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Calistenia não é só moda: treino com peso corporal melhora força e função física, apontam estudos

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Calistenia: o que a ciência diz sobre treinar usando o peso do próprio corpo como resistência Adobe Stock Barra fixa, flexões, mergulhos, agachamentos e, para os mais avançados, movimentos tão impressionantes quanto o muscle-up, que nos permite passar da posição suspensa para ficar acima de uma barra; la planche, em que nosso corpo permanece na horizontal apoiado apenas nas mãos, com os pés no ar; ou o front lever, que também consiste em manter a posição horizontal, mas suspenso de barriga para cima em uma barra. A calistenia ganhou enorme popularidade nos últimos anos, especialmente graças às redes sociais e à instalação de equipamentos públicos para treino. Mas será que a calistenia é realmente eficaz ou estamos simplesmente diante de mais uma nova moda esportiva? Para responder a essa pergunta, convém começar esclarecendo o que entendemos por calistenia. Nosso corpo também pode ser um peso A calistenia é uma forma de treinamento físico na qual utilizamos principalmente nosso próprio peso corporal como resistência. Seu nome deriva dos termos gregos kalos (“belo”) e sthenos (“força”), embora o uso moderno da palavra tenha começado a se difundir no século XIX para se referir a diferentes formas de exercício. A própria origem do termo já relaciona, portanto, movimento e força. Siga o canal do g1 Bem-Estar no WhatsApp Calistenia: saiba mais sobre este treino simples que fortalece o corpo inteiro Hoje, a calistenia inclui exercícios tão conhecidos como agachamentos, passadas, flexões, barras fixas ou fundos. Não é preciso realizar movimentos acrobáticos para praticá-la. Uma pessoa que começa fazendo uma flexão contra a parede utiliza o mesmo princípio que outra capaz de realizar uma flexão com apenas uma mão: mover o corpo contra a gravidade. E esse corpo constitui uma carga real. Durante uma flexão convencional, por exemplo, os braços podem suportar cerca de dois terços do peso corporal. Apoiar os joelhos ou elevar as mãos ou os pés permite diminuir ou aumentar essa resistência. Em outras palavras: uma flexão não é um exercício “sem peso”, porque o peso somos nós mesmos. Uma academia que levamos sempre conosco Essa característica torna a calistenia uma opção especialmente interessante para começar a se exercitar. Não requer necessariamente ir à academia, usar aparelhos nem fazer grandes investimentos, e pode ser praticada em casa, em um parque ou praticamente qualquer lugar. Recomendações publicadas em 2026 pelo American College of Sports Medicine (ACSM), após a análise de 137 revisões sistemáticas com mais de 30 mil participantes, corroboram exatamente essa ideia: o treinamento com peso corporal e os programas realizados em casa também podem melhorar a força e a função física. Assim, um estudo que comparou um programa progressivo de flexões com outro de supino (o conhecido exercício em que empurramos uma barra a partir do peito, deitados em um banco) constatou melhorias na força em ambos os grupos. Outro estudo ajustou a dificuldade das flexões para torná-la comparável à resistência utilizada no supino e observou melhorias semelhantes tanto na força quanto na espessura muscular do peitoral e do tríceps após oito semanas. A explicação é relativamente simples: nossos músculos não precisam saber se a resistência vem de um haltere, de uma máquina ou do nosso próprio corpo. O que eles precisam é enfrentar um estímulo suficiente que, com o tempo, vá aumentando. E aí surge uma palavra fundamental: progressão. Progredir não é fazer cada vez mais repetições Treinar com o próprio peso não significa nos limitarmos a fazer cada vez mais repetições. Podemos modificar as alavancas, os pontos de apoio, a amplitude de movimento ou a distribuição do peso. Por exemplo, uma flexão pode começar encostada a uma parede, continuar com as mãos sobre uma superfície elevada, passar depois para o chão e evoluir para variantes progressivamente mais exigentes. Essa forma de progredir apresenta, além disso, uma característica interessante: nos obriga a aprender a mover nosso próprio corpo. Ao modificar posições e apoios, devemos prestar atenção ao controle do tronco, ao equilíbrio, à amplitude de movimento e à nossa capacidade de manter uma execução adequada. Dessa forma, podemos reconhecer progressivamente até que ponto controlamos um movimento, quando perdemos a estabilidade ou qual variante ainda é muito difícil. Isso não significa que a calistenia desenvolva automaticamente uma melhor “consciência corporal” do que outros métodos, mas transforma a mecânica do próprio movimento em uma parte importante da dosagem da carga. Mas é aqui que surge também uma de suas principais limitações. Uma flexão de braço pode ser simples para uma pessoa treinada e extremamente exigente para outra. Uma barra fixa pode servir de aquecimento para alguém com grande força relativa e ser praticamente impossível para quem está começando. “Sem pesos” não significa necessariamente “fácil”. Por isso, a calistenia deve ser personalizada como qualquer outro treinamento. Para algumas pessoas, o ponto de partida será um agachamento; para outras, levantar e sentar em uma cadeira já representa resistência suficiente. O segredo está em encontrar uma variante que represente um desafio viável e progredir a partir dela. Falso dilema Mas então, o que é melhor: calistenia ou musculação? Provavelmente essa é uma pergunta equivocada. Os pesos permitem aumentar a dificuldade de forma muito gradual: basta adicionar alguns quilos. Na calistenia, por outro lado, progredir geralmente implica modificar a posição do corpo ou passar para uma variante mais exigente, e essa mudança nem sempre pode ser feita de forma tão progressiva. Por exemplo, uma pessoa pode começar realizando o que se chama de “remada no TRX” — puxando o corpo em direção a alças enquanto mantém os pés apoiados no chão — e, à medida que ganha força, inclinar cada vez mais o corpo para aumentar a dificuldade. Mas dar o passo seguinte para uma barra fixa significa superar uma proporção muito maior do nosso peso corporal e pode representar um aumento significativo da exigência. Essa diferença fica especialmente evidente em pessoas treinadas e em exercícios para as pernas. Quando nosso próprio peso deixa de proporcionar um estímulo suficiente, adicionar carga externa por meio de halteres ou pesos pode ser uma forma mais simples e precisa de continuar progredindo. As evidências indicam que, se quisermos melhorar especialmente nossa capacidade de mover cargas muito pesadas, geralmente é útil treinar também com resistências elevadas. Por outro lado, para aumentar o tamanho do músculo, não é imprescindível trabalhar sempre com muito peso: também é possível obter melhorias com cargas mais leves, desde que o exercício seja suficientemente exigente. Um bom ponto de partida Por isso, a calistenia e os pesos não devem ser entendidos como métodos opostos, mas como ferramentas que podem se complementar. Podemos começar fazendo barras fixas apenas com nosso peso corporal e, quando elas já ficarem muito fáceis, adicionar peso externo — ou seja, peso extra preso ao corpo — para continuar aumentando a dificuldade. No fim das contas, o princípio continua o mesmo. A calistenia não funciona porque nosso corpo tem alguma propriedade mágica como ferramenta de treinamento, mas porque ele também é uma forma de resistência. E aprender a movê-lo, controlá-lo e torná-lo progressivamente mais forte pode ser uma das formas mais simples e acessíveis de começar a se exercitar. Não precisamos começar fazendo uma barra fixa ou um muscle-up. Para algumas pessoas, fazer a primeira flexão com as mãos apoiadas na parede já é um excelente ponto de partida. Os autores não prestam consultoria, trabalham, possuem ações ou recebem financiamento de qualquer empresa ou organização que se beneficiaria deste artigo e não revelaram qualquer vínculo relevante além de seus cargos acadêmicos. Alejandro J. Almenar Arasanz é profesor da área de Fisioterapia, da Universidad San Jorge Marta Diarte Oliva é docente e investigadora da Universidad San Jorge

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