frente à possibilidade de que a China volte a aumentar a exportação de precursores de fentanil? Humphries – Existe aqui uma grande oportunidade, como destacamos no nosso estudo, que é a seguinte: à medida que a droga fica mais difícil de conseguir, mais cara e de menor potência, a experiência de consumir fentanil passa a ser menos gratificante. Aqui se apresenta, portanto, uma grande oportunidade de oferecer tratamento às pessoas que sentem que o seu consumo chegou a um ponto crítico (o pior momento da sua convivência com a droga) e desejam abandoná-la. É o que eu faria a curto prazo, para fazer uso desta conjuntura incomum. A longo prazo, em um mundo de comércio global e internet, sempre haverá oferta para atender à demanda. Por isso, se a China se retirar totalmente deste mercado, ele poderá se transferir para a Índia, por exemplo, para a Tailândia ou para algum país similar. Consequentemente, todas as nações devem implementar medidas para reduzir a demanda, pois, cedo ou tarde, alguém acabará fornecendo fentanil ou até alguma droga ainda pior. BBC News – O único ponto que falta destacar é a tentativa de controlar as fronteiras, seja no Canadá ou nos Estados Unidos. Humphries – É preciso manter certo controle das fronteiras por diversas razões, não só pelo tema das drogas. Mas o retorno do investimento atinge seu limite com muita rapidez. Em outras palavras, se triplicássemos o número de guardas na fronteira ou de inspeções de caminhões, interceptaríamos mais drogas, mas não o triplo da quantidade. É importante que as pessoas saibam que elas não podem simplesmente transportar a mercadoria abertamente em caminhões, mas as possibilidades de atuação neste nível têm limite. Por outro lado, em relação à aplicação da lei neste particular, as medidas policiais são fundamentais, mas podem trazer graves efeitos colaterais. Como observamos durante a "guerra contra as drogas", as detenções em massa em bairros pobres geram problemas. O lado positivo é que, até onde sabemos, não houve detenções, nem foram gerados efeitos colaterais. Trata-se, portanto, de uma forma de intervenção que altera as rotas reais do tráfico de drogas e nos permite atingir nosso objetivo, sem causar o sofrimento que tanto preocupa muitas pessoas de bom senso. BBC News – O senhor estuda e trabalha neste tema há anos. Qual é a sua opinião sobre esta queda? Imagino que o senhor tenha ficado entusiasmado com a ocorrência da redução. Mas também me pergunto se existe certo receio por ser algo que não podemos controlar por completo, como consumidores aqui ou no Canadá. Humphries – Fico muito satisfeito porque estive muito próximo da realidade da adicção durante os 35 anos em que realizo este trabalho. Faço voluntariado em um bairro de São Francisco chamado Tenderloin, onde encontro muitas pessoas sob os efeitos agudos desta droga tão incapacitante. Por isso, sempre que esses números diminuem, sinto uma imensa alegria. Fico muito feliz ao ver alguém superar a dependência do fentanil e empreender o caminho da recuperação. É compreensível que as pessoas desanimem e sintam que nada pode funcionar, mas acredito que isso demonstre que existem soluções eficazes. É claro que a China atingiu resultados, mas, naturalmente, foi graças à diplomacia. E é algo que nós também podemos fazer: manter boas relações com outros países que podem nos auxiliar. Estou certo de que encontraremos formas de também ajudá-los.
