Oitava obra literária de Jorge Carlos Fonseca apresentada esta quinta-feira na Praia
Já tivemos várias conversas sobre a sua obra literária. Desta vez, chega-nos A Guerra, o Amor, os Versos. O que é que este livro acrescenta ao escritor? Isso deveria ser o jornalista ou o crítico literário a dizê-lo. O que por cá, infelizmente, praticamente inexiste. Para a nossa comunicação social é perfeitamente igual a obra de um Prémio Camões ou um conjunto de textos sem qualquer valor literário apresentado por um improvável candidato a escritor. Sendo a minha oitava obra de cariz literário, é normal que haja algo diferente. Olhe, um crítico literário cabo-verdiano, também poeta, José Eduardo Cunha, disse o seguinte sobre a minha obra literária mais recente, melhor, após, O albergue espanhol : «O que esta segunda fase nos revela, é um autor voraz a devorar novas leituras e expandir-se para novos territórios literários, revelando, sem angústias, antigas e novas influências, de Breton a Padura, de Ponge a Vila-Matas, de Char a Sebald, de Arendt a Sontag, de Trotsky a Borges, de Frida a Mercader, entre muitos outros encontros e desencontros, gente estimável ou detestável. Estamos perante o olhar panótico de um Ulisses cabo-verdiano, que desde cedo recusou a claustrofobia localista e regionalista, a que dedicará, como vimos, um renovado e amadurecido olhar. É neste contexto que reemerge o experimentalista ousado, esteticamente em constante processo de atualização, que circula, sem complexos, do surrealismo ao realismo, da poesia à prosa, do diário à crónica, mergulhando nesta contemporaneidade de uma literatura dita ‘em crise’ de identidade, adotando, com total naturalidade, nesse processo de “fluidificação dos géneros” como o designou JL Nancy».Não estou em desacordo com o que o crítico diz e que aparece, aliás, na contracapa deste livro. Posso dizer que, com o tempo, com a prática da escrita e das leituras – apesar de tudo, muito variadas – procurei, por exemplo, apurar o uso das técnicas e dos instrumentos do surrealismo. Marcelo Rebelo de Sousa disse, no lançamento recente deste livro na Feira do Livro de Lisboa, que esta obra era a menos surrealista do conjunto da minha produção poética. Talvez… procurei harmonizar a sua utilização, adequá-los a … pode parecer demasiada pretensão, mas, sim, um estilo de escrita. Não me parece que escreva como Breton ou Crevel, nem como Vila-Matas, muito menos como Strindberg, Arménio Vieira ou Pessoa. O título coloca lado a lado três palavras aparentemente diferentes — guerra, amor e versos. Foi o livro que lhe imp ôs este título ou foi o título que acabou por revelar a unidade do livro? O título foi a última decisão tomada. Talvez tenha sido, pois, o livro a impor o título. Por sinal, há um texto no livro que tem um título parecido: Amores, versos e espólios de guerra . Poderia, pois, ser o título da obra. Mas nunca fui um grande programador. Acabara de escrever e publicar Escritos ucranianos - obra onde pretendi fazer literatura, fazer poesia e não um manifesto ou um ensaio político (que até poderia fazer, já que a condenação à invasão ilegítima da Ucrânia constituía para mim uma posição óbvia) - e as imagens de terror continuavam presentes no meu ser, na minha pele. Destarte, elas terão sido, inicialmente, o pretexto para a escrita, numa sua primeira parte. Mas com a ideia que cheguei a expressar de que n o futuro tudo será poesia, não apenas o amor e o ódio, o inferno e os anjos, todos os seus interstícios, todas as suas escarpas, todos os seus intervalos... surgem o amor e... os versos.Mas lá que aquele fragmento que lhe referi (o 34) bem poderia dar-lhe uma resposta satisfatória… sim senhor: ‘Na guerra da escrita, ficam-se paixões e despojos pelos coxins do desejo. Há um lastro de nudez na memória das coisas do mundo, Mariupol, Bucha, Aleppo, Lubianka, estirada em inesperado strip-tease… . Indiscutível, imponente espanto, onde coabitam liberdade, eros… um ataque surpreendente e fatal e as quentes e húmidas gotas de água a emergirem da mulata epiderme de umas coxas com asas, deslumbrantes (disputam-nas, com estético fair-play , Bresson e Godard)’. Há neste livro poesia, prosa poética e crónica literária. É uma fronteira que lhe interessa explorar ou, para si, esses géneros acabam por ser diferentes formas de dizer a mesma coisa? Umas vezes, existe uma opção a priori ; outras vezes, o texto vai-se fazendo e escolhe um caminho. Já me aconteceu amiúde começar texto em prosa e, pelo caminho, ver-se ele transformado em forma poética (no sentido clássico). Estou em crer que não terei sido eu a escolher a concreta forma de ordenar as palavras, os sons ou os trilhos que levarão a salvar o mundo. Eles é que se terão imposto ao poeta. Eduardo Lourenço terá dito que apoesia é aquela espécie de texto sem matéria porque é da matéria toda. Sim, a poesia é sempre um acaso. Do destino? De um deus? Conhecendo o seu percurso, sabemos que a política, o direito e a literatura convivem há muito tempo na sua pessoa. Neste livro, sente que o poeta olha para a guerra, o amor e o mundo de uma forma diferente daquela com que o jurista ou o homem político os olha? São três linguagens muito diferentes. O domínio da linguagem é sempre decisivo. É tão importante na literatura quanto no direito ou na política. O que se pode dizer é que a linguagem do direito é mais rígida, mais matemática , mais lógica, normalmente menos criativa. O direito não é propriamente uma disciplina, no essencial, estética. A linguagem da política também é mais objectiva, directa, crua, infelizmente muito feita de lugares-comuns, árida, «chata», cheia de implementações, com efeito, empoderamentos, transições, estamos a falar de, quando fui PR, talvez por ser escritor, por ter começado a escrever versos ainda no ventre da minha mãe, pontuava, quase sempre, tais intervenções com referências culturais e/ou literárias. Mas é evidente que nenhum Presidente escreve «O albergue espanhol», «Porcos em delírio» ou esta «A Guerra, o Amor, os Versos»; pode fazê-lo o cidadão-escritor que exerce a função presidencial… transitoriamente. É verdade que nos primeiros escritos terei caído na tentação de poemas «intervencionistas», na maioria dos casos não publicados. Quando publico pela primeira vez, nuns Jogos Florais, em 1975-76, e ganho o segundo prémio, ex-aequo com o já consagrado Osvaldo Osório, há poemas sobre a revolução, ‘Ombrooo armas!’, sobre a ‘reconstrução nacional’, diques, apartheid, mas creio que tinha já o filtro da arte, da estética, tinha já a noção de que fazer poesia seria algo mais do que proclamar intenções revolucionárias, querer mudar o mundo, agitar as massas. Já me apelidavam de surrealista, creio… talvez mais uma vez sem razão, pelo menos razão total. O que não pretende dizer que o poeta deva ser um… asceta. Pode olhar e olha para o mundo e para as coisas. Ser rebelde. Seguramente terá os olhos abertos. Opina, se quiser. Poderá inclusivamente ficar imerso nos seus processos estéticos, de construção estética. Uma questão de opção. Mas, pretendendo intervir, deve fazê-lo como criador, como poeta e não a qualquer outro título. Até pela razão de que a escrita autêntica não consegue sobreviver com um estatuto de subserviência. Afogar-se-ia em definitivo. Curiosamente, entre nós, existe ainda, em boa medida, a procura de uma tal escrita heroica, muitas vezes fora de horas. Há uns meses li um artigo de Leonor Baldaque, numa revista. Ela pretendia que só atinge a grandeza o artista, o escritor, que, além do talento e do génio, possuísse a qualidade suprema da compaixão, «de sentir com os outros». Li isso dezenas de vezes, será mesmo assim? Ela tenta convencer-nos invocando o exemplo de Byron, ‘esse suposto self absoluto’, o maior escritor depois de Shakespeare, segundo a articulista. Mas pensei: isso, afinal, é muito diferente da «posição política da arte de hoje» (1935) ou de dito do senhor Samuel Rosenstock, aliás, Tzara (escrever ‘para procurar homens e nada mais’)? Será crucial para a literatura um ‘espaço humano habitável’ (Eduardo Lourenço)? Sim, parece-me, como diz o pensador Eduardo Lourenço, a propósito de Bessa-Luís, que o que se ‘mostra’ vale bem mais do que se ‘pensa’. Depois de tantos livros e de uma vida tão intensamente repartida entre o direito, a política e a literatura, há ainda alguma coisa que o escritor Jorge Carlos Fonseca sinta que precisa de dizer — e que ainda n ão disse? Eu podia responder, remetendo-o simplesmente para o último fragmento do livro, O poema fatal , significativamente escrito formal ou aparentemente em prosa, em linhas corridas e completas. O poeta assevera que teve uma vida inteira à procura da palavra. ‘Uma vida inteira à procura da palavra. A exacta, a insubstituível. A cabal e perfeita, a única capaz de dizer o POEMA, nomeá-lo sem apelo nem agravo. Sem o amparo de qualquer outra, sequer de um arremedo instrumental, um acento, um esquivo ponto, um traço miúdo. (...)Ano sobre ano, noites sobre noites, medita, sofre, rasga e reescreve, sonha tê-la finalmente encontrado ou ela vindo ter a si, num repente mágico, num amiúde tenso acumular de cansaço, rugas, insónias, sofreguidão e… indizível prazer. (...) Certo é que se vai desfazendo de massa e erodindo as artérias da vida, a agilidade das mãos e a firmeza dos passos. Definham-lhe as articulações, o batimento do coração e os silêncios, mas inquebrantável se mostra a vontade de encontrar a palavra que leva à salvação. No derradeiro sopro de vida, a murmurada soletração: Liberdade’. Tal como agora me questiona, uma vez, também me perguntaram qual o desafio que me faltava vencer e respondi mais ou menos assim (o jornalista era também poeta): O do inevitável diálogo (ou confronto) entre a vida e a morte. Além deste, poder ainda ver Cabo Verde como um efectivo país desenvolvido, com liberdade, com elevado desenvolvimento cultural e humano, um país bem mais igual e justo, se possível com a poesia a inundar as ilhas, as rochas, os mares, os ventrículos e as cidades todas. Não pode a poesia deixar de ser o estandarte da soberba e criadora aventura da humanidade! Por isso, aí estou até ao último sopro. Falta e faltará, sempre, aquilo que, de essencial, precisa a humanidade. Cabe ao poeta, aos poetas autênticos, procurar esses caminhos. Por isso que digo, neste ambiente muito sombrio em que vivemos hoje, um pouco por todo o lado, citando outrem, que nunca a humanidade precisou tanto dos poetas.
