Telefone fixo, disquetes e cinco 'ninjas': os bastidores da criação da urna eletrônica
<img src="https://s2-g1.glbimg.com/SvRkCCE_IT5p3DCkNXYWfehJY1c=/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/t/G/ylKTgNRYy5hWqrGuBswQ/whatsapp-image-2026-08-19-at-10.51.52.jpeg" /><br /> Como nasceu a urna eletrônica? Na frente de uma casa de taipa, com cobertura de palha e chão de terra batida, um homem aponta para um cartaz colado à parede. Na parte superior da imagem, está escrito: "vote em mim". No centro, no entanto, não está o rosto de nenhum candidato. Há apenas um teclado numérico: o da urna eletrônica. Era 1998, e a cidade pesqueira de Acaraú, no Ceará, se preparava para votar pela primeira vez com o equipamento eletrônico. Para os moradores do município, aquela máquina ainda era uma novidade. Era preciso aprender a votar nela. Até então, apenas um terço do eleitorado brasileiro havia tido essa experiência. A estreia da urna eletrônica havia sido em 1996, principalmente nos grandes centros urbanos. O cartaz na parede fazia parte desse esforço para tornar familiar uma tecnologia que, apenas dois anos depois, estaria presente em todas as seções eleitorais do país. Mauro Hashioka, engenheiro do Inpe e integrante da comissão que criou a urna eletrônica, aponta para um cartaz em uma casa em Acaraú, no Ceará. Na imagem, está escrito "vote em mim", com a imagem da urna eletrônica. Arquivo pessoal O homem que aponta para o cartaz é Mauro Hisao Hashioka, engenheiro do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Ele integrava a comissão criada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que trabalhou diretamente no desenvolvimento da urna eletrônica. A comissão havia ido a Acaraú, que tinha um alto índice de analfabetismo, para observar como os eleitores se comportariam diante da nova máquina. Hashioka fazia parte de um grupo de cinco especialistas, entre técnicos do Inpe, do Centro Técnico Aeroespacial e do próprio TSE. Eles ficaram conhecidos como “os ninjas”. Isso porque, dos cinco, três tinham ascendência japonesa. Em 1996, o TSE decidiu tirar do papel uma ideia que já aparecia no Código Eleitoral de 1932: a máquina de votar. A intenção era também deixar para trás um histórico de fraudes associado às cédulas de papel. Na eleição de 1994, uma parte das eleições chegou a ser anulada no Rio de Janeiro. O último a se juntar ao grupo foi o matemático Giuseppe Janino, o “quinto ninja”. Aos 35 anos, ele havia acabado de passar em primeiro lugar em um concurso para trabalhar no TSE. Grupo de especialistas que trabalhou diretamente da criação da urna eletrônica. Em pé, segurando um jornal, o matemático Giuseppe Janino. Arquivo pessoal Os cinco trabalhavam em uma sala na sede do tribunal, em Brasília. E o prazo era curto. “Praticamente virávamos noite, uma atrás da outra, para que tudo acontecesse”, contou Janino em entrevista ao g1. A missão era criar uma máquina capaz de funcionar nas condições mais diversas de um país continental. Para isso, o equipamento precisava seguir uma série de diretrizes: Funcionar sem conexão com a internet ou qualquer outra rede. Ter bateria própria, para não depender do fornecimento de energia elétrica. Ser resistente e fácil de transportar, já que teria de cruzar o país, viajar de barco e chegar a locais remotos, como aldeias indígenas. E, sobretudo, ser simples de usar. ☎️ Para resolver esse último desafio, os criadores da urna buscaram inspiração em um objeto familiar aos brasileiros na década de 1990: o telefone fixo. A disposição dos números no teclado da urna seguiu a mesma lógica do aparelho que fazia parte do cotidiano da população. 📍Em uma série de 50 vídeos, o g1 vai explicar os principais temas das eleições de 2026. Os conteúdos mostram como funcionam as pesquisas, explicam o papel dos cargos em disputa e o funcionamento do Congresso, e trazem orientações práticas para votar. A série também aborda o impacto das novas tecnologias na campanha, como inteligência artificial, deepfakes e influenciadores. 💾 Disquetes seguros até demais A primeira versão da urna eletrônica ainda dependia de uma tecnologia típica dos anos 1990: os disquetes. Eram dois. Um armazenava o sistema operacional e os programas da urna. O outro recebia os dados com o resultado da votação e, depois, era retirado para que essas informações fossem levadas a um ponto de transmissão. Os resultados já eram protegidos por criptografia, mas os “ninjas” decidiram acrescentar uma barreira. A ideia era “embaralhar” o disquete. Na prática, a equipe alterava a forma como as informações estavam organizadas no dispositivo para que, ao ser colocado em outro computador, ele nem sequer fosse reconhecido normalmente — como se não estivesse formatado. O método funcionou tão bem que surgiu um problema às vésperas da eleição: eles descobriram que conseguiam embaralhar o disquete, mas não desembaralhá-lo. “A gente teve que colocar um técnico numa salinha, passando cinco dias lá, só passando a comida por baixo da porta, para ele tentar desembaralhar o negócio”, contou Janino. “Agora é engraçado, mas foi extremamente tenso.” No fim, conseguiram. A vida dos disquetes na urna, porém, foi curta. Já em 1998, eles foram substituídos por cartões de memória do tipo flash, semelhantes aos usados em máquinas fotográficas. Segundo Janino, a mudança tornou o equipamento mais seguro e rápido e reduziu problemas de funcionamento. Na estreia da urna eletrônica, em 1996, 32% do eleitorado votou pelo novo sistema, adotado nas capitais e nos municípios com mais de 200 mil eleitores. Dois anos depois, a cobertura chegou a 58%. Em 2000, a votação eletrônica alcançou todo o eleitorado brasileiro. Imagem de arquivo - Ex-ministro do TSE, Carlos Velloso, vota em urna eletrônica na estreia do aparelho, em 1996 Divulgação/TRE-SP Hardware x software 🛠️E quem fabrica a urna eletrônica? O equipamento físico — o hardware — é produzido por uma empresa contratada por licitação. Já os programas que fazem a urna funcionar — os softwares — são desenvolvidos pela própria Justiça Eleitoral. No caso do equipamento, é o TSE que determina como ele deve ser construído. Segundo Janino, o edital de contratação chega a ter quase 800 páginas de requisitos técnicos. A empresa vencedora fabrica a urna seguindo essas especificações, enquanto uma equipe de servidores da Justiça Eleitoral acompanha a produção no chão de fábrica, passo a passo. O controle permanece mesmo depois que o equipamento está pronto. Segundo o matemático, até para testar a urna que acabou de fabricar, a empresa precisa usar uma senha fornecida pelo TSE. “Nem mesmo ele que fabrica consegue sequer testar sem a permissão”, afirmou. Já os softwares instalados nas urnas são desenvolvidos por técnicos do próprio TSE. “Nada é desenvolvido fora”, disse Janino. O código-fonte desses sistemas — isto é, as instruções que determinam como os programas funcionam — fica disponível para inspeção das entidades fiscalizadoras por um ano antes da eleição. Depois desse período de análise, os programas passam pela chamada lacração dos sistemas eleitorais. Eles recebem assinaturas digitais e mecanismos que permitem verificar tanto a autoria quanto a integridade dos arquivos. Assim, é possível identificar qualquer alteração posterior no software. Segundo Janino, a mudança de “um ponto ou uma vírgula” já faria o código de verificação deixar de corresponder ao original. 'Você é maluco?': os testes públicos de segurança Em 2009, mais de uma década depois de participar da criação da urna, Giuseppe Janino, então secretário de Tecnologia da Informação do TSE, propôs uma nova forma de colocar o sistema eleitoral à prova: abrir equipamentos e programas para que especialistas tentassem encontrar vulnerabilidades. Nasciam os Testes Públicos de Segurança (TPS) da Justiça Eleitoral. A proposta encontrou resistência até entre os antigos “ninjas”. O receio era o impacto que uma falha descoberta durante os testes poderia causar à credibilidade do sistema. “Os ninjas eram todos contra. ‘Não, você é maluco'", relembrou Janino. Ele defendia a lógica inversa: se uma vulnerabilidade existisse, era melhor descobri-la antes da eleição. Nos testes, investigadores têm acesso a informações técnicas, ao código-fonte e aos próprios equipamentos para elaborar e executar planos de ataque. Quando uma barreira é superada, a equipe do TSE analisa o achado e faz as correções necessárias. “Se chegar aqui um hacker e quebrar todas as barreiras, bacana. Isso significa que ele vai nos dar contribuição e mostrar o que a gente precisa corrigir”, disse Janino. “Isso é uma grande contribuição da sociedade. E o software evoluiu muito depois que nós introduzimos os testes públicos de segurança.” Segundo o TSE, desde que a urna eletrônica começou a ser usada, em 1996, nunca foi comprovada fraude no sistema eletrônico de votação brasileiro.
