Depository of News

O Seminário-Liceu foi criado há 160 anos (||)

newsdepo.com · world

<p>Conforme o decreto fundador do Seminário Eclesiástico da Diocese de Cabo Verde de 3 de setembro de 1866 o Reitor era o Prelado da Diocese coadjuvado na parte administrativa, académica e disciplinar por um Vice-Reitor.</p><p>O último Vice-Reitor do Seminário-Liceu de S. Nicolau foi o Cónego António José de Oliveira Bouças ¹.</p><p style="text-align: center;"><em><strong>Quem foi António José de Oliveira Bouças?</strong></em></p><p>Nascido em Sta. Maria de Adaúfe, Braga (Portugal), no dia 2 de novembro de 1864, foi um estudante aplicado que fez com distinção o Curso Teológico no Seminário de Braga, revelando-se já, entre os seus condiscípulos, “orador elegante e ardoroso, mostrando na facilidade de dicção e rapidez da frase a limpidez das ideias, que é fácil em conceber e o calor da paixão que lhe é tão espontânea quão sinceros os sentimentos!” </p><p>Ordenado Presbítero em 15 de julho de 1889 partiu para Cabo Verde. No Seminário do Arquipélago foi professor de Ciências Eclesiásticas e de diversos preparatórios desde 1892. Destacou-se pela orientação patriótica e entusiástica que soube incutir no espírito dos jovens estudantes. O Cónego Bouças foi Vice-Reitor no período de 1 de fevereiro de 1905 a 13 de junho de 1917, data da extinção do Seminário-Liceu. </p><p>“Monsenhor Bouças era uma dessas personagens que só de tempos em tempos surgem no seio das sociedades, sem o quê os talentos e as virtudes seriam dons vulgares”<em style="background-color: initial;">².</em>&nbsp;Limitar-me-ei a acrescentar que foi um Homem de Causas Nobres, na sua casa – o Seminário na Ribeira Brava e no Arquipélago que tão bem conheceu.</p><p style="text-align: center;"><em><strong>A Causa do Seminário</strong></em></p><p>“Força, dignidade, grandeza, elevação” – eram de facto as ideias que a presença do Senhor C.º Bouças despertava imediatamente. Assim o definiu o seu aluno António Aurélio Gonçalves, para quem o Professor foi “Um dos Grandes”:</p><p>Pela primeira vez, encontrávamos alguém que nos introduzia na própria laboração da sua vida mental, que nos fazia sentir que éramos homens, chamados a apreciar e a criticar ideias, homens com a responsabilidade das suas opiniões. A tudo quanto isto possa ter de sedutor para um adolescente, junte-se o encanto das exposições. Escutei individualidades de ampla envergadura: ouso afirmar que o C.º Bouças foi o professor e o conversador que me pareceu exprimir-se com mais pronta elegância. A frase saía-lhe familiar, fácil, mas lapidar, perfeitamente construída. (…) </p><p>Revejo-o e ouço-o falando na última aula de História: ─ Os senhores vão passar as férias longe do Seminário. Evitem as más companhias, não se misturem com todos. Isto não é orgulho, não lhes recomendo soberba, mas sempre ouvi dizer: quem a boa árvore se chega boa sombra o cobre. Nunca fechem os livros porque o homem moderno não pode ser como os rapazes da minha geração, que se contentavam com passar de ano para ano e tirar um curso. Leiam constantemente, organizem bibliotecas, façam conferências, escrevam livros…</p><p>Nós arregalávamos os olhos perante a magnificência deste programa: o quê? O Bouças achava-nos capazes destas aventuras esplêndidas? Mas ele sabia lançar a semente. O olhar fitava-nos direito, cravava-nos a ideia no cérebro, a voz intimava…. Algum fruto sazonaria mais tarde.<em style="background-color: initial;">³</em></p><p>O Vice-Reitor não se limitava a cuidar da educação dos seus discípulos, zelava pelo bem-estar dos professores e pela conservação das instalações do Seminário. Em carta ao Governador, de 6 de setembro de 1916, denunciou a redução à ínfima espécie de “os já mesquinhos vencimentos do pessoal do Seminário-Lyceu, (…) a eliminação dum subsídio destinado a sustento d’alunos pobres e (…) a ausência de reparos nos edifícios em que funciona o Seminário, bastante danificados pela ação do tempo, que, a adiarem-se, causarão a ruína total desta fábrica que algum valor representa”<em style="background-color: initial;">⁴.&nbsp;</em>O Seminário seria encerrado um ano depois.</p><p style="text-align: center;"><em><strong>A Causa de Cabo Verde</strong></em></p><p>Quando chegou a Cabo Verde, Oliveira Bouças era secretário particular do Prelado da Diocese, D. Joaquim Augusto de Barros, cargo que exerceu até 1 de março de 1904. Foi ainda Cónego Capitular da Sé Catedral (decreto de 24 de abril 1893), Vigário Capitular (eleito em 21 de maio de 1905), Cónego Penitenciário (provisão de 24 de setembro de 1906) e Deão da Sé Catedral (decreto de 23 de abril de 1908). </p><p>No ano de 1895 tinha acompanhado o Prelado “na visita pastoral pelas insalubres ilhas do Arquipélago, sempre bem-disposto e dedicado amigo”&nbsp;<em style="background-color: initial;">⁵</em>. Conhecedor profundo das gentes e cultura cabo-verdianas, colaborou com o <em style="background-color: initial;">Almanach Luso-Africano Ilustrado</em> (1895, 1899) dirigido pelo Cónego António Manuel da Costa Teixeira. Em 1901 foi responsável pela revista <em style="background-color: initial;">A Esperança </em>(redação partilhada com o Cónego Teixeira), onde revelou os dotes de pedagogo e o conhecimento dos mais modernos movimentos de renovação da educação.</p><p style="text-align: center;"><strong>Sobre a instrução obrigatória:</strong></p><p>O primeiro passo para a felicidade de um povo é dar-lhe boa instrução a par d'uma sólida educação moral (…) É certo que já há muitas escolas, porém isso não é tudo; é preciso que a frequência seja obrigatória e que os governos coajam os pais a mandar à aula seus filhos. Não basta isto somente: é necessário que os professores sejam escolhidos e que possuam a compreensão do ministério sublime que têm a desempenhar. Há outro obstáculo à difusão tão necessária da instrução pelas camadas proletárias; é a falta de meios para comprar os livros indispensáveis para o estudo! Tal dificuldade só poderá ser remediada quando se criar um certo fundo caritativo para auxiliar os que desejam e não podem, por falta de meios. (<em>A Esperança</em>, 1901, n.º 3)</p><p style="text-align: center;"><strong>“A música nas escolas”: </strong></p><p>E é na escola, com as primeiras letras, que deve principiar a educação musical da juventude; (…) Em algumas casas d'educação, seminários e colégios, muito se tem feito já, porém, enquanto nos programas de ensino não for obrigatória a música, enquanto nas escolas elementares, que é o principal, não forem igualmente obrigados os alunos a aprender, ao par do A. B. C., o valor das notas e o solfejo, como preparação para o canto e para a futura execução que deve enriquecer o espírito, a arte musical continuará a ser património de alguns felizes e não a partilha da maior parte, como tanto era para desejar. (<em>idem</em>)</p><p>O património cultural de Cabo Verde preocupava-o. Em fevereiro de 1933, redigiu um Apelo em pró das ruínas da antiga Cidade da Ribeira Grande em Santiago<em> – Cabo Verde, 1533-1933</em> com a finalidade de: </p><p>Salvar do esquecimento as ruínas da nobre e antiga urbe cabo-verdiana. A Comissão de Rapazes de Boa-vontade deveria: Proceder ao arejamento da cidade morta, pondo a descoberto o seu perímetro, os seus muros, os arruamentos, os largos, etc. (…) Procurará, com método, os vestígios da catedral, das velhas igrejas, misericórdia, convento, capelas da via-sacra, paço episcopal, seminário, arcos de acesso, fortins, covais, pedras tumulares ou quaisquer outras de estilo ou brasonadas, inscrições, restos dos templos das descobertas. </p><p>Nesse mesmo ano denunciou a decadência do Seminário: “O edifício, grandioso, embora de simplicidade e modéstia, é hoje, depois de presídio de deportados, quartel militar de soldados gentios angolenses, uma lamentável ruína, como se por cima dela passasse o génio mau da destruição”.</p><p>António José de Oliveira Bouças faleceu na Vila da Ribeira Brava no dia 31 de maio de 1944. </p><p>__________________________</p><p>Notas de fim de texto:</p><p>¹&nbsp;Os dados biográficos do Vice-Reitor foram colhidos na sua biografia in <em style="background-color: initial;">Biografias de 31 Personalidades da Educação. Cabo Verde. Século XX, </em>ed. LPC, 2025, pp. 27-35.</p><p><em style="background-color: initial;">²</em>&nbsp;Francisco Lopes da Silva, artigo “Lembrando o Cónego Bouças” in Notícias, 8 de novembro de 1991.</p><p><em style="background-color: initial;">³</em>&nbsp;<em>Notícias de Cabo Verde</em>, 20 de julho de 1944.</p><p><em style="background-color: initial;">⁴</em>&nbsp;A carta endereçada à Secretaria do Governo da Província foi consultada no ANCV-SGG, cx. 700.</p><p><em style="background-color: initial;">⁵</em>&nbsp;<em>Occidente – Revista Illustrada de Portugal e do Extrangeiro,</em> 20 dezembro 1905, p. 280.</p><p><em><strong>Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1293 de 09 de Setembro de 2026.</strong></em></p>

Read full article →