O que novo presidente da Colômbia pretende com polêmicas imagens caminhando entre cadáveres
<img src="https://s2-g1.glbimg.com/S51INdiTqVTFX4leR0i8AciIDmg=/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/w/u/Ekcix0Toa3roIfnmAArQ/d8aadded-4cc2-4fe1-aed6-1e5df0eb0f59.png" /><br /> Durante sua campanha eleitoral, o presidente colombiano Abelardo de la Espriella prometeu uma postura firme contra o crime. Essas promessas foram consideradas por vários analistas como um dos fatores que contribuíram para a vitória dele nas eleições de junho. Espriella caminhando entre os corpos de supostos guerrilheiros Reprodução Redes Sociais Mas imagens compartilhadas por Espriella, nas quais ele aparece caminhando entre os corpos de supostos guerrilheiros mortos em uma operação militar, geraram debate e fortes críticas. O vídeo causou controvérsia em uma nação traumatizada por décadas de conflito armado e atrocidades cometidas tanto por insurgentes quanto por membros do exército e paramilitares. Na última quinta-feira (10/09), um juiz em Bogotá ordenou que o presidente ocultasse temporariamente essas publicações, segundo a agência de notícias AFP, que obteve o documento. Uma das pessoas que condenaram essas imagens foi a Defensora do Povo (cargo ligado ao Ministério Público da Colômbia), Iris Marín. "O Estado e o Governo não podem competir para ver quem consegue ser o mais cruel", disse ela na rede social X. "Mesmo em tempos de guerra, há limites, e a dignidade humana não desaparece com a morte. As imagens e os símbolos do poder público também importam." É precisamente no que essas imagens e símbolos comunicam que pode estar o que Espriella busca com sua estratégia de segurança. Força e intimidação O presidente divulgou um primeiro vídeo após uma operação das forças militares colombianas em Guaviare, na qual 23 supostos membros dissidentes das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e dois menores de idade foram mortos. Desde o início de seu governo, Espriella tem prometido impulsionar as forças militares do país Raul Arboleda/AFP via Getty Images O momento em que ele aparece caminhando entre os cadáveres faz parte de um vídeo mais longo, com pouco mais de sete minutos, no qual ele detalha as operações militares e informações sobre os insurgentes capturados e mortos. Dois dias depois, Espriella publicou novas imagens nas quais aparece perto de cadáveres após uma operação em La Guajira, no norte do país, na qual Naín Andrés Pérez Toncel (vulgo Bendito Menor), sua companheira Angélica Tarazona (vulgo La Bebecita) e outras duas pessoas foram mortas. "Mostrar isso transmite uma mensagem de força e intimidação", afirma o cientista político Carlos Cortés. O analista vê nas imagens uma coerência com a postura linha-dura que Espriella disse que adotaria em relação à segurança. O atual presidente se distancia, assim, da estratégia de seu antecessor, Gustavo Petro, que optou por negociar com os grupos armados para pôr fim ao conflito. Elizabeth Dickinson, analista do International Crisis Group, concorda que o presidente colombiano busca "enfatizar uma narrativa ofensiva". "As imagens mostram o controle do Estado sobre os criminosos", destaca a especialista. Segundo pesquisas de opinião, para uma parcela significativa dos colombianos, a principal preocupação está na segurança e na ordem pública. Desde o lançamento de sua campanha presidencial, Espriella tem aparecido em eventos públicos vestindo um colete à prova de balas, atrás de púlpitos blindados e entoando slogans contra o que ele chama de "narcoterrorismo". Catalina Suárez, estrategista política, acredita que essa performance nunca foi acidental: "Ele usa símbolos para mostrar que não se intimida". Sua caminhada entre cadáveres reforça a imagem de homem forte com a qual venceu a eleição e que agora quer manter no governo. Trecho de outro vídeo compartilhado pelo governo de Espriella Reprodução/ Gobierno de Colombia Debate na Colômbia Muitos de seus apoiadores ficaram satisfeitos com as imagens, como demonstram inúmeras mensagens que o presidente recebeu nas redes sociais. Mas muitos outros cidadãos e figuras da oposição as criticaram duramente. "Estamos testemunhando uma necrofilia midiática", disse a senadora María José Pizarro, do Pacto Histórico, partido de Petro. Claudia López, ex-prefeita de Bogotá e ex-candidata à presidência, abordou a controvérsia, afirmando que "o autoritarismo mafioso não respeita nem a vida nem a morte". O debate ganhou outra dimensão quando a Defensora do Povo se manifestou, pedindo que o Estado não competisse para demonstrar crueldade. Espriella se elegeu com um discurso linha-dura contra o crime Raul Arbolerda/ APF via Getty Images A posição dela foi contestada pelo ministro do Interior, Rodrigo Lara Restrepo — filho de Rodrigo Lara Bonilla, ministro da Justiça morto a tiros em um crime atribuído ao Cartel de Medellín em tempos de Pablo Escobar. "Lamentamos (...) o que consideramos um triste erro: equiparar o Estado a gangues narcoterroristas, como se estivessem competindo em crueldade (...) O Estado cumpre um dever constitucional de combater criminosos que perpetram o terror", escreveu o ministro. Dickinson afirmou que esse tipo de demonstração de autoridade não é novidade na Colômbia. "Durante a luta contra Escobar e os cartéis, imagens circularam. A famosa foto de Escobar morto perto de policiais foi amplamente divulgada." Tendência regional Em El Salvador, sob o comando de Bukele, imagens de supostos membros de gangues na prisão transmitem forte mensagem de submissão do crime ao Estado Marvin Recinos / AFP Via Getty Images A demonstração de autoridade e o uso da força são respostas recorrentes de governos nas Américas a problemas de segurança. O presidente de El Salvador, Nayib Bukele, frequentemente exibe imagens de supostos membros de gangues presos e subjugados. O presidente americano Donald Trump também compartilhou vídeos de ataques de militares americanos contra embarcações supostamente ligadas ao narcotráfico em águas do Caribe e do Pacífico. "A campanha dos EUA, na qual eles essencialmente executam extrajudicialmente supostos traficantes de drogas, abre caminho, acredito, para outros comportamentos que estão se repetindo na região", afirma Dickinson. "Se os EUA se comportam dessa maneira, rebaixam os padrões para o resto dos países." No caso da Colômbia, onde conflitos armados ferem a nação há mais de 60 anos, Dickinson alerta para o outro lado da demonstração de poder. "Nas comunidades afetadas pelo conflito, as imagens de Espriella são arrepiantes porque transmitem uma mensagem que enfatiza o número de mortos", destaca. A analista lembra que amplificar essa mensagem já levou, no passado, à morte de civis inocentes e ao aumento da violência estatal. "Não estou dizendo que isso esteja acontecendo agora, mas poderia ter o mesmo impacto no contexto colombiano", esclarece.
