Atraso no tratamento de câncer de mama afeta 50,7% dos casos em Campinas: 'Vou morrer antes', desabafa paciente
Campinas atrasa tratamento de câncer de mama no SUS e amplia fila de pacientes A legislação federal determina que o tratamento do câncer de mama deve começar em até 60 dias após a confirmação do diagnóstico. Porém, em Campinas (SP), 50,7% dos casos na rede pública descumprem o prazo, segundo dados da plataforma Data SUS, do Ministério da Saúde. A demora tem deixado pacientes angustiadas. De acordo com o levantamento, desde 2021 foram contabilizados 3.338 diagnósticos de câncer de mama na cidade, sendo que 1.693 começaram o tratamento após 60 dias. Por sua vez, 720 casos começaram em até 30 dias e 769 de 30 a 60 dias. A auxiliar de limpeza Vera Lúcia da Silva, diagnosticada com tumores agressivos nas duas mamas, foi informada na rede pública de que não há vaga imediata e que o tratamento poderá começar apenas em dezembro de 2026. "E se eu morrer antes? Vou morrer antes. Porque a doença caminha, está em um estágio avançado. Não sei mais o que fazer. Estou desesperada, só quero ser tratada, quero me curar", desabafou Vera. "Não sou a única, tem várias que estão na mesma situação que eu. Minha cabeça está assim... Não durmo à noite", completou. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Campinas no WhatsApp A Secretaria de Saúde de Campinas disse que Vera Lúcia foi diagnosticada em 2 de setembro, por isso ela tem até novembro para iniciar o tratamento. O atendimento será retomado de forma gradual. A pasta também informou que a Rede Mário Gatti teve uma redução temporária na capacidade de atendimento em mastologia, devido à aposentadoria de um médico e à demissão de outro. Por isso, algumas medidas foram adotadas: Dois mastologistas foram contratados; Uma licitação está sendo feita para dobrar as horas de serviço em mastologia na rede; Solicitação de habilitação do Hospital Ouro Verde para cirurgias oncológicas; Mutirão de cirurgias de câncer de mama, previsto para o próximo mês; Convocação de dois radiologistas para o Centro de Referência em Atenção Integral à Mulher; Contratação de empresa para a realização de um mutirão de emissão de laudo. Impacto psicológico O tempo na fila também afeta quem aguarda procedimentos menos complexos. A representante farmacêutica Fabiana Fonseca espera há dois anos pela retirada de um nódulo benigno na mama. "A gente está de mãos atadas, né? Não tem o que a gente fazer, a gente tem que esperar", relatou a paciente. Sobre o caso de Fabiana, a Prefeitura de Campinas declarou que a paciente é moradora de Paulínia e o caso não passa pela regulação municipal. Segundo a administração, o diagnóstico foi realizado no Ambulatório Médico de Especialidades (AME), que é uma unidade gerida pelo Estado. A indefinição sobre o início das intervenções médicas pode gerar um efeito direto na saúde mental das mulheres. A psico-oncologista Marina Aoki explicou que o atraso aumenta a ansiedade gerada pelo diagnóstico. "Nesse tempo ela vai criar cenários, e esses cenários são possíveis. Um cenário de progressão de doença, de às vezes um tratamento que poderia ser mais fácil, torna-se mais difícil", comentou a especialista. Risco Mamografia de paciente com tumor pequeno na mama Hospital de Amor Barretos Reprodução/EPTV O atraso no início do tratamento prejudica diretamente as chances de cura. A médica oncologista Mary da Silva Thereza alertou que, a cada quatro semanas de espera, o risco de aumento da mortalidade da paciente sobe de 10% a 13%. Segundo a especialista, o tumor se modifica com o passar do tempo. A médica elencou os principais riscos enfrentados pelas mulheres que ficam paradas na fila: O tumor pode aumentar de tamanho e criar metástases; A doença pode evoluir para um quadro complexo que exige drogas mais agressivas; A espera causa grave dano psicológico e estresse após o diagnóstico. Fila de exames Paciente diagnosticado com câncer de mama tem de iniciar tratamento em até 60 dias, segundo legislação Reprodução/EPTV O represamento no sistema, no entanto, começa antes mesmo da fase de tratamento. A conselheira municipal de saúde, Ivone Mendonça, apontou que faltam profissionais para analisar os exames da população. "Hoje em Campinas, nós temos mais de 13 mil mamografias porque nós não temos médico pra laudar as mamografias", afirmou. A advogada especializada em direito à saúde, Thais Pedi, explicou que falta transparência no sistema de regulação de vagas e que a burocracia atrasa o processo. "A pessoa não sabe onde ela está na fila, ela não sabe nem se foi inserida na fila. Essa inserção às vezes demora até três, quatro meses pra pessoa colocar o cadastro", detalhou. Pacientes com câncer de mama denunciam demora para tratamento pelo SUS em Campinas VÍDEOS: tudo sobre Campinas e Região Veja mais notícias sobre a região na página do g1 Campinas
