Entre Dois Mundos: Como China e EUA usam a engenharia como arma de prestígio e propaganda
Não é só uma ponte: as obras monumentais como arma de propaganda entre China e EUA Nos países mais poderosos do planeta, a engenharia pode ser uma arma de prestígio e propaganda. Quem tem a ponte mais alta? Quanto tempo levou para ficar pronta? E a que custo? O jogo das superpotências está de volta. De um lado, a China. Do outro, os Estados Unidos. Duas formas de construir e de contar a própria história. É a nova temporada da série Entre Dois Mundos. A ponte do Cânion Huajiang não é uma ponte qualquer. Ela tem um elevador panorâmico que leva até o topo.A altura é vertiginosa: 625 metros acima do cânion. Tem ainda uma parte em que o chão é de vidro. É possível caminhar por uma ponte de madeira no equivalente ao topo de um prédio de 175 andares. A ponte é acompanhada por uma grande atração turística ao lado: hotel, restaurante e mirante. E a cereja no topo do bolo: torres de 5G. A internet rápida chegou. Um homem conta que fica duas horas por dia fazendo transmissão ao vivo dos confortos da sua nova pousada, que fica naquele vilarejo ali, logo embaixo da ponte. "Depois que passei a administrar a pousada, minha renda ficou muito maior.” No mesmo momento pontes nos Estados Unidos estão desmoronando, dezenas delas, pelo país todo, ameaçadas, e não obedecem aos padrões modernos de segurança. Pontes dos dois lados do mundo. E a propaganda dentro de cada uma delas. Essa é a volta da série Entre Dois Mundos. Guizhou é uma província chinesa que não tem planícies. É um conjunto de montanhas, no sul da China, que por milênios foram habitadas por muitas etnias. Até que o imperador mandou seu exército e fundou, há 600 anos, a cidade de Tianlong Tunpu. A estrutura toda de pedra era uma espécie de fortaleza para evitar invasões. As senhoras mais antigas servem chá para as pessoas enquanto cantam as canções antigas. É uma das pequenas cidades no alto das montanhas que agora estão conectadas pela nova ponte e dentro do mundo digital. Hoje a ópera da praça central pode ser transmitida ao vivo, em qualidade HD. Essa é a história que a China quer contar. Uma excursão organizada pela empresa que instalou o 5G, pela empresa de telefonia que opera o sistema e pelo governo local. As três partes ficaram um ano negociando o que poderia ser mostrado. O roteiro é pré-escrito, um jogo de cartas marcadas, uma história que se passa numa vila em que os personagens são colocados em seu lugar para contar a história que o governo quer. O grupo era formado em grande parte por influenciadores que vão mostrar pelas redes sociais o que está acontecendo na China. Desde novembro de 2025, a China começou a controlar a presença desses formadores de opinião dentro de suas próprias plataformas. Todo mundo fazia fila para entrevistar as pessoas autorizadas, e o tradutor tinha que ser o autorizado pela organização da comitiva. “É um esforço para proteger, controlar e conter a imagem da China, algo equivalente à censura mesmo. Na era Mao Tsé-Tung, já eram feitas essas visitas guiadas, e só tradutores oficiais cuidadosamente treinados tinham permissão para interagir com os visitantes.” A professora Maria Repnikova, da Georgia State University, é uma das maiores especialistas do mundo em comunicação política chinesa e conta que esse é um projeto voltado tanto para turistas internacionais quanto para os próprios visitantes chineses. “É uma parte muito importante da propaganda doméstica: inspirar orgulho e confiança em relação ao rumo que a China está tomando. Isso significa questionar menos, ter menos dúvidas e críticas.” É possível ver os jornalistas, mas a vila é fantasma. Muita gente foi embora para procurar emprego em outros lugares. E agora o projeto é trazer todo mundo de volta. O êxodo dessas zonas rurais é um dos mais graves problemas que a China construiu nas últimas décadas. Esse também é um dos problemas mais graves nos Estados Unidos. Cidades do interior dos EUA eram onde viviam famílias que trabalhavam na indústria, principalmente no Cinturão da Ferrugem, como é chamada a área que tinha forte presença industrial. Era o sonho americano. As famílias conseguiam sustentar seus filhos, ter casa, carro e emprego duradouro. Até que as fábricas começaram a fechar. No local fica boa parte do eleitorado de Donald Trump, que promete fazer a América grande de novo, trazendo de volta a fábrica e a população dessas cidades. Muita gente nos Estados Unidos acredita que a morte das fábricas foi por causa da China, que começou a produzir em larga escala, muito mais barato. E as fábricas americanas não conseguiram mais competir. Grande parte dos trabalhadores que fizeram crescer fábricas chinesas vieram exatamente da província, onde hoje fica a ponte mais alta do mundo, mas que também é o lugar mais pobre da China: Guizhou. Tudo começou quando a China construiu as chamadas zonas econômicas especiais. Pelo menos 600 mil pessoas saíram todos os anos para trabalhar principalmente na indústria têxtil. E, no começo, a média salarial era de 25 dólares por mês. Eles tinham alojamento e refeitório. Então esse dinheiro eles mandavam basicamente todo de volta para casa. Foi aí que a China começou a sair da pobreza extrema. O êxodo chinês fez com que quase 90 milhões de crianças fossem deixadas para trás pelos pais. Muitas delas são criadas pelos avós. Isso não é raro também no Brasil. Milhões de pessoas que nasceram no Nordeste foram principalmente para o Sudeste e muitos deixaram seus filhos sendo criados pelos avós. Mas na China tem uma grande diferença: a palavra "hukou". Para a gente entender, seria mais ou menos assim: se você nascesse, por exemplo, no Maranhão, lá ficaria o seu registro. E, se você fosse trabalhar em São Paulo, teria que voltar ao Maranhão para usar o sistema de saúde, pedir aposentadoria ou matricular seus filhos na escola. Por décadas, as famílias de Guizhou simplesmente não podiam levar seus filhos porque eles não podiam estudar nas escolas perto das fábricas. “Hoje a China tem cerca de 180 milhões de trabalhadores migrantes rurais. Ao não conceder a eles o acesso aos benefícios urbanos, incluindo o direito de os filhos estudarem nas escolas da cidade, se cria um enorme exército de mão de obra barata. Essa mão de obra barata foi extremamente importante para o modelo econômico chinês ao longo das últimas quatro ou cinco décadas”, diz Kam Wing Chan, professor da Universidade de Washington. Nos últimos anos, o sistema se flexibilizou. Algumas escolas aceitam filhos migrantes. Mas eles ainda não podem fazer o vestibular a não ser no lugar onde nasceram. A quantidade de crianças deixadas para trás causa algumas das maiores tragédias do país, que são muito mal documentadas. “Hoje existe um acompanhamento muito maior dessas crianças que vivem sem os pais. Elas recebem mais apoio da polícia e do Ministério da Educação. E são monitoradas pelo celular. Parece que essas medidas ajudaram a reduzir o problema”, diz Kam Wing Chan, professor da Universidade de Washington. Na banca de comida, a intenção é divulgar como agora estão vendendo seus produtos agrícolas pela internet para todo o país. Mas o menino conta que, na verdade, ele não mora ali. A empresa que o contratou dá dormitório e refeições. “Vou para casa uma vez por semana. Moro a cerca de duzentos quilômetros daqui.” Faz tudo parte de um projeto que a China não concretizou, mas vende como concretizado. Enquanto nos Estados Unidos, 68 pontes em 19 estados precisam de manutenção imediata ou correm o risco de cair. Isso é segundo o próprio governo americano. Pontes americanas estão velhas não só porque custam muito mais caro, mas porque o sistema americano está emperrado. “Uma construtora vem, sem sequer projetar a ponte, e diz: 'Vocês nos pagam três bilhões de dólares e nós construiremos a ponte'. Aí essa empresa vai contratar um designer, depois um revisor que vai cobrar o mesmo ou mais. Tem o fornecedor que recebe, o empreiteiro que recebe, e cada um tem sua própria margem de lucro. No final das contas, o custo vai ser o dobro ou o triplo”, diz Anil K. Agrawal, professor do City College of New York (CUNY). Uma grande obra de engenharia no estado de Nova York não é tão alta, mas tem o dobro do comprimento. Demorou cinco anos para ficar pronta e custou US$ 4 bilhões. Enquanto a ponte mais alta do mundo demorou três anos de planejamento e apenas 73 dias para montar. E custou treze vezes menos. Hoje a província mais pobre da China tem 50 das 100 pontes mais altas do mundo. A província está endividada. Salários dos servidores públicos atrasam. Os cortes na saúde e educação foram sentidos por toda a população. Mas há um projeto. Levar para as zonas rurais o rejuvenescimento. Diminuir a pobreza e criar um plano de melhoria de vida para as pessoas. Enquanto os Estados Unidos enfrentam uma crise de esperança nas zonas rurais, a China entrega esperança de bandeja. Não que não haja propaganda nos Estados Unidos. A Casa Branca vende que o país vive a maior reindustrialização da história. Mas levantamentos independentes mostram que as fábricas continuam demitindo. “Os Estados Unidos vivem uma situação preocupante. Muita discórdia e confusão. É justamente por isso que a China, independentemente do que prometa, parece muito mais organizada e viável", diz Maria Repnikova. A diferença nos Estados Unidos é que há uma imprensa falando disso. E o povo pode reclamar, também. Na China, se abrem os olhos para filmar ou fotografar o que é permitido. O segredo para confiar e ter sempre fé que o futuro já chegou. Ou que pelo menos está ao alcance das mãos. No próximo episódio: A ponte é entre dois polos da inovação e do empreendedorismo. O Vale do Silício americano e o Vale do Silício chinês. É a corrida da tecnologia entre dois mundos. GloboPop: clique para ver os vídeos do palco do Fantástico Ouça os podcasts do Fantástico ISSO É FANTÁSTICO O podcast Isso É Fantástico está disponível no g1 e nos principais aplicativos de podcasts, trazendo grandes reportagens, investigações e histórias fascinantes em podcast com o selo de jornalismo do Fantástico: profundidade, contexto e informação. Siga, curta ou assine o Isso É Fantástico no seu tocador de podcasts favorito. Todo domingo tem um episódio novo. PRAZER RENATA O podcast 'Prazer, Renata' está disponível no g1, no Globoplay, no Deezer, no Spotify, no Google Podcasts, no Apple Podcasts, na Amazon Music ou no seu aplicativo favorito. Siga, assine e curta o 'Prazer, Renata' na sua plataforma preferida.
