Futuro de refúgio de Hitler incendiado gera debate na Alemanha sobre o passado nazista
Ninho da Águia, casa que está no centro de debate sobre o passado nazista da Alemanha AFP via Getty Images/BBC Situadas no alto de uma montanha na paisagem espetacular dos Alpes alemães, encontram-se as ruínas carbonizadas de uma casa de montanha chamada Ninho da Águia, que agora está no centro de um intenso debate sobre o passado nazista da Alemanha. Conhecido em alemão como Kehlsteinhaus, o retiro foi construído pelos nazistas em 1938 e frequentado por Adolf Hitler e outros nazistas de alta patente, bem como seus convidados. Após a Segunda Guerra Mundial, foi classificado como monumento histórico que relembra a era nazista. No mês passado, o local foi devastado por um incêndio, possivelmente criminoso. Alguns acreditam que deveria ser completamente destruído, devolvido à natureza e toda a memória de seu passado nazista esquecida. Mas outros querem que seja reconstruído parcial ou totalmente, receosos do risco de transformá-lo num local de peregrinação neonazista em um momento em que a Alemanha assiste ao ressurgimento da extrema-direita. Agora no g1 A Alemanha tem uma "responsabilidade permanente de comunicar e lidar com o nosso passado nazista", afirmou Isabel Heinemann, professora de história contemporânea da Universidade Ludwig-Maximilians de Munique (LMU). Mas, segundo ela, reconstruir o local completamente significaria reinstalar uma "arquitetura altamente ideologizada ou com forte viés ideológico". Antes de ser destruído por um incêndio na noite de 23 de outubro, o Ninho da Águia era uma atração turística popular, pertencente ao Estado da Baviera e funcionando como restaurante há muitos anos. Os visitantes pegavam um ônibus e depois subiam no elevador original, com painéis de latão e espelhos, que atravessava a montanha até a Kehlsteinhaus para apreciar as vistas magníficas acima da cidade de Berchtesgaden. Uma vez lá, eles podiam comer salsichas no jardim a 1.834 metros acima do nível do mar, com vista para os Alpes. Ao contrário da residência de verão de Hitler nas proximidades, o Berghof, que foi bombardeado na Segunda Guerra Mundial e demolido em 1952, o Ninho da Águia sobreviveu à guerra. Dezenas de milhares de turistas visitavam a região a cada temporada, proporcionando uma importante fonte de renda para a comunidade. Na década de 1990, em meio a preocupações de que o local não fazia o suficiente para confrontar os crimes do passado nazista, um museu, o Centro de Documentação de Obersalzberg, foi inaugurado nas proximidades. Antes de ser destruída por um incêndio, a Kehlsteinhaus, ou Ninho da Águia, era há muito tempo um destino turístico na Baviera Universal Images Group via Getty Images/BBC Há cerca de 15 anos, foi inaugurada uma exposição fotográfica na Kehlsteinhaus sobre a sua história. Embora o Ninho da Águia em si tenha sido "em grande parte destruído" pelo incêndio, de acordo com a polícia, o centro de documentação saiu ileso. As autoridades não comentaram sobre um possível motivo, mas um homem de 33 anos com histórico de doença mental foi detido em um hospital psiquiátrico de segurança máxima sob suspeita de incêndio criminoso. Alguns acreditam que este é o momento de deixar o local cair no esquecimento. "Já foi incendiado. Foi destruído. Acho que deveriam simplesmente remover os escombros e deixar a montanha como deveria ser, em seu estado natural", disse o professor Sir Richard J. Evans, especialista em Alemanha nazista da Universidade de Cambridge. Isso já aconteceu com "vários outros locais nazistas", argumentou ele, incluindo o bunker em Berlim onde Hitler se matou: "O bunker foi preenchido com concreto e um parque infantil foi construído em cima dele, no nível do solo." A Kehlsteinhaus era apenas "um projeto de vaidade nazista", posteriormente romantizado com o nome de Ninho da Águia, disse ele. A polícia afirma que o antigo refúgio nazista foi praticamente destruído pelo incêndio do mês passado Reuters/BBC Mas as autoridades da Baviera têm uma visão diferente sobre o futuro do local. Tanto o ministro do Interior do Estado, Joachim Herrmann, quanto o ministro das Artes, Markus Blume, manifestaram-se a favor da reconstrução da Kehlsteinhaus. "Não podemos deixar uma ruína ali de pé", disse Herrmann. Sven Keller, chefe do Centro de Documentação de Obersalzberg, acredita que é importante não deixar o local em ruínas, pois isso poderia encorajar peregrinos neonazistas, que poderiam subir até lá sem serem incomodados. "Temos bastante experiência em Obersalzberg com o que acontece quando demolimos esses locais. O Berghof de Hitler [outra casa de férias do ditador] foi demolido na década de 1950 e, segundo nossa experiência, isso não apaga esses locais da memória coletiva das pessoas", disse ele ao programa Today da BBC. Ele também não acredita que seja possível uma "reconstrução idêntica" do local, e Blume deixou claro na rádio bávara que "isso não deve e não pode custar nada ao contribuinte". Herrmann afirmou que buscariam uma solução sensata em consulta com historiadores, dadas as circunstâncias historicamente complexas que envolvem o edifício. Heinemann, que também dirige o Instituto Leibniz de História Contemporânea, acredita que uma reconstrução completa deveria estar "fora de questão". "Acho que podemos documentar o estado em que o incêndio deixou a construção, bem como os vestígios históricos da Kehlsteinhaus, e depois reconstruir partes dela com um design moderno, para deixar claras as diferentes camadas de tempo que podem ser vistas neste edifício", disse ela à BBC. A Alemanha e a Áustria têm lutado há muito tempo para lidar com o legado problemático de edifícios e locais ligados à era nazista. Com a ascensão recente da extrema-direita do AfD e do Partido da Liberdade da Áustria, o debate sobre a Erinnerungskultur (Cultura da Memória) ganhou uma nova urgência. Recentemente, surgiu uma polêmica na Alemanha quando vereadores do partido AfD e da conservadora CDU, em uma cidade da Saxônia, decidiram proibir os memoriais chamados "pedras de tropeço" — pequenas placas de bronze embutidas nas ruas — em homenagem às vítimas dos nazistas. Na Áustria, durante o verão, uma delegacia de polícia foi inaugurada na casa onde Hitler nasceu, em Braunau am Inn. A medida foi tomada após anos de controvérsia sobre como a casa deveria ser utilizada. O governo austríaco afirmou que a presença policial ajudaria a impedir a peregrinação de neonazistas. Mas outros queriam que a casa se tornasse um centro de responsabilidade, confrontando ativamente o passado nazista. Como me disse um morador de Braunau am Inn, trata-se de um equilíbrio delicado entre o quanto lembrar e o quanto esquecer. Usamos inteligência artificial para traduzir esta reportagem, originalmente escrita em inglês. O texto foi revisado por um jornalista da BBC antes da publicação. Saiba mais aqui sobre como a BBC está usando a inteligência artificial (link para texto em inglês).
