Drag queen cria evento para celebrar saída de UTI e realiza primeira edição em Tatuí: 'Trabalho de resistência'
Drag queen cria evento para celebrar saída de UTI e realiza primeira edição em Tatuí A arte atravessa culturas, gerações e diferentes formas de expressão. Para as drag queens, além de reunir pessoas e possibilitar novas formas de comunicação, ela também pode ser uma ferramenta de resistência. É nesse universo que Diego Rodrigues, de 30 anos, encontrou uma forma de se expressar. Morador de Tatuí (SP) e drag queen há dez anos, ele se transforma em Diddy, personagem que também atua como apresentadora e atriz. 📲 Participe do canal do g1 Itapetininga e Região no WhatsApp Ao lado do coletivo Traga, de Sorocaba (SP), Diego criou a Mostra de Arte Drag Experimental (Madre), que será realizada neste domingo (20), no Teatro Procópio Ferreira, em Tatuí. Ao g1, Diego conta que a iniciativa surgiu depois de passar após sofrer um Acidente Vascular Cerebral (AVC). "Em 9 de setembro de 2025, eu tive um AVC e fiquei no hospital por 28 dias. Enquanto eu estive internado, fiquei entre a vida e a morte. Eu falei para uma amiga que, se alguma coisa acontecesse, era para criarem um evento drag. As pessoas precisam conhecer e ter acesso à essa cultura", conta. A mostra foi criada com a proposta de ampliar o acesso à arte drag no interior. Nascido e criado em Tatuí, Diego aponta que a cidade ainda tem pouco contato com a cultura LGBTQIA+. Segundo ele, ao longo de dez anos de carreira, conheceu apenas uma drag queen que morava no município: Lady Meteora, que hoje é sua mãe drag. "É uma ideia muito especial devido ao que eu passei. Sorocaba já tem muitos eventos drags devido à cena independente que existe por lá, e fazem lindamente. Aqui na minha cidade [Tatuí], a Lady Meteora é uma pioneira e está celebrando 30 anos de carreira. São dez anos da minha carreira, 30 da dela e a superação de tudo que eu passei. Eu fico muito feliz de poder fazer tudo isso", comenta. LEIA TAMBÉM De aula de mecânica a pizzaria só para 'divas': clube cria espaço seguro para mulheres e comunidade LGBTQIAPN+ Pajubá, dialeto criado por travestis na ditadura, é tema de documentário em Sorocaba: 'Fundamental para nossa sobrevivência', diz ativista Aniversário de Itapeva, Emapa, Arte Drag e mais: confira as atrações deste fim de semana na região de Itapetininga Diddy celebrará a vida na primeira edição do evento Arquivo pessoal A iniciativa foi criada após o coletivo se inscrever em um edital de ocupação do Conservatório de Tatuí. A participação é voluntária e não há remuneração. Diego explica que a proposta vai além de apresentar o trabalho artístico das drag queens. Elas também estarão envolvidas em diferentes funções do festival, inclusive na parte técnica. "O edital é muito importante porque ele está dando espaço para nós. Nem todos os espaços acolhem a gente da forma que deveriam. Isso vai na questão trabalhista, cultural, artística. E não serão apenas apresentações drags. Teremos drags na técnica, na discotecagem e até mesmo na plateia, porque não conseguimos colocar todas para apresentar", destaca. 'Trabalho de resistência' Na visão da drag, não é apenas Tatuí que possui pouco contato com a cultura LGBTQIA+ e, sim, todo o interior de São Paulo. Os eventos da cena costumam se concentrar majoritariamente em Sorocaba e seguem, geograficamente, em direção à capital. "Sou nascido e criado na cidade. Se eu falar que os dez anos de drag foram fáceis, é mentira. É um trabalho de resistência total. Por meio dos coletivos, as drags começam a se reunir para fazer eventos independentes e em lugares nem sempre habituais", diz. Diddy e a mãe drag, Lady Meteora Arquivo pessoal Para Diddy, realizar o evento no Teatro Procópio Ferreira representa ocupar um espaço pouco habitual para a comunidade drag, especialmente pela capacidade do local. No interior, a dificuldade de atrair público é apontada como um dos principais desafios enfrentados por coletivos que reúnem grupos historicamente marginalizados. "É uma felicidade extrema, mas a dificuldade de formação de público é sempre muito difícil. Mas, vamos cativando as pessoas ao pouco. Conforme as pessoas vão se identificando e sendo acolhidas, elas vão voltando. E tudo vai se fortalecendo. É um trabalho árduo, não vou falar que é fácil", descreve. Além do estereótipo João Goulart - ou Pamdora Medonha nos palcos - é o fundador do coletivo Traga e uma das pessoas por trás da organização do Madre. Segundo ele, o 'E' da sigla vem de experimental e significa aprofundar a arte drag que, por muitas vezes, é analisada como: vestir roupas de outro gênero e fazer performances com músicas de fundo. "Quando falamos de drag, as primeiras referências que vêm à nossa cabeça são aquelas hegemônicas, americanas, com todo um padrão e uma forma de ser. A drag propõe, desde o início, que a gente possa se experimentar enquanto artista de uma forma sem rótulos, sem regras, que é de fato como a arte deveria ser. O experimental é estar na cena em um processo criativo sem limitações", explica. João, nos palcos, atende como Pamdora Medonha Diogo Del Cistia/g1 O evento, conforme João, contará com surpresas além das "convencionais", mostrando que é possível inserir a arte drag em diferentes ambientes. Haverá, também, um show de rock. "A arte drag é, também, sobre experimentar a linguagem. Não teremos apenas dublagens, que são as apresentações comuns das drags. Uma drag cantora de rock soa uma linguagem experimental. Fazer isso no teatro será fenomenal", reforça. João (ao centro) com o coletivo Traga Arquivo pessoal João explica ainda que, além de valorizar a arte em suas vertentes experimentais e disruptivas, a curadoria da mostra também traz um “toque especial” em homenagem a Diddy. "A curadoria foi focada em uma parte espiritual, de valorização à vida. Diante de todo o contexto da Diddy, vamos trazer recortes de pensar em um outro olhar por meio da arte. São artistas que fizeram parte da história da Traga, que existe desde 2016. Queremos trazer visibilidade às artistas que sempre estiveram conosco, incluindo artistas de outras cidades", descreve. Déficit cultural e político Ao g1, João destaca que diversos fatores podem dificultar a expansão e a valorização da cultura queer no interior, entre eles, a falta de parcerias com o poder público. "Ao longo dos dez anos de coletivo, não consigo citar parcerias com o poder público. As leis de incentivo estão muito distantes de nós. Encontramos iniciativas dos espaços privados das cidades na maioria das vezes. Tatuí abriu um edital e, diante dessa falta de propostas e possibilidades, nos inscrevemos", relata. "Percebemos que, dentro de um estado, existe uma valorização, uma circulação de capital e de pessoas. Vivemos uma realidade extremamente desigual em relação aos artistas de São Paulo, que têm muito mais acesso e possibilidades. É um projeto de luta e resistência. Os municípios precisam pensar em políticas coletivas, assim como os grandes centros", completa. Coletivo Traga existe há dez anos na região de Sorocaba (SP) Arquivo pessoal O organizador alega que o contraste cultural entre a capital e as cidades do interior pode fazer com que os costumes das comunidades marginalizadas não cheguem à população. "Acho que a falta de estímulo faz com que não chegue. Se pegarmos a história contemporânea e LGBTQIA+ da capital, as primeiras grandes boates surgem nos anos 1970. Nelas, há um incentivo, as artistas se movimentam, criam um público espontâneo de forma natural", comenta. "Em Sorocaba, isso só acontece a partir dos anos 2000. O interior acaba tendo esse atraso e, com isso, faz com que não haja estímulos para nos colocarmos enquanto classe artística e comunidade LGBTQIA+. Se não cavarmos nossos espaços, nós não existiríamos", finaliza João. Initial plugin text Veja mais notícias no g1 Itapetininga e Região VÍDEOS: assista às reportagens da TV TEM
