Foguete, robô, IA: festival de inovação em MG antecipa tendências e debate futuro do mercado
<img src="https://s2-g1.glbimg.com/5T0zLoel1KmIXjKplPImOFSeOv8=/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/F/a/I5c12vT6qfhb7odLWlUw/inteligencia-artificial.jpeg" /><br /> HackTown: o que não pode faltar na mochila de quem vai ao festival de inovação em MG Um foguete que já voou, um robô que trabalha no terreiro de café e uma inteligência artificial capaz de ler um desenho técnico em poucos minutos. À primeira vista, as tecnologias parecem não ter muita coisa em comum. Mas todas nasceram de um problema concreto e ajudam a mostrar uma transformação que já começou a chegar ao trabalho. 📲 Siga a página do g1 Sul de Minas no Instagram As iniciativas estão entre os projetos apresentados no HackTown, festival de tecnologia, inovação e criatividade realizado em Santa Rita do Sapucaí, cidade com cerca de 40 mil habitantes conhecida como o Vale da Eletrônica, no Sul de Minas. Em comum, as soluções têm a tentativa de fazer mais do que simplesmente substituir uma pessoa por uma máquina. A inteligência artificial e a automação aparecem, em muitos casos, para assumir tarefas repetitivas, reduzir o esforço físico ou analisar uma quantidade de informações que um trabalhador sozinho levaria muito mais tempo para processar. A pergunta que fica é: se as máquinas começam a fazer parte dessas atividades, o que sobra para o trabalhador? Inteligência artificial é testada em diferentes formatos e aplicações durante o HackTown Júlia Reis/g1 Do sol do terreiro ao controle remoto No campo, a tecnologia começa justamente onde falta gente para fazer um trabalho que sempre dependeu de força e repetição. Depois que o café é colhido, os grãos precisam passar pelo processo de secagem. No terreiro, eles são espalhados e revirados várias vezes para que a umidade seja retirada de maneira uniforme. É uma tarefa que exige tempo, mão de obra e esforço físico. E encontrar trabalhadores para esse tipo de atividade tem sido um desafio cada vez maior para os produtores. Foi dessa dificuldade que surgiu uma plataforma robótica desenvolvida em Santa Rita do Sapucaí. O equipamento é elétrico e, atualmente, controlado remotamente. Ele percorre o terreiro e movimenta os grãos, mantendo uma camada uniforme de aproximadamente um centímetro. Robô desenvolvido em Santa Rita do Sapucaí ajuda a revirar os grãos de café durante a secagem e reduz o esforço físico dos trabalhadores no terreiro Júlia Reis/g1 Juliana de Araújo Moreira Ribeiro, administradora e produtora de café, diz que a máquina nasceu de uma dificuldade sentida dentro da própria propriedade. “Essa é uma etapa que demanda muito mão de obra e precisa muito de um trabalho, esforço físico debaixo do sol. E nós, como somos produtores de café, a gente sente a dor da falta de mão de obra.” A proposta, portanto, não é simplesmente colocar uma máquina no lugar de uma pessoa. É tirar do trabalhador a parte mais pesada da atividade. “Ela facilita a vida do trabalhador rural, porque você não precisa mais ter aquele esforço físico de ficar debaixo do sol rodando o café no terreiro. Você pode ficar embaixo da sombra, você pode, com controle remoto, sentado ali na muretinha do terreiro, fazer o manejo do seu café sem o esforço físico debaixo do sol.” Além de reduzir o esforço, a tecnologia também interfere no tempo de produção. Ao manter o café distribuído de maneira uniforme, a plataforma pode antecipar em cerca de 30% o tempo de secagem. Um café que demoraria dez dias para secar pode ficar pronto em aproximadamente sete. Na prática, isso significa liberar o terreiro mais rapidamente para receber uma nova quantidade de grãos. E o controle remoto pode ser apenas o começo. Grão de café Mike Kenneally/Unplash A próxima versão do equipamento está sendo desenvolvida para trabalhar de forma autônoma, usando inteligência artificial para definir o próprio caminho pelo terreiro. A ideia é que o produtor programe o robô e possa deixá-lo trabalhando enquanto cuida de outras atividades da propriedade. Juliana compara o funcionamento ao de uma espécie de faxineira eletrônica. “Como se fosse uma faxineira eletrônica dentro do seu terreiro, revirando ali os seus grãos de café. Enquanto você está em outro lugar da fazenda, você programa ele no controle remoto e ele vai trabalhar ali com a inteligência artificial dentro do seu terreiro, fazendo o trabalho ali debaixo do sol.” O projeto já despertou interesse fora do Brasil. Um vídeo do robô trabalhando chamou a atenção de produtores de café de outros países, e a equipe recebeu contatos de 14 nações, entre elas Índia, Vietnã, Colômbia, Honduras, Equador e El Salvador. A tecnologia ainda está em preparação para chegar ao mercado. A previsão da equipe é que a versão autônoma esteja disponível até o fim do ano. Robô desenvolvido em Santa Rita do Sapucaí ajuda a revirar os grãos de café durante a secagem e reduz o esforço físico dos trabalhadores no terreiro Arquivo pessoal Em vez de dias, cinco minutos Se no campo a máquina assume uma tarefa física e repetitiva, na indústria a inteligência artificial começa a atacar o tempo gasto para interpretar informações. Antes de fabricar uma peça ou equipamento, engenheiros precisam analisar desenhos técnicos que mostram medidas, componentes e materiais. Quanto mais complexo o projeto, maior pode ser o tempo necessário para interpretar todas essas informações. Uma ferramenta desenvolvida por uma empresa de São José dos Campos (SP) usa inteligência artificial para fazer uma primeira análise desses desenhos e cruzar os dados com um banco de informações. A diferença de tempo chama atenção. “A gente pega um desenho muito difícil, que demora 10 dias a 15 dias para ser lido e a gente lê em apenas 5 minutos para entregar uma solução mais rápida para o nosso cliente”, explica Hugo Deleon, do comercial. Ferramenta usa inteligência artificial para interpretar desenhos técnicos e cruzar informações com um banco de dados, reduzindo de dias para minutos uma etapa da análise Júlia Reis/g1 A ferramenta identifica os elementos do desenho e verifica quais deles já estão cadastrados no banco de dados. O que a inteligência artificial não consegue reconhecer com segurança continua sob responsabilidade do engenheiro. “Ele vai aprimorar o trabalho, porque ele vai ter mais tempo para focar em outras coisas ou focar em mais desenhos.” A ferramenta foi criada inicialmente para a indústria de chicotes elétricos automotivos, mas pode ser aplicada a outros setores que trabalham com desenhos técnicos em duas dimensões. Quando o problema é informação demais Na rede elétrica, a dificuldade é praticamente o oposto. Não faltam informações. Há dados demais. Medidores inteligentes conseguem registrar a qualidade da energia com muito mais frequência do que os equipamentos tradicionais. A cada 15 minutos, novos dados são produzidos. Douglas Vieira, engenheiro eletricista com doutorado em inteligência artificial e CEO de uma empresa de Belo Horizonte (MG), resume a mudança: “O problema inverte, passa a ter muito dado. E a pergunta é o que eu faço com esse dado que deixe o meu consumidor mais satisfeito?” Inteligência artificial é usada para analisar dados de medidores inteligentes e ajudar a identificar falhas e problemas de qualidade na rede elétrica Júlia Reis/g1 A empresa trabalha com sistemas que usam esses dados para diferentes funções. Uma delas ajuda a identificar falhas na rede elétrica. Quando ocorre uma interrupção, o próprio medidor pode indicar que existe um problema, enquanto o sistema cruza informações de diferentes pontos da rede para apontar onde provavelmente está a falha. Outra ferramenta acompanha a qualidade da energia em tempo real. Se a tensão estiver acima ou abaixo do esperado, os dados ajudam a indicar onde a rede precisa de melhorias. Há ainda um sistema que ajuda a decidir onde novos medidores inteligentes podem ser instalados para gerar mais benefícios. O volume de informação dá uma dimensão do desafio. São cerca de 600 mil medidores inteligentes, que geram mais de 1 bilhão de dados por mês, dentro de uma rede que atende aproximadamente 9 milhões de consumidores. Mas, nesse cenário, não existe uma inteligência artificial que sirva igualmente para tudo. “A IA, nesse caso, ela é muito customizada para cada problema”, explica Douglas. E o avanço dessa tecnologia também muda a relação entre os grandes centros e cidades menores. Inteligência artificial é usada para analisar dados de medidores inteligentes e ajudar a identificar falhas e problemas de qualidade na rede elétrica Júlia Reis/g1 Douglas começou a estudar inteligência artificial há mais de 20 anos. Ele conta que terminou o doutorado em 2006 e se surpreende com a velocidade com que a área evoluiu desde então. “É surpreendente para mim o quanto que a IA está evoluindo em uma velocidade exponencial. Todo mundo que está usando IA e pensando, tem muitas realmente questões que a gente não sabe como vai acontecer.” “O Brasil, saindo das capitais, é uma mina de ouro.” Foguete lançado no interior de MG A mesma lógica de automação aparece em uma escala muito maior. Um foguete desenvolvido pela equipe da Bizu já fez um voo de teste em Virgínia em 29 de maio deste ano. Segundo a equipe, foi o primeiro foguete brasileiro movido exclusivamente por propulsão líquida a realizar um voo. Depois do lançamento, o equipamento foi recuperado com a ajuda de um paraquedas. A estrutura que voltou à Terra carrega as marcas do impacto da aterrissagem. O projeto serve para testar diferentes tecnologias que serão necessárias em foguetes maiores, como motores, sistemas de recuperação e computadores de bordo. Foguete desenvolvido pela equipe da Bizu fez um voo de teste em Virgínia (MG) e foi recuperado após o lançamento com o auxílio de um paraquedas Júlia Reis/g1 Eduardo Seije, cientista molecular e engenheiro mecatrônico, explica que a ideia pode ser resumida de uma maneira bem mais simples do que parece. “Basicamente um foguete é como se fosse um meio de transporte que leva as coisas até o espaço. Seja um satélite para a gente poder ter sinal de GPS ou seja futuramente astronautas para fazer missões na Lua, em Marte.” O modelo desenvolvido pela equipe ainda não é um foguete orbital. A próxima etapa é justamente desenvolver veículos maiores, capazes de chegar à órbita da Terra e transportar satélites. Foguete desenvolvido pela equipe da Bizu fez um voo de teste em Virgínia (MG) e foi recuperado após o lançamento com o auxílio de um paraquedas Júlia Reis/g1 A propulsão líquida já é usada há décadas em outros países e é comum em foguetes comerciais. A tecnologia permite maior controle sobre o funcionamento do motor e, segundo Eduardo, oferece mais precisão para atingir o ponto desejado. No Brasil, o desenvolvimento representa uma etapa para ampliar a capacidade nacional de construir esse tipo de veículo. O projeto envolve uma equipe relativamente pequena, de cerca de 15 a 20 pessoas, mas com profissionais de diferentes áreas, como engenharia elétrica, química e civil. Foguete desenvolvido pela equipe da Bizu fez um voo de teste em Virgínia (MG) e foi recuperado após o lançamento com o auxílio de um paraquedas Divulgação O que muda para quem trabalha? Os exemplos apresentados no festival parecem muito diferentes entre si. Um robô movimenta café. Uma inteligência artificial interpreta desenhos. Algoritmos analisam milhões de dados. Um foguete testa tecnologias para chegar ao espaço. Mas todos apontam para a mesma mudança: máquinas estão assumindo partes de atividades que antes dependiam exclusivamente de pessoas. Isso não significa, necessariamente, que profissões inteiras desapareçam. Para André Veloso, especialista em futuro e tendências e cofundador de uma startup voltada ao futuro do trabalho, a inteligência artificial já está substituindo empregos, mas a transformação acontece principalmente nas tarefas que formam essas profissões. A diferença é que os novos trabalhos não necessariamente terão o mesmo formato dos atuais. “Não vão ser empregos do modelo tradicional, desse modelo que a gente está acostumado, que é mais ligado ao operacional. Essas tarefas a inteligência artificial vai assumir.” Andre Veloso explica como a inteligência artificial pode assumir tarefas operacionais e mudar as habilidades exigidas dos trabalhadores Júlia Reis/g1 Isso já pode ser observado em profissões que, à primeira vista, não têm relação com tecnologia. Um advogado, por exemplo, pode usar inteligência artificial para preparar uma primeira versão de um dossiê ou de um parecer. Em um escritório de contabilidade, a ferramenta pode fazer uma análise inicial dos resultados. O trabalho humano continua sendo necessário, mas muda de lugar. “Eu não preciso mais de alguém que faça tarefa operacional, mas eu preciso de alguém com conhecimento, visão, inteligência para olhar o que aí atrás para ver se aquilo faz sentido, mas para pensar adiante, para olhar aquilo com um novo olhar e conseguir construir em cima desse resultado.” É por isso que, para André, o desafio não está apenas em aprender a operar uma nova ferramenta. Está também em repensar como as pessoas são preparadas para o mercado. “Eu acho que é interessante a gente pensar no modelo de educação que a gente tem e na formação que a gente busca numa era onde a gente tem inteligência artificial disponível.” Pessoas de diferentes regiões do Brasil viajam até Santa Rita do Sapucaí para participar do HackTown, que reúne tecnologia, inovação, criatividade e empreendedorismo no Sul de Minas Júlia Reis/g1 Douglas, que acompanha a evolução da inteligência artificial desde o início dos anos 2000, também vê esse momento como uma transformação que exige participação de empresas e profissionais, e não apenas observação. Ele compara o avanço atual da IA à transformação provocada pela internet e espera que o aumento da produtividade também se converta em melhoria na qualidade de vida. “Todas as evoluções tecnológicas trouxeram para o ser humano uma qualidade de vida melhor. Mais produtividade. Se a gente compara o mundo de 30 anos atrás para agora, a gente aumentou a produtividade, a gente trabalha menos, a gente pode consumir mais. Eu realmente espero que a IA seja da mesma forma", afirma Douglas. Com a inteligência artificial assumindo tarefas operacionais, a forma como profissionais são capacitados também pode mudar, com maior foco em conhecimento, criatividade, análise e tomada de decisão Júlia Reis/g1 A recomendação de André é não enxergar a tecnologia apenas como uma ameaça. O problema, segundo ele, aparece quando o trabalhador tenta competir com a máquina justamente naquilo que ela faz melhor. “As pessoas não precisam ter medo de perder os seus empregos. O que a gente não pode fazer como ser humano é pensar como IA. Aí a gente vai perder o emprego.” A comparação que ele faz ajuda a explicar a relação que está surgindo entre trabalhadores e inteligência artificial. “Eu costumo brincar que inteligência artificial é que nem aquele cara super inteligente que estudou com você. Ele podia te emprestar o caderno dele e todas as anotações, mas isso não resolvia a sua prova. A IA é esse cara super inteligente que está te dando o caderno dele. O que você vai fazer com ele é que vai fazer diferença", explica André. Veja mais notícias da região no g1 Sul de Minas
