A escola como caminho
<p style="text-align: center;"><strong style="background-color: initial;">A escola entre ilhas</strong></p><p>A história da educação cabo-verdiana não se escreveu apenas nas salas de aula. Fez-se também dentro de casa, nos recursos repartidos, nas separações entre pais e filhos e na confiança depositada em cada jovem enviado para estudar. Desde o século XIX, a escola tornou-se uma estratégia de mobilidade social e uma forma de as famílias projectarem no futuro aspirações que o presente ainda não deixava realizar.</p><p>A institucionalização do ensino secundário conheceu uma primeira concretização na Praia. Criado pela Circular n.º 313-A, de 15 de Dezembro de 1860, o Liceu Nacional da Província de Cabo Verde foi inaugurado em 7 de Janeiro de 1861 e oferecia disciplinas das Humanidades à Matemática e aos Rudimentos de Náutica. A falta de professores, os baixos vencimentos e a diminuição dos alunos fragilizaram a iniciativa, formalmente extinta em 7 de Janeiro de 1867.</p><p>O Seminário-Liceu de São Nicolau, criado em 1866, assumiria uma função educativa decisiva. Não se limitou à preparação do clero: acolheu também alunos destinados à vida civil. O internato e os apoios sacerdotais permitiram que rapazes de origem rural e familiar modesta ultrapassassem os limites da instrução elementar e adquirissem uma cultura humanística. Socialmente limitado, representou para muitos uma oportunidade rara de prolongar os estudos e alcançar outros destinos.</p><p>Com a instalação do Liceu Nacional de Cabo Verde em São Vicente, em 1917, iniciou-se uma nova etapa. Primeiro estabelecimento liceal laico de funcionamento duradouro no arquipélago, concentrou no Mindelo estudantes de várias ilhas. Frequentá-lo podia significar deixar a casa dos pais, alojar-se com parentes, adaptar-se à vida urbana e conviver com colegas de outras origens. A escola ensinava matérias; a deslocação ensinava autonomia. O liceu preparou gerações das elites intelectuais, administrativas e políticas e despertou nas famílias aspirações de profissão e participação pública. No primeiro ano, vinte e um rapazes e dez raparigas assinalavam o alargamento gradual dos horizontes femininos.</p><p>A centralidade de São Vicente começou a atenuar-se apenas em 1955, com a abertura, na Praia, de uma secção do Liceu Gil Eanes. A cidade só voltaria a dispor de um estabelecimento autónomo em 1960, noventa e três anos depois da extinção formal do primeiro. Durante décadas, o predomínio educativo do Mindelo condicionou sucessivas gerações, obrigou muitas famílias a reorganizar os recursos e converteu a escolarização num projecto de circulação interinsular.</p><p style="text-align: center;"><strong>Internatos e ofícios</strong></p><p>Nem todos seguiam a via liceal. Em São Vicente, a Escola Salesiana de Artes e Ofícios desempenhou um papel complementar. Estabelecidos primeiro em São Nicolau, em 1943, e no Mindelo desde 1956, os Salesianos acolheram alunos internos e externos, incluindo jovens de outras ilhas. Ao reunirem escolarização, disciplina comunitária e aprendizagem profissional, criaram oportunidades de qualificação para rapazes de origem popular. O internato ajudava a vencer a distância insular, enquanto a preparação técnica facilitava a entrada no mundo do trabalho.</p><p>O Seminário Menor de São José, fundado na Praia em 1957, recebeu rapazes do interior de Santiago e de outras ilhas, muitos oriundos de famílias rurais modestas. Vários não prosseguiram a vida sacerdotal, mas levaram o preparo adquirido para o ensino, a administração pública, a magistratura, a diplomacia, a política e a cultura. O número dos que vieram a ocupar lugares de responsabilidade depois da Independência permite considerar a instituição um dos viveiros discretos da classe dirigente cabo-verdiana. Entre os que seguiram a via eclesiástica destacou-se Arlindo Furtado, primeiro cabo-verdiano elevado ao cardinalato.</p><p>Criado no Mindelo em 1953, o Seminário Nazareno preparava pastores e proporcionava cultura bíblica e humanística. Eugénio Duarte tornou-se o primeiro cabo-verdiano e africano eleito Superintendente Geral; Jorge de Barros coordenou publicações em português. Por ali passaram Teobaldo Virgínio e Oswaldo Osório. O meu percurso — de seminarista e pastor nazareno à antropologia, ao ensino universitário e à escrita — mostra como uma vocação religiosa podia abrir outras vias.</p><p style="text-align: center;"><strong>A família que sustenta</strong></p><p>Diferentes nos seus projectos, o liceu laico, os seminários, o ensino técnico e os internatos confessionais convergiram num efeito histórico: permitiram que estudantes de meios insulares, rurais ou socialmente modestos prosseguissem a instrução. Essa via de ascensão nunca funcionou, porém, como mecanismo automático. O acesso permanecia territorialmente concentrado e condicionado pelo género, pelos recursos disponíveis e pelas redes de acolhimento. Por detrás de muitos percursos encontrava-se um investimento colectivo: pais que renunciavam a parte do rendimento, mães que sustentavam a casa, irmãos que ajudavam e parentes que ofereciam alojamento.</p><p>O estudante raramente partia sozinho. Levava recomendações, expectativas e responsabilidades, e o seu êxito deixava, por isso, de ser apenas individual: tornava-se motivo de orgulho e, por vezes, sinal da ascensão de toda uma casa. As redes de parentesco permitiam vencer as limitações da geografia. Acolher um aluno de outra ilha, assegurar-lhe alimentação ou acompanhá-lo na cidade era uma maneira discreta de contribuir para a sua educação. A mudança de condição começava, muitas vezes, numa cama cedida, num prato acrescentado à mesa ou numa pequena quantia enviada todos os meses.</p><p>A escolarização alterou as relações familiares. Para as raparigas, abriu margens de autonomia e modificou destinos definidos pelo casamento, pela maternidade e pelo trabalho doméstico. Ao regressarem ou estabelecerem-se noutros lugares, os alunos transportavam referências capazes de transformar a própria família.</p><p style="text-align: center;"><strong>Abrir caminho</strong></p><p>Mudaram as instituições e alargaram-se as oportunidades, mas a ligação entre educação, família e futuro permanece. Democratizou-se o acesso e diversificaram-se os percursos. Subsiste uma convicção antiga: estudar é abrir caminho, mesmo quando o diploma já não assegura emprego ou estabilidade.</p><p>Em Cabo Verde, a história da escola é também a da casa. Entre quem parte e os que ficam estabelece-se um compromisso de renúncia, confiança e futuro. Quando um jovem seguia caminho para estudar, não transportava apenas os livros. A casa seguia com ele.</p><p><em><strong>Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1292 de 02 de Setembro de 2026.</strong></em></p>
