Superlotação deixa pacientes em corredores no Complexo Hospitalar Sul; pai pode perder o pé e mulher esperou dois dias para remover feto
<img src="https://s2-g1.glbimg.com/Z4t9KgaNryBPQ15N6gO4DR4IkfY=/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/V/A/HM1AwDRBCetFzzX3SNzg/captura-de-tela-2026-09-03-184052.png" /><br /> Hospital e Pronto-Socorro 28 de Agosto, em Manaus. Rede Amazônica Um pai que pode perder o pé depois de vinte e um dias internado. Uma mulher que esperou dois dias para receber atendimento depois de perder o bebê. Os relatos são de quem procurou o Complexo Hospitalar Sul, formado pelo Instituto da Mulher Dona Lindu e pelo Hospital e Pronto-Socorro 28 de Agosto, e diz ter encontrado corredor lotado no lugar de leito. Como não há mais leitos disponíveis, os corredores do hospital se transformaram em locais de internação. Pacientes e acompanhantes ocupam todos os espaços possíveis. Quem está no corredor reclama que o atendimento não é bom. Na enfermaria lotada, estão pacientes graves que não vão para a UTI porque não há vagas. Um deles, um homem que preferiu não se identificar, chegou no dia 10 de agosto após sofrer um infarto e ser constatado água nos pulmões e problemas nos rins. 📲 Participe do canal do g1 AM no WhatsApp No início, ele ficou na sala vermelha enquanto aguardava vaga para a UTI. Segundo familiares, ao invés de ir para a UTI, ele foi para a enfermaria. E o quadro dele piorou. - "O senhor, tá bem? Tá sendo tratado bem?" - "Bem, bem eu não to não, que eu to aqui", responde. A filha dele, que prefere não se identificar por temer represálias, conta como é o atendimento prestado ao pai. "Eu lembro bem que, quando eu fui pegar o boletim do meu pai, o médico falou que ele ia permanecer na sala vermelha e que, a qualquer momento, ele poderia ir para a UTI. Eu ainda confirmei: doutor, ele vai para a UTI ainda? E ele foi bem claro: sim, ele vai, porque o quadro que ele entrou, de infarto, ele tem que ir para a UTI, é obrigatório ele ir para a UTI". Ela revela que quando chegou em casa, no mesmo dia, recebeu a ligação de uma assistente social informando que o pai seria transferido para a enfermaria. Desde então, 21 dias já se passaram. A falta de cuidados, segundo a filha, também prejudicou o pé do pai, que será amputado. "Ele começou a piorar, o pé dele, que era só uma raspagem, né, que era para fazer. Hoje em dia, o pé dele não tem mais como salvar , entendeu? Eles deixaram o pé do meu pai chegar nessa questão que está, porque eles, tipo assim, o meu pai não estava tendo tratamento nenhum na enfermaria", disse. Por falta de leitos, pacientes ficam nos corredores do Complexo Hospitalar Sul. Rede Amazônica No Instituto da Mulher Dona Lindu, que faz parte do Complexo Hospitalar, uma mulher identificada como Elaine Bentes Nogueira está com fortes dores porque perdeu o bebê de oito semanas. E, no vídeo gravado pela família na semana passada, ela estava há dois dias esperando pela equipe médica para retirar o feto. A mãe dela, que preferiu não se identificar, deu mais detalhes sobre o que aconteceu com a filha. "Então, o médico, o enfermeiro, sempre falava que sempre tinha casos mais graves que o da minha filha pra ir pra lá. Mulheres que chegavam já em trabalho de parto, outras que já chegavam já com bebê de 6 a 8 meses no útero já pra fazer, já falecido, né". Na semana passada, a família de Elaine prestou queixa no Ministério Público para que ela recebesse o atendimento necessário no hospital. Depois da reclamação, o feto foi retirado e Elaine recebeu alta. "Eu acho que foi um descaso, não só comigo, não falo só por mim, falo pelas outras pessoas que estavam lá também, entendeu. Mas comigo, com a minha filha, foi um descaso, porque se foi uma coisa rápida, de 3 horas, 4 horas só de procedimento, por que que deixaram a minha filha ficar esperando esse tempo todo? Ela entrou na terça-feira à tarde, e saiu na quinta-feira de manhã, entendeu?" Mulher aguardou por dois dias atendimento para retirar feto. Reprodução/Redes Sociais A Organização Social Agir Saúde assumiu a gestão do Complexo Hospitalar 28 de Agosto em dezembro de 2024. Por um contrato de cinco anos, o Governo do Amazonas se comprometeu a pagar R$ 2 bilhões. Em 2026, a 'OS' deve receber cerca de R$ 400 milhões, desses 260 já foram pagos. Com a nova gestão, o Governo do Estado anunciou que o hospital iria oferecer mais recursos e estrutura para a população. Quem está lá, tem outra conclusão. "E quando o pessoal fala, assim, que é um hospital matadouro, ninguém tá mentindo, entendeu? Porque realmente é, e eu tô sendo prova viva disso, porque eu tô vendo o meu pai morrer. O meu pai, ele não entrou tão ruim como ele tá agora, entendeu? E eu tô vendo o meu pai, a cada dia, se despedir da gente por culpa deles". O que diz o governo Em nota, o Governo do Amazonas informou que os dois pacientes citados na reportagem receberam acompanhamento contínuo das equipes de saúde. O governo também negou que o procedimento realizado em Elaine tenha ocorrido por intervenção do Ministério Público. Sobre as imagens do hospital, o Complexo Hospitalar 28 de Agosto informou que os locais mostrados fazem parte do fluxo do pronto-socorro e não são áreas de internação.
