‘Nunca vivi de máscara’: primeira PM trans de MG conta sua história dentro e fora da corporação
<img src="https://s2-g1.glbimg.com/ubXfhuRq565aMji9PPkbsU-ofTk=/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/N/9/UBLYCDQtquSVnPRE8SNA/design-sem-nome-3-.png" /><br /> Primeira PM trans de MG se aposenta após 31 anos de serviço Antes de vestir a farda da Polícia Militar (PM) e construir uma carreira de 31 anos em Uberlândia, no Triângulo Mineiro, a subtenente Juliana Vittoria Gonçalves da Silva precisou enfrentar uma batalha mais intensa do que qualquer treinamento militar: entender quem era. Aos 4 anos, ela percebeu que o corpo que tinha não correspondia à forma como se percebia. Perguntou-se por que era diferente. A resposta que recebeu atravessaria sua vida. “Me disseram que eu era menino”, lembrou. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Triângulo no WhatsApp A partir dali, segundo Juliana, começou um sofrimento que duraria décadas. Aos 49 anos, iniciou a transição de gênero e, pela primeira vez, passou a viver publicamente como a mulher que sempre sentiu ser. Hoje, aos 52 anos e já na reserva da Polícia Militar, ela consegue olhar para a própria história com outra perspectiva. “Quando você é mais velha, está mais madura, você também entende que é possível, você tem ainda motivo para continuar a lutar, a viver. Muitos acham que está velho talvez, mas não”, afirmou. Juliana conta que desde criança percebeu que não era um menino Reprodução/TV Integração ‘Eu sempre identifiquei como figura feminina’ Juliana conta que, desde pequena, percebia diferenças entre meninos e meninas, embora ainda não tivesse compreensão sobre identidade de gênero. A percepção de que era diferente ainda na infância foi, aos poucos, se transformando em um sentimento que, na época, Juliana ainda não tinha palavras para explicar. Ao crescer, a jovem tampouco tinha referências que pudessem ajudá-la a compreender a própria identidade. “Essa trajetória foi longa. Com isso a gente desenvolve depressão, ansiedade. Porque a sensação, eu falo que é uma das piores torturas: você está num corpo que você não se identifica. A mente é de um jeito e o corpo vem de outro.” ‘A gente apanhava para virar homem’ A infância de Juliana aconteceu em uma época em que as expectativas sobre meninos e meninas eram definidas e rígidas. “Naquela época a gente apanhava para virar homem. Desde criança, o meu pai, meio machista, já falava: ‘Quando você crescer, você vai pegar as meninas, vai fazer isso, fazer aquilo’. Eu ficava em silêncio, não respondia”, relembrou. Juliana tentou se adaptar. Jogava futebol, brincava com meninos e meninas. Mas havia momentos em que precisava esconder aquilo que lhe fazia feliz. “Quando eu ia brincar de boneca eu brincava escondida porque eu não podia ser vista. No Natal era uma tortura porque minha irmã ganhava boneca e eu ganhava carrinho.” Aos cerca de 7 anos, ela tentou convencer a si mesma de que aquilo era apenas uma fase e que, com a chegada da adolescência, tudo mudaria. Mas os 15 anos chegaram e nada mudou. “Só piorou mais ainda porque as características masculinas foram aparecendo, as cobranças do meio social também aumentando, então ficou uma pressão muito grande.” O pedido para mudar de corpo Sem entender completamente o que estava acontecendo, Juliana buscou na fé a esperança de um milagre e até recorreu a superstições. “Eu lembro que falava que passar embaixo do arco-íris a gente mudava de sexo. Então quando eu via arco-íris eu ficava louca atrás de um arco-íris só passando para ver se era possível esse milagre acontecer.” Anos mais tarde, Juliana olha para trás e consegue enxergar o processo pelo qual passou com outros olhos. “Eu acho que eu tive que passar por toda essa situação para me tornar a pessoa que eu me tornei. Deus ouviu as minhas orações agora, depois de 50 anos”, completou. LEIA TAMBÉM: Kylie Kaos: Drag cantora de Uberlândia conquista o público com sua voz e lota boates Barriga de aluguel ajuda casal gay a realizar sonho de filhos biológicos Ex-vereadora faz comentários transfóbicos em rede social e é condenada a pagar R$ 5 mil para mulher trans em MG A farda como armadura Aos 21 anos, Juliana entrou para a Polícia Militar. De família pobre, viu na corporação a oportunidade de construir uma vida diferente daquela que conhecia. Antes disso, trabalhava capinando quintais, lavando carros e descarregando caminhões de tijolos. O ambiente militar, predominantemente masculino, trouxe novos desafios. Juliana conta que precisou aprender a sobreviver em uma instituição na qual ainda não conseguia se apresentar integralmente como era. “Eu tive que me organizar, eu tive que me adequar à realidade da instituição. E eu sempre busquei ter postura e compostura. Então, a partir do momento que eu colocava a farda, é como se eu incorporasse aquele personagem masculino.” Na condição de militar e, depois, de comandante, ela precisava transmitir segurança aos subordinados. Juliana se esforçou e precisou provar para si mesma que era capaz. “Eu tive que me desdobrar mais. Eu tive que apresentar mais desempenho. Eu tive que mostrar para a Polícia Militar que eu era capaz tanto quanto os outros. Só que nesse provar para a instituição a minha estrutura emocional foi se comprometendo cada vez mais.” ‘Cheguei muito perto da loucura’ Em um dos episódios que mais a marcaram, ainda durante o curso de formação, Juliana caminhava entre militares quando ouviu uma frase que não esqueceu. “Um militar me falou assim: ‘Nossa, isso é um lixo na Polícia Militar’.” Ela decidiu permanecer, apesar da pressão. Por volta de 2010, enquanto fazia faculdade e conciliava os estudos com o trabalho, Juliana chegou ao limite. “Eu acho que eu cheguei muito perto da loucura.” A saúde mental ficou profundamente comprometida. Ela procurou psicólogo e psiquiatra e precisou de medicamentos. “Cheguei a um ponto que eu chegava em casa, só deitava, levantava no outro dia, não ligava a televisão, não abria a janela. Era sempre no escuro. Mas eu nunca deixei transparecer. Eu chegava no quartel plena de uma forma que ninguém percebesse.” Aos 49, Juliana decidiu existir por inteiro Juliana iniciou a transição aos 49 anos Reprodução/Redes Sociais Durante décadas, o medo de ser excluída da corporação fez com que Juliana adiasse a transição. Ela esperou completar sua trajetória profissional e garantir seus direitos antes de se apresentar ao mundo como mulher. “Meu maior medo era de ser excluída. Então o que eu fiz? Eu tive que me organizar, me programar para que isso acontecesse. Para que eu me apresentasse ao mundo.” Quando entendeu que sua carreira estava consolidada, tomou a decisão. Aos 49 anos, Juliana iniciou a transição. O primeiro dia de trabalho como mulher foi cercado de medo, mas encontrou acolhimento. “Por incrível que pareça, eu tive uma recepção maravilhosa. As pessoas, militares na seção na qual eu trabalhava, são pessoas extremamente humanizadas, foram muito prestativas, me acolheram com muito amor.” ‘Eu nunca vivi de máscara’ A transição não foi, para Juliana, o começo de uma nova pessoa. Foi a possibilidade de finalmente deixar aparecer aquela que sempre esteve ali. “Eu sempre busquei ser senhora do meu próprio destino. Eu nunca deixei ninguém escrever minha história. Eu sempre busquei ser eu de fato.” Aos 52 anos, olha para trás sem esconder as cicatrizes, mas também sem permitir que elas definam o futuro. “Eu nunca vivi de máscara. Por mais que as pessoas me atacavam, eu ia para cima e não recuava.” Juliana sabe que começar uma transição aos 49 anos significa enfrentar mudanças que poderiam ter sido diferentes se tivessem acontecido mais cedo. Mas, para ela, a possibilidade de viver de acordo com quem é valeu a espera. “Eu acho que todo mundo tem que... O meu maior medo é chegar aos meus 60, 70 anos e olhar para trás e dizer: podia ter feito e não fiz.” Aos 52 anos, Juliana vê uma diferença fundamental entre a menina que escondia a boneca para não ser vista e a mulher que hoje se apresenta ao mundo sem medo de dizer seu nome. Juliana escolheu não se esconder mais e resume a própria trajetória com uma frase que carrega tanto a disciplina dos 31 anos de Polícia Militar quanto a coragem necessária para enfrentar a própria vida. “Tudo na vida é luta", finalizou. Subtenente Juliana Vittoria anuncia aposentadoria Reprodução/Redes Sociais VÍDEOS: veja tudo sobre o Triângulo, Alto Paranaíba e Noroeste de Minas
