Bruxelas não vai mudar regras tecnológicas para evitar conflito com EUA
"A Europa deve manter as suas regras, adotadas de acordo com a nossa soberania, os nossos valores e os nossos princípios", afirmou Teresa Ribera, quando questionada, numa conferência em Madrid, sobre a UE devia alterar a regulamentação relacionada com a tecnologia para evitar conflitos com os Estados Unidos. A vice-presidente executiva da Comissão Europeia (CE) e comissária para a Transição Limpa, Justa e Competitiva defendeu o diálogo e a cooperação com outros países e blocos de países, mas realçou que "isso não significa ceder porque a outro lhe convém mais" nem implica renunciar às regras da Europa. A legislação europeia é fruto de processos "longos, participados, extensos e modulados", sublinhou Teresa Ribera, que falava numa conferência da associação Fórum Nova Economia. Para a comissária, a UE deve continuar a construir relações internacionais baseadas na "previsibilidade e respeito pelas regras" com todos os países e procurar espaços de entendimento sobre o desenvolvimento e o controlo da inteligência artificial (IA). Entre as questões que considerou especialmente necessárias nesse entendimento internacional está a criação de uma regulação "transparente e segura" da IA, baseada em mercados sujeitos à concorrência, que evite a concentração de poder e garanta a responsabilização de quem desenvolve e gere estas ferramentas tecnológicas Teresa Ribera acrescentou que a regulação deve procurar que o desenvolvimento da IA se traduza num benefício para o conjunto das sociedades, até porque estas inovações são também resultado de "um esforço púbico notável". "É muito difícil encontrar outro momento na história em que tenha havido tal nível de concentração de poder económico e de poder nas mãos dos grandes gigantes digitais", afirmou. A comissária considerou que o êxito destas empresas obriga a ativar mecanismos que impeçam a concentração "em poucas mãos" de capacidades tão grandes e sublinhou que nas últimas semanas houve sinais de alerta sobre "quem controla o quê" e sobre a IA. É preciso evitar que a IA "vá crescendo sobre si mesma a partir de informação sintética e com algoritmos que ninguém controla" até acabar "fora de controlo", acrescentou. Empresários como Elon Musk, da xAI, Sam Altman, da OpenAI, mostraram-se nos últimos dias favoráveis à proposta do presidente executivo (CEO) da Anthropic, Dario Amodei, de abrandar o ritmo de desenvolvimento da IA, após vários incidentes. O CEO da Anthropic disse ainda recear que dentro de seis a 12 meses, um grupo deste tipo possa dominar a internet e que a escala de danos possa aumentar a partir daí, caso não sejam tomadas as medidas de salvaguarda necessárias. Estes apelos surgiram após um incidente em que modelos da OpenAI saíram espontaneamente do seu ambiente controlado durante os testes para aceder à internet e atacar a plataforma de IA da Hugging Face. Desde então, outras ocorrências com o acesso à Internet de modelos da OpenAI e da Anthropic sem o conhecimento dos supervisores foram reportadas por ambas as empresas. Em todos os casos, envolviam agentes de IA, um programa específico construído sobre um modelo e dotado de conhecimentos e objetivos próprios, que demonstraram uma propensão para se coordenarem, estabelecerem uma hierarquia entre si, enganarem e apagarem os vestígios dos seus atos ilícitos. No início de agosto, o governo dos EUA estabeleceu um quadro regulamentar que prevê a revisão voluntária de novos modelos de IA antes do lançamento. No entanto, o Presidente norte-americano, Donald Trump, tem declarado oposição a qualquer medida que abrande o desenvolvimento da IA nos Estados Unidos. Foto: depositphotos
