ÁUDIOS: investigados cobram R$ 250 para desbloquear celulares em SP e falam até em retirar registros de roubo e furto
<img src="https://s2-g1.glbimg.com/JwOU6muwc4g4eLM8ynzmgJN_9LM=/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/E/R/BhAwzeS06gYBwdiQ3dIQ/montagem-horizontal-1200px-17-.jpg" /><br /> Ministério Público e Polícias Militar e Civil fazem operação para desarticular organização criminosa de roubo e receptação de celulares em São Paulo Gravações autorizadas pela Justiça feitas no âmbito da Operação Frankmobile mostram investigados negociando com funcionários de assistência técnica a remoção de registros de roubo e desbloqueios de celulares roubados e furtados em São Paulo (leia mais abaixo). Em uma das conversas, uma mulher pergunta se é possível retirar a queixa de roubo associada ao IMEI de um aparelho. Em outra, uma funcionária informa que o serviço de desbloqueio custava a partir de R$ 250 (veja no vídeo acima). As conversas fazem parte da investigação do Ministério Público de São Paulo, em parceria com as polícias Civil e Militar, sobre uma organização criminosa especializada em roubo, furto, receptação, desbloqueio e revenda de celulares. Foram cumpridos 84 mandados de busca e apreensão na Grande SP e em cidades de Goiás, e 15 pessoas foram presas. Celular desbloqueado por R$ 250 Nas gravações obtidas pelos investigadores, receptadores procuram assistências técnicas para tentar desbloquear aparelhos e remover registros que poderiam impedir sua utilização ou revenda. Em uma das conversas, uma mulher pergunta diretamente a uma funcionária se ela consegue retirar o registro de roubo associado ao IMEI de um celular. "Esse que eu estou te falando aqui, que eu vou deixar pra você aí, meu anjo, o primeiro IMEI deu queixa de roubo. Tu pode tirar isso pra mim, por favor?", pergunta. "Eu preciso saber qual que é o modelo do aparelho e qual bloqueio tá. Se ele tá com esse pedido é porque ele tá como roubo mesmo. Aí precisa tá vendo se a gente consegue tá fazendo", responde a funcionária. Em outro áudio, a mesma funcionária explica que o procedimento para desbloqueio seria definitivo e informa que o preço começava em R$ 250. "Esse desbloqueio que é feito é definitivo, entendeu? Dependendo do lugar, consegue esconder, mas com o tempo volta. Esse nosso é definitivo", garante. Segundo ela, o aparelho precisava ser levado até a assistência porque, por se tratar de um modelo novo, seria necessário verificar se o procedimento funcionaria. Ela explica ainda que eram utilizados quatro programas pagos. "Fica a partir de R$ 300 porque são passado quatro programas e todos são pagos, entendeu? Mas aí a gente precisa ver". "Boa tarde, amigo, precisa estar trazendo pra ver qual é o desbloqueio, qual o tipo de bloqueio... Se é tela, chip... Tem que fazer teste. Não sei o valor exato, mas é a partir de 250", diz a mulher em outra gravação. Em outro registro, um homem procura a assistência técnica depois de descobrir que um cliente não conseguiu recuperar a senha do iCloud de um iPhone 11: "Estive aí ontem. Até então, o cliente tinha me relatado que era só a senha de seis dígitos, então eu fiz esse procedimento aí com vocês. Ontem, eu entreguei pra ele. Quando foi tarde da noite, ele reportou que não conseguiu recuperar a senha do iCloud. Eu quero saber quanto que fica pra redefinir iPhone 11". Segundo o Ministério Público, parte das ferramentas utilizadas para adulterar os aparelhos e realizar desbloqueios é disponibilizada por plataformas sediadas fora do Brasil. Segundo o promotor de Justiça Luiz Fernando Bugiga, a adulteração do IMEI dificulta a identificação da origem ilícita dos aparelhos. "A partir do momento que ele passa para essa terceira etapa de modificação técnica, a gente começa a perder o controle da rastreabilidade, porque ele muda o IMEI. Se eu checar esse IMEI do aparelho, vai constar na base que é um aparelho lícito, porque ele já alterou e alocou um novo número nisso", explicou. O caminho dos celulares roubados Megaoperação mira cadeia de roubo e revenda de celulares em SP A operação Frankmobile detalha o caminho percorrido pelos celulares roubados e furtados na capital. Normalmente, esse tipo de crime acontece em segundos, mas depois da ação dos criminosos, o aparelho passa por uma complexa engrenagem que envolve diversas áreas. Segundo o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), essa cadeia organizada começa na subtração do aparelho na rua e em festivais, segue para imóveis e lojas no Centro de São Paulo, passa por técnicos especializados em desbloqueio e adulteração e termina em empresas e comércios suspeitos de reinserir celulares e peças no mercado com aparência de legalidade. A apuração é um desdobramento de investigações anteriores, como a Operação Salus et Dignitas, e reúne relatórios de inteligência, rastreamento de aparelhos, análises fiscais, dados financeiros, depoimentos de colaboradores e conversas extraídas de celulares e computadores apreendidos. Passo a passo do esquema O Ministério Público divide o fluxo do esquema de celulares roubados ou furtados em quatro núcleos interdependentes (detalhes no infográfico abaixo): Núcleo 1 (subtração): é a ponta mais visível, com a participação dos autores de furtos, roubos e outros crimes patrimoniais envolvendo celulares; Núcleo 2 (receptação e invasão): é o primeiro destino dos aparelhos, segundo a investigação; Núcleo 3 (desbloqueio): entram técnicos, assistências e pontos comerciais apontados como responsáveis por resetar aparelhos, remover bloqueios, adulterar IMEI e desmontar celulares para reaproveitamento de peças; Núcleo 4 (comercialização): pessoas e empresas suspeitas de revender aparelhos e componentes, inclusive com documentação fiscal e circulação empresarial que dariam aparência regular aos produtos. O caminho dos celulares roubados em SP Arte/g1 Na prática, a tese dos investigadores aponta que o crime só continua compensando porque existe uma rede pronta para absorver rapidamente o aparelho roubado, apagar seus rastros e fazê-lo voltar ao mercado. Por que São Paulo virou o epicentro A investigação parte de um dado que já vinha chamando a atenção das autoridades: São Paulo concentra uma fatia expressiva dos roubos e furtos de celulares do país. Segundo o documento do Gaeco, com base em dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registrou 95 roubos e furtos de celulares por hora em 2025, sendo que o estado e capital paulista concentrariam cerca de 20% de todos os casos. No recorte da cidade, o inquérito cita que São Paulo teve 154.058 celulares roubados ou furtados em 2025, média de 17 por hora. Desse total, apenas cerca de 10 mil foram devolvidos aos donos. Para os investigadores, esse percentual baixo de recuperação indica justamente a existência dessa estrutura eficiente para nutrir o crime. Rua Guaianases A região da Rua Guaianases, em Santa Ifigênia e Campos Elíseos, aparece no inquérito como um dos principais polos de recepção imediata de celulares subtraídos. O local já vinha sendo mencionado em operações policiais há anos. Segundo o material do MP, apenas em pesquisas feitas em sistemas policiais com referência à Rua Guaianases foram localizados mais de 500 registros de ocorrência envolvendo celulares em pouco mais de dois anos. Outro ponto considerado decisivo foi a repetição dos sinais de rastreamento. Vítimas de crimes distintos, sem relação entre si, indicaram que seus aparelhos terminaram na mesma região, especialmente nas ruas Guaianases, Aurora e Timbiras. Para o MP, essa concentração sugere que a área funciona como um "centro logístico": é ali que os celulares chegam, são guardados por pouco tempo e, depois, seguem para outras etapas da cadeia. A investigação descreve dois grandes fluxos de abastecimento dessa engrenagem criminosa: O primeiro envolve aparelhos levados em roubos com violência ou em furtos mediante quebra de vidro de veículos, que depois acabam localizados na região da 25 de Março, especialmente no Shopping Mundo Oriental e na Galeria Pagé. O segundo tem como origem grandes eventos, festivais, shows e aglomerações públicas, com a Rua Guaianases sendo a protagonista. Entre os eventos citados na apuração estão Lollapalooza, Parada do Orgulho LGBT+, Virada Cultural, The Town, Tomorrowland e Só Track Boa. Segundo o inquérito, nesses ambientes os criminosos agiriam com divisão de tarefas entre “batedores” e “recolhedores”. Os primeiros furtam; os outros recebem o aparelho rapidamente para acelerar o escoamento e reduzir o risco de flagrante. Os 'icloudeiros' Depois que o aparelho chega aos receptadores, começa uma etapa considerada estratégica pela investigação, com a atuação dos chamados “icloudeiros”, os especialistas em romper as proteções do celular. A função deles, segundo o MP, é eliminar o vínculo entre o aparelho e o dono original. Isso pode incluir: Desbloqueio de contas iCloud ou Google; Redefinição de senhas; Restauração de fábrica; Remoção de travas de segurança; Alteração do IMEI, o número que identifica o aparelho perante as operadoras. O objetivo inicial, segundo a investigação, nem sempre é vender o aparelho de imediato. Antes disso, os criminosos tentariam explorar o conteúdo digital da vítima ao acessar aplicativos bancários, contas pessoais e outros serviços para fazer PIX, empréstimos e fraudes financeiras. Operação contra roubo de celulares em SP Reprodução
