Dia do açaí: como mulheres negras e mestiças do século XIX construíram a história da fruta em Belém
<img src="https://s2-g1.glbimg.com/cQtlSyxeR8vpyK8AtaVg1mG4nrs=/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/f/I/8GEfDCSGylENNv1OSwOg/whatsapp-image-2026-05-25-at-10.49.38.jpeg" /><br /> Dia do Açaí: como era a venda e consumo da fruta no século XIX em Belém No dia do açaí, celebrado neste sábado (5), o g1 Pará mostra que a relação de moradores de Belém com a fruta é muito antiga. No século XIX, quando ainda não existiam as máquinas usadas atualmente para bater o açaí, mulheres negras e mestiças preparavam a bebida com as próprias mãos e também percorriam as ruas da capital paraense vendendo o produto de porta em porta. Elas eram chamadas de "amassadeiras" e "vendedeiras" de açaí, personagens que aparecem em jornais, processos criminais, relatos de viajantes e imagens históricas analisados pela historiadora Caroline Porto Brito, da Universidade Federal do Pará (UFPA). Caroline é mestre em História Social da Amazônia pelo Programa de Pós-Graduação em História da UFPA. Segundo ela, o projeto foi desenvolvido durante dois anos de mestrado e tinha como foco os serviços domésticos e as mulheres que trabalhavam como criadas na capital paraense. A pesquisa intitulada “No encalço das libertas: a regulamentação dos serviços domésticos e as experiências de luta e trabalho nas ruas de Belém (1871-1898)” mostra as experiências de trabalho e circulação de mulheres pelas ruas de Belém entre os anos citados. Nos documentos encontrados, estão registros que ajudam a reconstruir como o açaí era preparado, vendido e consumido na cidade. “Algumas dessas mulheres, além de serem trabalhadoras domésticas, trabalhavam com a venda de comes e bebes nas ruas. Os documentos mostravam que uma mesma mulher podia exercer diferentes atividades ao longo do dia ou em períodos distintos". Açaí Gea/divulgação "Uma trabalhadora podia atuar como cozinheira na casa de uma família e, posteriormente, aparecer na documentação como doceira ou vendedora. São ofícios que estavam entrelaçados, que eram complementares para algumas dessas mulheres nesse período”, explica Caroline. Os relatos reunidos no estudo mostram que essas trabalhadoras estavam inseridas em uma rede que envolvia comércio, clientela, relações de vizinhança, amizade e solidariedade, mas também conflitos, furtos e episódios de violência. ✅ Clique e siga o canal do g1 Pará no WhatsApp Como a pesquisa chegou às amassadeiras O ponto de partida foram processos criminais preservados pelo Centro de Memória da Amazônia. Ao acompanhar as histórias das mulheres que apareciam nesses documentos, a historiadora percebeu que o trabalho delas não se limitava às atividades domésticas. Segundo Caroline, os registros revelaram mulheres que acumulavam diferentes formas de trabalho como estratégia de sobrevivência. Em alguns casos, elas trabalhavam pela manhã como cozinheiras e, à tarde, saíam às ruas para vender alimentos. A partir desses registros, o açaí passou a ocupar um espaço importante dentro da pesquisa. As fontes permitiram à historiadora encontrar nomes, conflitos, relações de amizade e episódios do cotidiano de mulheres que trabalhavam com a preparação e a venda da bebida em Belém no século XIX. "São histórias que aparecem de forma fragmentada nos documentos, mas que, reunidas, ajudam a revelar como essas trabalhadoras ocupavam as ruas da cidade e construíam sua própria sobrevivência em torno de diferentes ofícios, entre eles, o comércio do açaí", disse Caroline. Antes da máquina, era no braço A Banca de Açaí Brazil: The Amazon and the Coast. p.44 Um dos relatos reunidos pela pesquisa é do viajante norte-americano Herbert H. Smith, que esteve na Amazônia em 1870. Ele descreveu uma banca onde duas mulheres preparavam açaí em grandes vasilhas com água. Os frutos eram esfregados vigorosamente com as mãos até que a polpa se desprendesse dos caroços e tingisse a água de roxo. Depois, a bebida era passada por uma peneira de vime e servida aos clientes. Antes das máquinas, o preparo dependia diretamente do trabalho das amassadeiras. A atividade também exigia a confiança dos fregueses. Como o preparo era manual, a reputação das trabalhadoras estava ligada à qualidade e aos cuidados envolvidos na produção. Essa importância aparece na história de Theodora, uma amassadeira que, em 1885, recorreu a um jornal da época para defender sua reputação e o próprio comércio. Segundo a pesquisa, ela afirmou que continuaria sendo escolhida pelas famílias que conheciam seu trabalho: “Eu hei de sempre ser preferida pelas exmas. familias, que me conhecem e sabem que eu sou incapaz de fazer o que dizem!” O episódio mostra como ter uma boa freguesia era fundamental para garantir a sobrevivência pelo comércio, que não ficava restrito às bancas. As vendedeiras percorriam as ruas de Belém oferecendo a bebida de porta em porta, carregando recipientes de barro e gamelas sobre a cabeça. Vendedeira de Açaí, 1870 Açaí na cuia A pesquisa também mostra que o açaí ocupava um lugar importante na alimentação dos moradores da cidade. A bebida podia ser consumida com farinha de mandioca ou açúcar e acompanhava alimentos como peixe e camarão. Também havia preparações com arroz, tapioca e mandioca puba. A forma de consumo variava conforme o grupo social. A farinha era comum entre as camadas populares, enquanto o açúcar estava associado a determinado status social. Um relato publicado em um jornal de 1891, conta a história de Dona Chiquinha, que tomava açaí depois do almoço desde criança. Mesmo depois de um parente tentar proibir o hábito, ele acabou dando dinheiro para que ela comprasse a bebida. O episódio é um dos registros que mostram como o açaí estava incorporado à rotina alimentar da população. Trabalho, conflitos e solidariedade Os documentos pesquisados por Caroline também revelam que o comércio do açaí era marcado por conflitos. A pesquisa registra casos de furtos e agressões envolvendo trabalhadoras, como Juliana Maria da Nazareth, que teve o dinheiro do comércio ameaçado, e Serafina Maria da Conceição, uma amassadeira agredida após um desentendimento. Os episódios mostram que o trabalho nas ruas representava uma fonte de renda e circulação pela cidade, mas também expunha essas mulheres a situações de violência. Ao mesmo tempo, os registros revelam redes de solidariedade. É o caso de Izabel Maria da Conceição, vendeira e amassadeira de açaí. Em um processo criminal, ela aparece como testemunha de uma agressão sofrida por sua amiga Elisa Maria da Conceição. Izabel contou que costumava tomar açaí com Elisa todas as noites. Depois que a amiga foi atacada, ela e as filhas cuidaram dos ferimentos da mulher. Na pesquisa, o episódio aparece como exemplo das relações de amizade, convivência e solidariedade construídas entre essas trabalhadoras. Muito antes de conquistar consumidores em outras regiões do país, o açaí já fazia parte da alimentação e da economia de Belém. No século XIX, estava nas bancas, nas casas e nas ruas. E estava, principalmente, nas mãos e nas vozes das mulheres negras e mestiças que preparavam e vendiam a bebida. Amassadeira de Açaí ESTAMPAS EUCALOL. Percy Lau, 1950. Theodora, Izabel, Serafina, Juliana Maria da Nazareth e outras trabalhadoras aparecem nos documentos pesquisados por Caroline como personagens de uma história registrada de forma fragmentada, mas que revela a importância dessas mulheres para a vida urbana da capital paraense. Hoje, quando uma cuia chega à mesa, essa memória nem sempre é lembrada. Antes das máquinas e da fama nacional da fruta, havia as amassadeiras e seus pregões ecoando pelas ruas de Belém: “Açaí fresquinho!” Leia todas as notícias do estado g1 Pará
