Crise diplomática entre EUA e Brasil trava cooperação contra o crime organizado, diz 'The New York Times'
<img src="https://s2-g1.glbimg.com/FccY1XAEzF_N4e31EBqAkrLBx24=/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/j/n/eAAzBLT9u7FUNInehSNg/globo-canal-4-20260910-2000-frame-154595.jpeg" /><br /> Relações diplomáticas conflituosas entre EUA e Brasil prejudicam combate ao crime organizado Jornal Nacional/ Reprodução Uma divergência diplomática entre os governos dos Estados Unidos e do Brasil estaria prejudicando a cooperação bilateral no combate conjunto ao crime organizado, segundo reportagem publicada neste sábado (12) pelo jornal "The New York Times". De acordo com autoridades americanas e brasileiras ouvidas sob anonimato, o Departamento de Estado dos EUA reteve os vistos de dois agentes da Polícia Federal brasileira que haviam sido designados para atuar em Miami e Nova York. Em resposta, o governo brasileiro bloqueou o visto do oficial norte-americano que seria enviado para atuar no Brasil. Paralelamente, os EUA alegaram "agenda lotada" e recusaram o pedido de visita de uma equipe de quase doze agentes da Receita Federal brasileira. O grupo planejava ir a Washington para cooperar com o combate à lavagem de dinheiro e ao contrabando de armas. Ao jornal americano, o Departamento de Estado americano se recusou a comentar os detalhes dos vistos, mas afirmou em nota que o governo Trump estava protegendo “a nação e seus cidadãos ao manter os mais altos padrões de segurança nacional e segurança pública, por meio de nosso processo de concessão de vistos”. Agora no g1 Retaliações e crise política A disputa recente é reflexo de uma escalada de retaliações iniciada em abril, quando o governo Trump expulsou dos EUA o delegado brasileiro Marcelo Ivo de Carvalho, lembra o NYT. Na ocasião, o governo americano acusou o delegado de promover uma "caça às bruxas política", já que ele havia participado da prisão de um ex-chefe da inteligência brasileira na tentativa de golpe de Estado em 8 de janeiro de 2023. Como reação imediata à expulsão de Carvalho, o Brasil revogou as credenciais de um agente de segurança americano em Brasília. Ainda segundo o "The New York Times", as divergências ocorrem em meio a um cenário de relações estremecidas por tentativas do governo americano de interferir em assuntos internos do Brasil. "Essa ruptura se aprofundou nos últimos meses diante da aparente disposição do governo americano de ajudar Flávio Bolsonaro, candidato de direita que disputa com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de esquerda, as eleições brasileiras de outubro", afirma a reportagem. Propostas ignoradas e prejuízos a investigações O jornal destaca que o presidente Lula apresentou pessoalmente a Donald Trump, em reunião na Casa Branca em maio, uma proposta para combate conjunto às facções focado no bloqueio de armas. O governo americano nunca respondeu ao plano. No mesmo mês, após forte pressão de aliados de Bolsonaro, Washington optou por classificar as duas maiores facções criminosas do Brasil como organizações terroristas. A decisão dos EUA acabou prejudicando investigações secretas da Polícia Federal ao aplicar sanções públicas a suspeitos monitorados, vazando a existência da apuração e obrigando os policiais brasileiros a prenderem envolvidos "de forma apressada", diz o NYT. Impacto na segurança regional Apesar da manutenção da cooperação técnica pontual — como o sistema de alertas cruzados sobre contêineres suspeitos que ajudou a interceptar armas contrabandeadas —, a falta de alinhamento no alto escalão ameaça os esforços no combate às facções, diz a reportagem do jornal americano. O Brasil é uma rota estratégica para a cocaína destinada à Europa e África, enquanto facções nacionais usam o sistema bancário dos EUA para lavar dinheiro e compram armas enviadas ilegalmente de estados americanos. Recentemente, a PF prendeu dois homens com peças de armamentos enviadas da Flórida. Além do impasse nos vistos, o Brasil tem sido deixado de fora de novas iniciativas regionais de segurança promovidas pelos EUA, como a aliança "Escudo das Américas" e encontros na ONU. Para o ex-embaixador americano Jimmy Story, esse tipo de diplomacia gera um afastamento contraproducente entre os dois países.
