Secas, enchentes e comida mais cara: como a crise climática afeta a nutrição infantil
Secas, enchentes e comida mais cara: como a crise climática afeta a nutrição infantil Adobe Stock Queimadas, enchentes e outros eventos climáticos extremos já não são as únicas formas pelas quais as mudanças climáticas se fazem presentes na vida de crianças ao redor do mundo. Cada vez mais, seus efeitos também chegam à alimentação. As secas reduzem a produção agrícola, as inundações interrompem estradas e cadeias de abastecimento e o aumento dos preços limita o acesso das famílias a frutas, verduras e outros alimentos frescos. Nesse cenário, ganham espaço produtos mais baratos, duráveis e de baixo valor nutricional, ampliando o risco de duas condições que, à primeira vista, podem parecer contraditórias: a obesidade e a desnutrição infantis. É esse conjunto de relações que o Painel Interativo de Sindemia Global em crianças menores de 5 anos procura tornar visível. O painel integra o projeto Sindemia Global: o impacto das mudanças climáticas antropogênicas na saúde e na nutrição de crianças menores de cinco anos atendidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Ele apresenta informações municipais sobre problemas nutricionais e emissões de gases de efeito estufa. O objetivo desse painel não é apenas mostrar onde se concentram a desnutrição e o excesso de peso, mas também ajudar a compreender como essas condições se distribuem pelo território e se relacionam com fatores ambientais. A ferramenta permite criar alertas de gravidade quando mais de um agravo está presente em um mesmo município e quando há tendência de piora desse cenário ao longo dos anos. Siga o canal do g1 Bem-Estar no WhatsApp Agora no g1 A ferramenta foi desenvolvida pelo Sustentarea, núcleo que reúne pesquisadores, estudantes e profissionais de diferentes áreas para estudar e desenvolver intervenções criativas no contexto dos sistemas alimentares, da alimentação sustentável e da sindemia global. Esse grupo de pesquisa e extensão está sediado na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP). O ponto de partida para compreender essa problemática está no fato de que a obesidade, a desnutrição e as mudanças climáticas não são problemas isolados. Em 2019, uma comissão internacional da revista científica The Lancet reuniu essas três crises sob o conceito de sindemia global. O conceito de sindemia O termo “sindemia” descreve a ocorrência simultânea de duas ou mais epidemias que interagem entre si, agravam seus efeitos e compartilham causas sociais comuns. No caso da sindemia global, obesidade, desnutrição e mudanças climáticas coexistem e são impulsionadas por fatores estruturais semelhantes. Entre eles estão a desigualdade social, a dificuldade de acesso a alimentos saudáveis e a sistemas sustentáveis de produção de alimentos. Também contribuem os meios de transporte e as mudanças no uso da terra, ambos com impactos sobre a saúde humana e o ambiente. No centro dessa dinâmica estão os sistemas alimentares, que abrangem a rede de atores e todas as etapas da cadeia de produção, do processamento, da distribuição, da comercialização e do consumo de alimentos, e as interações entre elas e as influências externas, como fatores ambientais, econômicos, políticos, tecnológicos e culturais. Esses sistemas estão associados a cerca de 74% das emissões brasileiras de gases de efeito estufa. Ao mesmo tempo, são eles que determinam quais alimentos chegam aos territórios, quanto custam e quem consegue comprá-los — o que pode favorecer tanto a desnutrição quanto o excesso de peso. O painel concentra-se nas crianças menores de 5 anos, que se encontram em uma fase de elevada vulnerabilidade biológica e social. Nos primeiros anos, a alimentação e as condições ambientais influenciam o crescimento, o desenvolvimento, a imunidade e a saúde ao longo de toda a vida. Os efeitos da crise climática e da má nutrição não se distribuem igualmente: crianças pequenas e famílias de baixa renda tendem a sofrer impactos mais intensos e têm menos recursos para se adaptar. A ferramenta reúne dados dos municípios brasileiros entre 2008 e 2019 e permite acompanhar, conjuntamente, a evolução do déficit de estatura, do excesso de peso e das emissões de gases de efeito estufa por habitante. Mais do que localizar cada problema separadamente, a ferramenta procura identificar onde se sobrepõem e quais territórios devem ser considerados prioritários nas políticas de saúde, alimentação e clima. Como o painel identifica prioridades Para identificar os municípios mais vulneráveis, o painel combina dados do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan) sobre déficit de estatura e excesso de peso com estimativas municipais de emissões de gases de efeito estufa do SEEG Brasil. A análise considera tanto a situação registrada em 2019 quanto a evolução dos indicadores entre 2008 e 2019. Os anos de 2020 a 2022 foram excluídos por representarem um período atípico. Durante a pandemia de covid-19, houve uma redução na procura por atendimento médico. Essa redução distorceu significativamente as tendências utilizadas na análise, comprometendo a confiabilidade dos dados desse período. Cada município recebe, para cada um dos três componentes da sindemia, uma classificação que varia de “muito bom” a “muito ruim”, de acordo com a tendência de aumento ou diminuição e com a prevalência registrada no último ano analisado. Os critérios nutricionais seguem referências da Unicef, da Organização Mundial da Saúde e do Banco Mundial, enquanto os limites relativos às emissões foram definidos a partir das metas climáticas apresentadas pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, o IPCC. Em seguida, os resultados são combinados. O painel também identifica territórios com dupla carga de má nutrição, em que coexistem desnutrição e excesso de peso, e aqueles em que os problemas nutricionais se associam a emissões elevadas. As demais categorias indicam alertas específicos sobre clima, desnutrição ou excesso de peso, além de situações consideradas mais favoráveis. Isso não significa, porém, que as emissões de um município sejam a causa direta dos problemas nutricionais observados. Os mapas servem principalmente para identificar padrões territoriais, orientar novas pesquisas e ajudar gestores a direcionar políticas de saúde, alimentação e clima. Quatro perfis de sistemas alimentares Não há um único sistema alimentar brasileiro. As condições de produção, acesso, consumo e impacto ambiental variam conforme as características econômicas, sociais e geográficas de cada região. Para representar essa diversidade, os pesquisadores recorreram ao Índice Multidimensional Brasileiro de Sistemas Alimentares Sustentáveis, o MISFS-R. O índice reúne 46 indicadores distribuídos em quatro dimensões — social, nutricional, ambiental e econômica — e permite comparar o desempenho dos estados e de suas capitais. Com base em uma análise que agrupou territórios com características semelhantes, os pesquisadores identificaram quatro grandes perfis de sistemas alimentares no Brasil: 1) Cinturão Agrícola — formado por Acre, Rondônia, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e Tocantins. Caracteriza-se pela força da produção agropecuária e por indicadores de bom desenvolvimento econômico, mas também pela elevada pressão ambiental associada à pecuária extensiva e ao desmatamento. 2) Polo Econômico Central — reúne os estados das regiões Sul e Sudeste. Apresenta o melhor desempenho geral no índice. Ainda assim, convive com problemas como desigualdades de gênero e raça no meio rural e uso elevado de agrotóxicos. 3) Eixo de Desenvolvimento Latente — correspondente aos estados do Nordeste. Concentra os resultados mais desfavoráveis nos indicadores de renda, produtividade alimentar e nutrição. 4) Fronteira da Vulnerabilidade — formada por Pará, Amazonas, Roraima e Amapá. A área é marcada por maior prevalência de insegurança alimentar, menor diversidade da dieta e dificuldades de acesso aos alimentos. Esses quatro perfis ajudam a contextualizar os dados do painel. Em um território, o problema alimentar pode estar relacionado à baixa renda e à dificuldade de acesso. Em outro, à expansão de ambientes alimentares dominados por produtos ultraprocessados ou às consequências ambientais de um modelo de produção intensivo. O levantamento feito pelo painel reforça que proteger a saúde das crianças exige ações que vão além do setor da saúde. Garantir uma alimentação adequada na primeira infância depende de políticas de renda, segurança alimentar, produção sustentável de alimentos, abastecimento, alimentação escolar, proteção ambiental e adaptação às mudanças climáticas. Ao aproximar clima, alimentação e saúde infantil, o painel mostra que enfrentar a desnutrição e a obesidade também significa enfrentar as condições sociais e ambientais que as produzem. Marina Maintinguer Norde é nutricionista, mestra e doutora pela Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo (USP). Ela recebe financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). Aline Martins de Carvalho é doutora em Nutrição e professora na Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo (USP). Ela recebe financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), Instituto Clima e Sociedade e Conselho Nacional de Desenvolvimento Cinetífico e Tecnológico (CNPq). Fernanda Gomes Ferreira Teixeira é líder da Comunicação Científica do Sustentarea, Universidade de São Paulo (USP). Ela recebe financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Mariana Ceci é da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e recebe financiamento do Sustentarea (FSP-USP).
