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g1 20 anos: Da periferia ao MBA nos Estados Unidos, a história de quem foi o primeiro da família a fazer faculdade

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<img src="https://s2-g1.glbimg.com/22AzRkWCsxxa2L6iHfsVS2uOXYM=/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/E/m/ecQyCoRTaOcVVrGbkSQw/267da50b-2650-4009-b419-a0c33fecd28e.jpg" /><br /> Os primeiros da família a fazer faculdade Douglas Amorim, de 29 anos, cresceu na Cidade Tiradentes, periferia do extremo leste de São Paulo, e estudou a vida toda em escola pública. Filho de um mecânico de caminhões e de uma ex-costureira, hoje dona de casa, ele foi o primeiro da família a cogitar entrar na universidade. Hoje, é formado em Ciências da Computação e está se mudando para Chicago, onde fará um MBA [leia mais abaixo]. “No segundo ano do ensino médio, quando comentei com meu pai que queria prestar vestibular para a USP, ele me perguntou quanto custava. Ele sempre morou em São Paulo, mas sequer sabia que existia uma universidade pública e gratuita”, diz. “Quando você é da periferia ou da primeira geração a ter chance de estudar, às vezes te falta até o acesso à informação”. Em resumo, o percurso de Douglas foi o seguinte: cursou o ensino médio em uma escola técnica de Guaianases, onde descobriu o interesse por tecnologia, e fez o curso técnico de informática na ETEC de Itaquera; matriculou-se no cursinho popular Mafalda, com aulas aos sábados, para tentar passar no vestibular; participou do cursinho preparatório da própria pró-reitoria da USP (iniciativa voltada a alunos de escolas públicas que se destacavam na Fuvest como treineiros, com bolsa de R$ 300, vale-transporte e alimentação). Em 2014, assim que terminou a educação básica, foi aprovado em Ciência da Computação na USP de São Carlos. Na turma de 100 alunos, era o único que havia cursado todo o ensino fundamental e médio em escola pública e ingressado direto. A permanência estudantil — com alojamento e restaurante universitário gratuitos — foi decisiva para que pudesse concluir a graduação, diz ele. Na casa de Douglas, ninguém tinha diploma, mas isso nunca impediu que o ambiente fosse estimulante na infância do menino. O pai passava desafios simples de lógica e matemática; a mãe ia atrás de oportunidades de cursos gratuitos (foi ela que o inscreveu no espanhol). De alguma forma, mesmo sem ter informações sobre o acesso ao ensino superior, a família queria que ele chegasse a essa etapa. Após se formar e fazer mestrado na própria USP, Douglas está nos preparativos finais para mais um salto: em breve, muda-se para Chicago, nos Estados Unidos, onde será bolsista em um MBA em inteligência artificial. Douglas estudou em ETEC no ensino médio Arquivo pessoal Efeito multiplicador Douglas foi aprovado para um MBA nos Estados Unidos Arquivo pessoal A trajetória do cientista da computação acabou gerando um "efeito em cadeia" no ambiente familiar. Ao ver a dedicação do filho aos estudos, a mãe de Douglas, que havia cursado apenas até a 4ª série [atual 5º ano] do ensino fundamental, no sertão da Bahia, tomou coragem para voltar às salas de aula. Primeiro, terminou o ensino fundamental e o médio pelo Ensino de Jovens e Adultos (EJA). Anos mais tarde, durante a pandemia, concretizou um sonho antigo: fez o vestibulinho da ETEC e concluiu um curso técnico em administração. “Para mim, a educação é o principal caminho para transformar uma realidade. E ver a minha família vivendo essa transformação junto comigo é o que dá sentido a tudo”, afirma Douglas. “Minha mãe realizou um sonho. Foi um ciclo de ajuda mútua: ela me apoiou quando eu era pequeno e eu consegui apoiá-la depois”, conta. A história se conecta com a de Ellen Menezes, de 25 anos, que está no último ano da faculdade de Pedagogia na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Filha de pais vindos da Bahia com o ensino fundamental incompleto — a mãe vende milho e pamonha e o pai trabalha como motorista de aplicativo —, ela também é a primeira do núcleo familiar a chegar ao ensino superior. “Quando passei na universidade pública, minha mãe chorou de emoção. Para famílias como a minha, ver um filho chegar à faculdade é motivo de muita comemoração, um marco de transformação de vida”, diz Ellen. Do chão da escola à transformação social Ellen quer trabalhar como professora em escolas públicas Arquivo pessoal Ellen escolheu a educação para transformar o seu futuro (e o do país). Inicialmente aprovada em Ciências Sociais, prestou o vestibular novamente após perceber que seu verdadeiro desejo era atuar na educação infantil. Ingressante pelo sistema de cotas étnico-raciais na Unicamp, a estudante destaca que as políticas de ação afirmativa mudaram não apenas o perfil dos alunos nos campi públicos, mas também a profundidade dos debates acadêmicos. Com o diploma prestes a ser conquistado, seu plano para os próximos anos é prestar concurso para lecionar na rede pública, conciliando a rotina de professora com os estudos de mestrado e doutorado. “Existe uma desvalorização muito grande da carreira docente, especialmente na educação infantil, como se fosse um trabalho apenas de cuidado e não de ensino. Mas estar no chão da escola pública é onde quero estar", afirma. "A educação tem um poder transformador que me levou para um lugar totalmente diferente de onde meus pais vieram, e é isso que quero proporcionar a outras crianças”, diz.

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