Periquito, 'furacão' e verde e branco: conheça os símbolos do Uberlândia Esporte Clube, que decide a Série D neste domingo
<img src="https://s2-g1.glbimg.com/OhufBDR6ap8ILyYWhLX52CgKPis=/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2025/X/D/Goc05mTfetJkWTwERnUg/camisa-84-4-1-.jpg" /><br /> Estádio Juca Ribeiro em dia de jogo do UEC Reprodução/Uberlândia Esporte Clube: A história e seus personagens - Odival Ferreira Mais do que o time, os símbolos que marcam a história centenária do Uberlândia Esporte Clube estarão em evidência neste domingo (13), quando o time disputa a final da Série D do Campeonato Brasileiro contra o ASA de Arapiraca, no estádio Parque do Sabiá, em Uberlândia. Após vencer o primeiro jogo por 2 a 0, em Alagoas, o Verdão pode conquistar o título diante da torcida. A trajetória do clube é preservada em livros, jornais antigos, atas e nas lembranças de pessoas que ajudaram a construir e manter a história do Uberlândia Esporte Clube ao longo das décadas. Entre as principais marcas do time estão o verde e o branco, o periquito e o tradicional escudo. Também fazem parte dessa história expressões como “Furacão Verde da Mogiana” e apelidos como “Periquitinho Verde”, “Queridinho” e “Dão”. Os símbolos surgiram em diferentes momentos da história do clube. Alguns têm registros documentais, enquanto outros foram preservados principalmente pela tradição. Juntos, eles ajudam a contar a transformação do antigo Uberabinha Sport Club no Uberlândia Esporte Clube. Veja abaixo. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Triângulo no WhatsApp Fachada do Estádio da Associação Esportiva de Uberabinha, já em ruínas Reprodução/Arquivo Público de Uberlândia Antes do Periquitão, veio o verde A história começa em 1º de novembro de 1922, data apontada pelo escritor Odival Ferreira, no livro "Uberlândia Esporte Clube: A história e seus personagens", como o dia da fundação do clube, que ainda se chamava Uberabinha Sport Club. Segundo Ferreira, um grupo de pessoas insatisfeitas com os dirigentes da então Associação Sportiva de Uberabinha decidiu criar uma nova agremiação. A própria data de fundação carrega uma curiosidade. O clube nasceu no Dia de Todos os Santos, véspera de Finados. Por isso, o autor brinca com a dificuldade de escolher um santo padroeiro para o time. Uberabinha Sport Club vence Uberaba Sport Club em 1931 Reprodução/Arquivo Público de Uberlândia Décadas depois, em 1968, publicações relacionadas ao aniversário de 80 anos de Uberlândia registraram uma lista de nomes apontados como fundadores: Carlos Araújo, Alberto Marques da Silva, Hélvio Marques, Dário Luiz da Costa Filho, Pedro Thomé, Euclides Barros, Antônio de Souza, Aristides Magalhães, José Augusto de Figueiredo Murta, Lamartine Moreira e Cairo do Egypto. A documentação, porém, não é uniforme. O próprio livro de Ferreira reproduz diferentes versões encontradas em registros históricos sobre os primeiros anos do clube. Uma das versões aparece em uma ata atribuída a Agenor da Silva Pereira. Outra, baseada nos registros do historiador Tito Teixeira, aponta a criação do clube em 1922 e relata acontecimentos administrativos posteriores. É justamente nessa colcha de retalhos de versões que começa a história dos símbolos do Uberlândia. O verde que virou identidade Torcida do Uberlândia, Parque do Sabiá Giovanni Mendes/UEC As cores verde e branco foram adotadas ainda na fundação, quando o clube se chamava Uberabinha Sport Club. Segundo o atual presidente do Uberlândia Esporte Clube (UEC), Jânio Cabral, a escolha está relacionada ao contexto em que a equipe surgiu, na antiga Vila Operária, e à participação de fundadores ligados ao grupo político local conhecido como “Coiós”, entre eles Agenor Bino e Gil Alves dos Santos. Segundo Jânio, não há documentação oficial suficiente para determinar exatamente qual significado os fundadores pretendiam dar às duas cores. O que não deixou dúvida foi o que aconteceu depois: verde e branco se tornaram parte indissociável da identidade do clube. Quando o Uberabinha Sport Club passou a se chamar Uberlândia Esporte Clube, em 1929, as cores permaneceram. E, anos depois, o verde encontraria um companheiro quase inevitável: um pequeno pássaro. Por que um periquito? O mascote oficial do Uberlândia é o Periquitão UEC Em uma cidade onde os periquitos são presença conhecida nas árvores e nos céus, a ave encontrou no futebol uma segunda casa. O Periquitão é hoje o mascote oficial do Uberlândia Esporte Clube. Segundo Jânio Cabral, a associação entre o clube e a ave surgiu há algumas décadas e foi reforçada tanto pela predominância da cor verde quanto pela presença dos periquitos em Uberlândia. Mas há também um significado que vai além da aparência. Na leitura atual do clube, o periquito representa esperança e a vontade de voar alto — neste caso, em direção aos títulos. A explicação transforma uma ave comum da paisagem urbana em parte da identidade do Uberlândia Esporte Clube (UEC). O mascote também ajuda a entender a variedade de apelidos que o clube acumulou ao longo do tempo. No livro de Odival Ferreira, há registros de denominações como “Queridinho”, “Periquito”, “Periquitinho Verde”, “Furacão Verde da Mogiana”, “Verdão” e “Dão”. Alguns sobreviveram com mais força do que outros. O “Verdão”, por exemplo, permanece diretamente ligado às cores do clube. Já “Periquito” e “Periquitinho Verde” foram incorporados à identidade da equipe. O “Periquitão”, por sua vez, virou o mascote oficial. O “Furacão Verde” que veio pelos trilhos Em 1888, a Companhia Mogiana de Estradas de Ferro do munícipio de Campinas, no interior de São Paulo, estava desenvolvendo um plano de ligação de São Paulo com Goiás, passando por Minas Gerais, chamada de “Linha do Catalão Reprodução/Arquivo Público de Uberlândia Antes de os mascotes se tornarem parte importante da comunicação dos clubes, havia outra forma de criar uma identidade: os apelidos. O “Furacão da Mogiana”, ou “Furacão Verde da Mogiana”, remete à antiga estrada de ferro que cortava a região e ligava o interior paulista a Catalão (GO), passando pelo Triângulo Mineiro. Mapa da ferrovia Reprodução/Arquivo Público de Uberlândia A explicação é dada por Jânio Cabral: como a linha férrea passava por Uberlândia, o clube passou a ser associado à Mogiana. O verde vinha, novamente, das cores do time. O apelido carregava uma ideia poderosa para um clube do interior: a de uma equipe capaz de atravessar cidades e superar adversários como uma força que chegava pelos trilhos. Um escudo mineiro com inspiração paulista Há ainda um detalhe capaz de provocar estranhamento em quem observa o símbolo tradicional do Uberlândia pela primeira vez. O escudo do clube guarda semelhanças com o do Santos Futebol Clube. Segundo Jânio, o modelo tradicional adotado pelo Uberlândia foi inspirado no clube paulista, que já era uma referência do futebol brasileiro quando as equipes começavam a consolidar suas identidades visuais. A prática, explica o presidente, era comum nas primeiras décadas do futebol brasileiro. O Uberlândia Esporte Clube (UEC) teria incorporado elementos do escudo santista e adaptado o desenho à própria identidade. O resultado foi um escudo que, apesar da inspiração, ganhou personalidade própria: o verde e o branco no lugar das cores santistas e, sobretudo, uma história construída longe da Vila Belmiro, no futebol do interior mineiro. Escudo Uberlândia camisa branca Giovanni Mendes/UEC LEIA TAMBÉM: Ex-jogador que tatuou nome de Neymar no rosto teve carreira encerrada após lesão semelhante a do atacante Há 13 anos, torcedor do Uberlândia mantém cadeira vazia no estádio para pai falecido Torcedor mantém coleção com mais de 130 camisas históricas do Uberlândia Um clube construído também por quem estava fora do campo A história dos símbolos não pode ser separada da própria construção do clube. No livro de Odival Ferreira, um episódio dos primeiros anos mostra que, desde cedo, havia uma preocupação em transformar o futebol em algo maior do que os 90 minutos de uma partida. Ferreira reproduz o relato sobre a eleição de uma diretoria que tinha entre seus integrantes Agenor Bino, João Severiano Rodrigues da Cunha, Custódio da Costa Pereira e Alberto Alves Moreira. O presidente escolhido, João Severiano, conhecido como Joanico, era o agente executivo de Uberabinha, função equivalente à de prefeito na estrutura política da época. Segundo Ferreira, Joanico defendia que a cidade precisava de organização esportiva e de um campo que permitisse à equipe disputar competições regionais. A proposta incluía um estádio com bancadas, gradil, gramado e capacidade para 500 pessoas. Para financiar a obra, seria feito um empréstimo de 25 contos de réis, dividido em títulos. O projeto ganhou apoio popular. Um trecho de jornal reproduzido no livro mostra que moradores contribuíam com dinheiro ou com suas economias para ajudar na construção. A Tribuna, jornal da época, publicava semanalmente os nomes dos colaboradores. Conforme os registros reproduzidos na obra de Ferreira, o campo foi inaugurado em outubro de 1922, em uma partida entre a Associação Sportiva de Uberabinha e o Americano de Araguari. O jogo terminou empatado em 2 a 2. A história ajuda a explicar por que o clube se tornou, desde os primeiros anos, uma representação que ia além dos jogadores. Era uma construção coletiva. Atual sede do UEC UEC A memória que ainda precisa ser construída Há, porém, um paradoxo no centenário do Uberlândia Esporte Clube: um clube com mais de cem anos ainda não possui um acervo histórico à altura da trajetória. É por isso que reconstruir a origem de um símbolo pode significar consultar um livro publicado décadas depois, encontrar uma ata antiga, recorrer a uma edição de jornal ou comparar versões diferentes sobre os primeiros anos da instituição. Jânio Cabral reconhece essa lacuna. Segundo o presidente, a intenção é construir esse acervo nos próximos anos. A iniciativa começou a ganhar forma no início de 2026, com a publicação de um documentário dedicado à história do clube. “Queremos dar continuidade”, disse Jânio. Torcida do Uberlândia Giovanni Mendes/UEC SAF: o novo capítulo Em busca do título da Série D neste domingo (13), o Uberlândia Esporte Clube garantiu o acesso à Série C do Campeonato Brasileiro há cerca de um mês. O time do Triângulo Mineiro conquistou o acesso logo na primeira temporada completa como SAF e deu mais um passo rumo ao sonho de voltar a ser protagonista no futebol brasileiro. A equipe alviverde passou as últimas duas décadas administrando campanhas irregulares no Campeonato Mineiro, com direito a vários rebaixamentos para o Módulo 2. O time bateu na trave do acesso na Série D em 2021, caindo nas quartas de final para a Aparecidense, em um lampejo de destaque nacionalmente. A mudança no modelo de gestão em junho de 2025, quando o Conselho Deliberativo aprovou a transformação do modelo de gestão em SAF e a venda de 90% das ações do clube para um grupo empresários comandado por Fábio Mineiro deu fôlego novo ao UEC. O planejamento tem previsão de investimento de até R$ 150 milhões pelos próximos 15 anos com objetivo ousado de retornar à elite do futebol brasileiro até 2033. Ex-jogador de futebol, Fábio ficou conhecido no cenário nacional por comandar a reconstrução do Athletic Club. O time de São João del Rei se profissionalizou depois quase um século em 2018 e chegou à Série B seis anos depois. O acordo com o Uberlândia deu esperanças ao torcedor alviverde de que a ascensão meteórica do Esquadrão poderia se repetir no Triângulo Mineiro. Ao assumirem o clube, os investidores também definiram a reforma do Centro de Treinamento Ninho do Periquito e o fortalecimento das categorias de base como prioridades do trabalho. A primeira promessa foi cumprida ainda em 2025, com a realização de diversas melhorias no CT. No mesmo ano, o clube promoveu seletivas para preencher as categorias de base, que estavam desativadas havia três anos por questões financeiras. Atualmente, o Uberlândia disputa competições oficiais da FMF do sub-13 ao sub-20, e conquistou o primeiro título da SAF em julho: o time sub-15 levantou o troféu da Copa Brasileirinho, vencendo o Atlético-MG na final. A marca do clube ainda ganhou um impulso fora do campo. Em abril de 2026, o time anunciou que mudaria de nome após vender os naming rights para o aplicativo de mobilidade urbana Uber. A parceria aproveitou a coincidência no nome da cidade, do clube e da empresa, e o Uberlândia passou a estampar o logotipo do aplicativo no uniforme dos jogadores. Uma camisa comemorativa também foi lançada e fez sucesso entre os torcedores. A campanha de marketing foi reconhecida internacionalmente e acabou premiada com o Leão de Ouro no festival internacional Cannes Lions, uma das principais premiações da publicidade mundial. Fábio Mineiro, presidente do Uberlândia, e Isabella Motta, gerente de marketing da Uber, com nova camisa retrô do Uberlândia Foto: Giovanni Mendes/Uberlândia VÍDEOS: veja tudo sobre o Triângulo
