Prevenção do Suicídio: Quando o silêncio fala e os sinais de sofrimento podem esconder-se por trás de um “estou bem”
<p>O suicídio continua a constituir um problema de saúde pública e uma realidade nem sempre visível até ao momento em que ocorre uma tentativa ou uma morte.</p><p>Entre o silêncio, o estigma e a dificuldade em reconhecer sinais de sofrimento, familiares, amigos, professores e colegas podem não perceber que alguém próximo atravessa uma situação de risco.</p><p>Em Cabo Verde, dados de 2016 a 2020 apontam para uma média anual de 48 suicídios, com 7,8 homens por cada mulher, sendo a faixa dos 20 aos 49 anos sendo a mais afectada. </p><p>A Praia lidera em números absolutos, enquanto Boa Vista, São Salvador do Mundo e Mosteiros apresentam as maiores taxas de incidência.</p><p>Em 2024, Cabo Verde registou 22 suicídios nos primeiros meses do ano, cinco dos quais em Abril, segundo dados divulgados na altura.</p><p>Para perceber o que pode estar por detrás destes números e, sobretudo, aquilo que pode passar despercebido antes de uma situação de crise, a Inforpress aprofundou a problemática, ouvindo especialistas sobre os sinais de alerta, as formas de abordagem e o papel da família, da escola e da comunidade na prevenção.</p><p>A terapeuta Sandra Gonzalez alerta para a necessidade de reconhecer mudanças de comportamento que muitas vezes não são associadas a sofrimento psicológico.</p><p>“Na prática clínica, vemos precisamente o contrário: muitas vezes é o silêncio e não o choro que nos devia preocupar”, afirmou à Inforpress, a propósito do Dia Mundial da Prevenção do Suicídio, assinalado hoje, 10 de Setembro.</p><p>Segundo a especialista, uma pessoa em risco não apresenta necessariamente uma tristeza evidente nem pede ajuda de forma directa. </p><p>Uma pessoa habitualmente comunicativa pode tornar-se distante, enquanto alguém reservado pode começar a despedir-se de pessoas próximas, oferecer objectos com valor sentimental ou procurar resolver assuntos pendentes.</p><p>Isoladamente, estes comportamentos não permitem concluir que existe risco de suicídio, mas mudanças persistentes devem merecer atenção, sobretudo quando acompanhadas por manifestações de desesperança, inutilidade ou falta de perspectiva sobre o futuro.</p><p>Um dos sinais que mais pode confundir familiares e amigos surge quando alguém parece recuperar, repentinamente, após um período de sofrimento intenso.</p><p>“Parecia estar melhor nos últimos dias” é, segundo Sandra Gonzalez, uma frase frequentemente recordada por familiares após uma tentativa ou morte por suicídio. Em determinadas situações, a aparente tranquilidade pode coincidir com o momento em que a pessoa acredita ter encontrado uma saída para o sofrimento.</p><p>A irritabilidade é outro sinal que pode esconder o sofrimento, sobretudo entre homens e adolescentes. Impaciência, respostas ríspidas, zanga ou explosões perante situações banais podem estar associadas a uma sobrecarga emocional.</p><p>“Não é mau feitio”, sublinhou a especialista, explicando que a irritabilidade pode estar ligada a emoções que a pessoa não consegue identificar ou expressar.</p><p>Para Sandra Gonzalez, a prevenção não deve esperar pela certeza de que uma pessoa está em risco. Uma alteração significativa de comportamento pode ser uma oportunidade para iniciar uma conversa.</p><p>A especialista rejeita a ideia de que perguntar directamente sobre pensamentos suicidas possa levar alguém a adoptar esse comportamento. Uma abordagem directa, cuidadosa e sem julgamento pode permitir que a pessoa fale sobre um sofrimento mantido em silêncio.</p><p>Frases como “isso passa” ou “é só uma fase” podem minimizar a dor e afastar quem procura, ainda que de forma indirecta, ser ouvido.</p><p>“Estou aqui e não vou a lado nenhum”, exemplificou, defendendo que a presença e a disponibilidade podem ser mais importantes, em determinados momentos, do que qualquer conselho.</p><p>Nas escolas, a atenção deve recair sobre alterações como queda repentina no rendimento, isolamento e mudanças de comportamento. O professor não precisa assumir o papel de terapeuta, mas deve reconhecer sinais de alerta e saber para onde encaminhar o aluno.</p><p>Para o psicólogo Jacob Vicente, os números oficiais representam apenas parte da realidade, uma vez que muitos casos de sofrimento psicológico, pensamentos suicidas e tentativas não chegam ao conhecimento das autoridades ou dos serviços competentes.</p><p>Sandra Gonzalez chama ainda atenção para as pressões do quotidiano, como a exigência de produtividade, o sucesso e a necessidade de corresponder às expectativas sociais.</p><p>As redes sociais acrescentam outra dimensão, ao apresentarem versões editadas da vida, marcadas por conquistas, viagens, relações e sucessos, enquanto dificuldades e inseguranças permanecem fora do enquadramento.</p><p>“A comparação constante como sinónimo de motivação e o esgotamento como sinónimo de sucesso fazem à saúde mental colectiva pagar um preço”, alertou.</p><p>No contexto cabo-verdiano, onde a família e a comunidade têm um papel central, o medo do julgamento pode constituir uma barreira para quem precisa de pedir ajuda.</p><p>A prevenção envolve também os meios de comunicação social. A cobertura jornalística pode contribuir para a sensibilização, mas uma abordagem sensacionalista pode aumentar riscos.</p><p>As orientações internacionais recomendam evitar a descrição detalhada de métodos, a apresentação do suicídio como solução para problemas e a exploração excessiva de elementos que possam contribuir para o efeito de contágio.</p><p>A cobertura deve privilegiar o contexto, os factores de risco e de protecção, a prevenção e os caminhos para procurar ajuda, sem transformar uma morte em espectáculo.</p><p>“O silêncio protege o estigma, não necessariamente a pessoa”, afirmou Sandra Gonzalez.</p><p>Para quem identifica sinais de sofrimento numa pessoa próxima, a recomendação é estar presente, perguntar directamente, ouvir sem julgamento e ajudar a procurar apoio. Em situações de risco, não se deve prometer segredo absoluto, uma vez que a prioridade é garantir a segurança da pessoa.</p><p>“Não precisas de ser o único suporte, és a ponte entre essa pessoa e a ajuda de que precisa”, resumiu.</p><p>O Dia Mundial da Prevenção do Suicídio coloca o fenómeno no centro da discussão pública, mas a prevenção não pode ficar limitada a uma data no calendário, mas sim reconhecer as mudanças, escutar e levar a sério aquilo que é dito de forma indirecta pode fazer a diferença.</p>
