O Seminário-Liceu foi criado há 160 anos (I) - Uma visita guiada pelo Poeta José Lopes
<p>Para um melhor conhecimento da Instituição, onde se ordenaram de “entre nativos e vindos de Portugal” dezenas de sacerdotes e se formou “uma verdadeira plêiade de funcionários e professores, tão beneméritos à sociedade e à cultura de Cabo Verde”,¹<strong><em> </em></strong>convido os estimados leitores a uma visita à Instituição guiada por um aluno do Seminário, o Poeta José Lopes.</p><p><em>Meu velho e venerando Seminário</em>, </p><p><em>Benemérito e augusto monumento,</em></p><p><em>Berço da minha fé e sentimento, </em></p><p><em>Da minha gratidão e relicário!</em><em>²</em><a href="file://nas-mediacom/EXPRESSO/PAGINACAO/PAGINA%C3%87%C3%83O%202026/JORNAL%201292%20DE%2002%20DE%20SETEMBRO/OPINI%C3%83O/Adriana%20Carvalho%20Artigo%20Seminario160%20anos%20I%20agosto28%20(3).docx#_edn2"></a></p><p><em><strong></strong></em></p><p><em><strong></strong></em></p><p>O Seminário situado “num dos melhores lugares da vila da Ribeira Brava em S. Nicolau, e bem ventilado e banhado pela luz com uma bonita cerca, reunia boas condições higiénicas para casa de educação e ensino”. A missão da <em>veneranda </em>instituição era “formar bons eclesiásticos e proporcionar aos alunos que se destinavam à vida civil, a par de uma sólida instrução nas ciências e nas letras, uma apurada educação moral e religiosa”. O Seminário compreendia “o curso de estudos preparatórios (instrução primária e secundária) comum para os alunos que se destinavam à vida civil e eclesiástica” e “o curso superior para o estado eclesiástico”.</p><p> Os alunos que se destinavam à vida civil na qualidade de pensionistas pagavam uma prestação de dez mil réis mensais; os que seguiam a via eclesiástica podiam ser porcionistas (uma prestação mensal de nove mil réis) ou gratuitos (comida, roupa lavada e medicamentos à conta do seminário).³<a href="file://nas-mediacom/EXPRESSO/PAGINACAO/PAGINA%C3%87%C3%83O%202026/JORNAL%201292%20DE%2002%20DE%20SETEMBRO/OPINI%C3%83O/Adriana%20Carvalho%20Artigo%20Seminario160%20anos%20I%20agosto28%20(3).docx#_edn3"></a></p><p><em><strong></strong></em></p><p><em>Do</em> <em>grande Doutor Júlio José Dias</em></p><p><em>O prédio antigo fora propriedade,</em></p><p><em>Pacto que dá maior celebridade</em></p><p><em>À casa, não as minhas Elegias. </em></p><p>Com a chegada dos cónegos professores vindos de Lisboa e dos que exerceram o professorado no Liceu Nacional da Praia, “estabeleceu-se então de facto o Seminário na bela casa do ex.mo doutor Júlio José Dias, sita na Ribeira Brava e já arrendada pelo Governo, antes da chegada do pessoal, por 500$000 réis mensais” ⁴. A casa continuou arrendada até se efetuar o contrato de compra em 1874 depois de vencidos todos os obstáculos (…), efetuou-se a compra pelo preço de 7:000$000 réis para o que contribuiu a Junta da Bula com 4:000$000 réis e o governo com 3:000$000 réis.⁵<a href="file://nas-mediacom/EXPRESSO/PAGINACAO/PAGINA%C3%87%C3%83O%202026/JORNAL%201292%20DE%2002%20DE%20SETEMBRO/OPINI%C3%83O/Adriana%20Carvalho%20Artigo%20Seminario160%20anos%20I%20agosto28%20(3).docx#_edn5"></a></p><p><em>Do</em> <em>edifício propriamente, a entrada</em></p><p><em>Era uma ampla porta. À esquerda havia</em></p><p><em>(Entrando-se) a sineta que tangia</em></p><p><em>Para cada função à hora marcada.</em></p><p>António Aurélio Gonçalves, que foi aluno do Seminário, recorda: “À uma da tarde, a sineta do Seminário tilintava para o jantar. As últimas aulas terminavam e no Salão (entenda-se a comprida sala de estudo) fechavam-se os livros e cadernos. Instantes depois, invadíamos de roldão o refeitório. Às vezes quem nos esperava era o “Homem”, ou se quiserem, o “Bouças” (como familiarmente designávamos Monsenhor António José de Oliveira Bouças). As impressões, os risos, as garotices calavam-se automaticamente. Fazia-se silêncio por fim. Então o «Bouças» com majestade própria de uma cerimónia litúrgica solene traçava uma grande cruz da testa ao peito, baixava a cabeça, inclinava-se levemente e murmurava o «Benedicte» (<em>Notícias de Cabo Verde</em>, 20 julho 1944).<sup></sup></p><p>O Título V das “Instruções e Disposições Regulamentares do Seminário-Liceu” (1892) era dedicado à Ordem. Elencava os deveres e obrigações escolares e sociais dos alunos nas instalações escolares, nos recreios, passeios e visitas. Os colegiais não podiam ter contactos com os alunos externos sem prévia licença. As leituras eram previamente autorizadas. Assim se procurava manter a disciplina e a ordem entre os alunos. </p><p><em>Condiscípulos, esses, foram tantos!</em></p><p><em>Cinco anos lá passei, se quisesse </em></p><p><em>Citá-los todos talvez não pudesse</em></p><p><em>Éramos muitos, não sei quantos!....</em></p><p>Na douta opinião do Professor Baltazar Soares Neves, “a grande maioria dos estudantes era originária de famílias de pequenos e médios proprietários agrícolas, e pequenos e médios comerciantes e empregados administrativos nativos, ao serviço da administração colonial”. No ano letivo 1909/1910, o Seminário era frequentado por 28 estudantes (via eclesiástica) e 54 (via geral). ⁶<a href="file://nas-mediacom/EXPRESSO/PAGINACAO/PAGINA%C3%87%C3%83O%202026/JORNAL%201292%20DE%2002%20DE%20SETEMBRO/OPINI%C3%83O/Adriana%20Carvalho%20Artigo%20Seminario160%20anos%20I%20agosto28%20(3).docx#_edn6"></a></p><p><em>Monsenhor Bouças é, - nobre coragem, </em></p><p><em>Sublime Derradeiro Abencerragem</em></p><p><em>Na luta em defensão do Seminário.</em></p><p>Com o advento da República em Portugal em 5 de outubro de 1910 e a perda da influência da Igreja Católica foi traçado o destino do Seminário, que culminou com a sua extinção e a criação de um liceu, que viria a ser instalado na ilha de S. Vicente, conforme a Lei n.º 701 de 13 de junho de 1917. O Vice-Reitor António José de Oliveira Bouças nunca abandonou o edifício e conseguiu prolongar o seu encerramento com o argumento que nele estavam internados alunos de outras ilhas e mesmo vindos da Guiné.A Escola de Ensino Primário Superior manteve-se no edifício sob a direção do Cónego Bouças até 20 de setembro de 1922. O Liceu laico foi inaugurado na cidade do Mindelo no dia 19 de novembro de 1917.</p><p><em>Hoje, do nosso antigo Seminário</em></p><p><em>Só resta em seu conjunto o edifício, </em></p><p><em>Que se ergue como o altar do sacrifício, </em></p><p><em>Mas de Mória passando a ser Calvário…</em></p><p><em>…………………………………………………………….</em></p><p><em>Passando o Mar Vermelho… a pé enxuto,</em></p><p><em>Deram-lhe o novo nome de </em>«instituto»,</p><p><em>Legando os outros aos séculos futuros…</em></p><p>Em finais de 1918, um novo Plano Orgânico da Instrução Pública determinou o regresso do ensino secundário ao edifício do Seminário na ilha de S. Nicolau com o nome de <em>Instituto de Instrução Secundária</em>, tendo-se determinado a extinção do recém-inaugurado Liceu no Mindelo, o que não se efetivou. </p><p>Entretanto, o edifício abandonado foi-se deteriorando. O jornal O <em>Manduco</em> de 1 de setembro de 1923 denuncia: “Abandoná-los aos ratos e à consumação do tempo é uma coisa que nos repugna escrever; mas utilizá-los para a instalação do Liceu Nacional é um ato benemerente de governo; é uma prova de bom senso, de claro espírito de economia e nobre amor à Instrução”. Dois anos depois, o ensino secundário retorna à Casa do Seminário, com o nome de <em>Instituto Cabo-verdiano de Instruçã</em>o, também dirigido pelo Cónego Bouças, conforme Portaria de 6 de novembro de 1925. </p><p>Surpreendentemente, por Portaria de 9 de junho de 1931, foi determinado o encerramento das aulas do Instituto, sendo o edifício transformado em prisão para os presos políticos enviados da metrópole para as colónias. </p><p>João Nobre de Oliveira descreve de forma lapidar essa deplorável decisão: “Em 1931 o edifício foi adaptado (transformado em prisão) para receber uma leva de militares e civis portugueses que se tinham revoltado contra Salazar. Foi então oficialmente designado «<em>Campo de Concentração dos Deportados Políticos</em>». Triste fim para um edifício que fora antes Templo do Saber!”.<em style="background-color: initial;">⁷</em></p><hr> <p>¹FredericoCerrone, 1983, <em>História da Igreja de Cabo Verde</em>, Ed, S. Vicente, pp. 38-39.</p><p><em style="background-color: initial;">²</em> Fonte dos versos de José Lopes: “Jardim das Hespérides”, S<em>equência 1882-1887 </em>- III Parte de <em>José Lopes</em> - A<em>ntologia Poética</em>, Org. M. Fátima Fernandes e outros. Ed. LPC, pp. 326-341.</p><p>³ Fonte: <em>Instruções e disposições regulamentares do seminário lyceu de Cabo Verde na ilha de S. Nicolau</em>, de 14 de setembro de 1982.</p><p>⁴<em>Almanaque Luso-Africano para 1899</em>, ed. 2011, pp. 196/197.</p><p>⁵ Francisco Ferreira da Silva, 1899<em>, Apontamentos para a história da administração da Diocese e da organização do Seminário Lyceu</em>, Lisboa, p.161.</p><p>⁶Baltasar Soares Neves, <em>O Seminário-Liceu de S. Nicolau</em>, 2017 (2ª ed.), Fundação João Lopes, pp. 151,156-157.</p><p><em style="background-color: initial;">⁷</em><em>A imprensa cabo-verdiana – 1820-1975 </em>(1998). Ed. Macau, p. 82.</p><p><em><strong>Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1292 de 02 de Setembro de 2026.</strong></em></p>
