Livro - Os primeiros embaixadores: Mário Pais conta a história do futebol cabo-verdiano
<p><strong style="background-color: initial;">É autor de um livro muito citado, mas que ainda ninguém viu. Quando chegará às bancas?</strong></p><p>Se fosse por opção própria, já há cerca de dois anos. É um livro que me levou cerca de dez anos a completar e a atingir o que considero aquilo que eu almejava desde garoto. O livro ainda não viu a luz do dia, não por minha opção, mas porque não tenho conhecimentos na área da edição e está pendente, eventualmente, de patrocínios para se poder levar avante a edição. Mas é um livro que eu considero que pode ajudar a perceber o futebol cabo-verdiano desde o seu início, porque somos também os pioneiros. Ainda por cima, deram a conhecer o nome de Cabo Verde. Por exemplo, em 1904, com o Fortunato Levy. Foi um dos fundadores do Benfica, embora o nome não conste na lista dos chamados fundadores do Sporting de Lisboa, antes da fusão com o Futebol do Benfica. Mas é um livro que eu penso que seria de grande importância para o conhecimento, não só do futebol, mas de outras facetas desses cabo-verdianosque jogaram em Portugal, a nível social, político e desportivo. Eu ficaria extremamente contente, na verdade, porque também eu estou à espera que o livro veja a luz do dia.</p><p><strong></strong></p><p><strong>Onde foi buscar o diplomático título "</strong><strong>Os primeiros embaixadores de Cabo Verde no futebol"?</strong></p><p>Antes de mais, posso-lhe dizer que não foi a minha primeira opção. Mas, depois de falar com outras pessoas, por acaso foi o meu primo, Totó Moniz, e uma outra pessoa de que não me lembro agora, estivemos a ver os possíveis títulos que poderiam, digamos, dar sustentabilidade. Fomos vendo, fomos analisando os termos possíveis e chegámos à conclusão de que dentro do futebol teriam de ser "Os Primeiros Embaixadores", porque, na verdade, torno a repetir, são figuras que são importantíssimas a vários níveis. Torno a repetir também, porque deram muito, muito, muito a conhecer, em Portugal, o futebol cabo-verdiano. Posso citar os nomes para não fugir muito ao tema. O Fortunato Levy foi um dos fundadores do Benfica, foi o primeiro capitão democraticamente eleito do clube. Quando o Benfica disputou a sua primeira competição oficial, em 1906/1907, com a edição do primeiro campeonato distrital de Lisboa - porque era assim que em todo Portugal funcionava, eram campeonatos distritais ou regionais - ele, logo nesse ano, foi eleito por eleição democrática dos próprios jogadores, dirigentes e associados do clube. Por incrível que pareça, um negro de Cabo Verde foi eleito capitão do Sport Lisboa e Benfica, das chamadas primeiras categorias ou categoria de honra. E para a mesma posição, mas para as segundas categorias destacou-se um outro nome famoso do Benfica, Félix Bermudes, que viria a ser presidente do Benfica e que escreveu o Hino Oficial do Benfica, Avante P’lo Benfica, que durante o tempo do salazarismo foi proibido, devido à conotação política.</p><p><strong></strong></p><p><strong>Podia falar-nos da génese do seu livro?</strong></p><p>Bom, a génese começa porque eu, desde que nasci, por assim dizer, estava ligado a uma bola de futebol. Mais tarde, fui descobrindo que o meu pai, que na altura já estava na Guiné, tinha jogado no Benfica de Bissau. O meu tio Mário e o meu tio Eduíno também seguiram o mesmo caminho, jogaram no Benfica de Bissau. Tornei-me, por causa disso, um benfiquista e depois descobri também que o meu pai foi um dos fundadores do Boa Vista Futebol Clube da Praia, que até ainda hoje é um dos clubes, penso, mais titulados do país. E, por esse motivo, continuei sempre ligado ao futebol. Aprendi a ler e fiquei fascinado, então, pelo futebol. Lia todas as revistas e jornais portugueses, devorava mesmo, é o termo correcto, e comecei a ter essa sensibilidade para o futebol. Depois, ainda menino, com nove anos, tornei-me assinante de jornais desportivos e também de revistas ligadas mais ou menos ao futebol, ou então com páginas dedicadas ao futebol. Era o caso da <em>Mundo de Aventuras</em>, através de umas fotografias chamadas separatas, que agora podemos traduzir por mini-poster. E também lia por crónicas desportivas e outras revistas do género. Então, fiquei fascinado pelo futebol. Comecei também a dar os primeiros pontapés na bola muito cedo, com a chamada bola de trapos à portuguesa, ou bolas de meia, como diziamos cá na Praia. Jogávamos em cima do passeio, a partir das seis horas da tarde, em plena rua, porque não havia trânsito, não havia carros. </p><p>Por volta dos meus 12 até 15 anos de idade, comecei a participar nos então designados campeonatos de subúrbios, tendo-me alinhado na equipa chamada Granada, da qual fui um dos fundadores. Quando atingi os 16 anos, idade a partir da qual já se podia competir no Campeonato Oficial, alinhei no Sporting de Praia (1962/63). Em 1963/64 transitei para a Académica da Praia. Durante duas temporadas, por opção própria não joguei. Em 1967/68 fui campeão pela Académica da Praia e em 1968/69 fui campeão de Santiago e de Cabo Verde pelo Sporting Clube da Praia. </p><p><strong></strong></p><p><strong>Uma pergunta incontornável que se coloca a todo o entrevistado, não só desportistas, artistas, mas também políticos. Como avalia a prestação dos Tubarões Azuis na Copa do Mundo?</strong></p><p>Bom, eu tenho de utilizar vários adjectivos: indescritível, emocionante, inesperado, contente, orgulhoso. Eu tenho a impressão de que poderia usar mais adjectivos. Honestamente, apanhou-me completamente desprevenido, mas não duvido do valor desses jogadores, porque eu já tinha visto, por exemplo, o Sidny Lopes Cabral<strong> </strong>ao serviço do Benfica. Já tinha visto alguns jogadores a jogar pela selecção. Já conhecia muitos de nome, de os ver num ou noutro clube europeu, numa competição europeia, e também alguns que já tinham passado pelo futebol português. Caso, por exemplo, do Vozinha e outros. Mas, sinceramente, foi, digamos, do mais indescritível.</p><p><strong></strong></p><p><strong>Que perspectivas abre esta prestação para o futebol cabo-verdiano?</strong></p><p>A questão devia ser colocada mais às pessoas que estão ligadas directamente ao futebol cabo-verdiano: aos vários gabinetes que compõem a Federação Cabo-verdiana de Futebol. Mas acho que eles, de certeza, têm já tudo organizado, tudo pensado para a contínua evolução do futebol cabo-verdiano. </p><p><strong>Já tem na forja o próximo livro?</strong></p><p>Por acaso, até tenho. As recolhas já estão mais do que feitas, também é um livro em que, além do desporto, vou juntar algumas outras áreas em que considero que o cabo-verdiano é também um predestinado. É o caso de entretenimento, mas também há outras áreas, desde o basebol, passando pelo futebol americano, o entretenimento musical, etc. É um livro que penso também vai agradar a quem aprecie a recolha de histórias de grandes nomes que honraram Cabo Verde. E, na minha modesto opinião, são figuras que merecem agora ser recordadas, ser conhecidas, porque são cabo-verdianos.</p><p><strong>Quem é o último embaixador do futebol de Cabo Verde?</strong></p><p>Bom, por tudo o que tem sucedido, não podemos arranjar atalhos: indiscutivelmente, o Vozinha. Pelo que fez no Mundial, pelo sucesso que alcançou a nível mediático, e pela humildade dele... porque eu já vi algumas vezes na televisão o Vozinha jogar ao serviço do Grupo Desportivo do Chaves. Vi-o jogar e sempre vejo claramente um guarda-redes adulto, calmo, ponderado, sem espalhafatos. Sempre gostei da sua postura futebolística. Portanto eu acho que neste momento, indiscutivelmente, é a grande figura do futebol cabo-verdiano. Poderia citar outros nomes, mas acho que Vozinha é neste momento a grande figura do futebol cabo-verdiano. </p><p><em><strong>Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1292 de 02 de Setembro de 2026.</strong></em></p>
