Pai de santo é preso na Zona Sul de SP acusado de assédio contra homens em rituais de Umbanda; veja relatos
Ailton Ribeiro da Silva, de 64 anos, é pai de santo e comanda o Templo Espírita de Umbanda Caboclo Tatuy de Oxóssi, no bairro Jardim Ipê, região do Capão Redondo, em São Paulo. Reprodução/Redes Sociais A Polícia Civil de São Paulo prendeu nesta quinta-feira (5) um pai de santo acusado de assédio sexual contra fiéis de um centro espírita do Capão Redondo, na Zona Sul de São Paulo. Ailton Ribeiro da Silva, de 64 anos, é acusado por vários frequentadores da casa de assédio sexual durante rituais de Umbanda. As vítimas registraram queixa contra ele em várias delegacias de São Paulo no último mês. Ailton vinha sendo investigado inclusive por assediar menores de idade. A defesa do religioso informou ao g1 que vai se posicionar sobre as acusações "somente nos autos do processo". O pai de santo era líder do Templo Espírita de Umbanda Caboclo Tatuy de Oxóssi, no bairro Jardim Ipê, um templo muito respeitado e que tem filiais em várias cidades e até fora do Brasil, como no Uruguai. Segundo vítimas ouvidas pelo g1 antes da prisão do sacerdote, ele aproveitava os rituais individuais para tocar nas partes íntimas dos chamados ‘filhos de santo’ enquanto estava supostamente incorporado. Pai de santo é preso em São Paulo acusado de abusar de homens em cerimônias religiosas Reprodução TV Globo Uma das vítimas é o pai de dois jovens adolescentes que moravam na região. Como os rapazes são menores de idade, a identidade deles será mantida em sigilo. Eles registram boletim de ocorrência na 6ª Delegacia da Mulher (DDM) de Santo Amaro, no dia 13 de outubro. No relato, o pai dos meninos contou que ele mesmo foi vítima do assédio de Ailton. Na ocasião, o pai de santo teria incorporado uma entidade e levou o pai dos jovens para um quarto reservado, onde o pai de santo começou a passar a mão nas partes íntimas dele. Os toques se deram por cima da roupa e ambos estavam vestidos. Ao questionar Ailton sobre o que estava acontecendo, a entidade teria respondido que o ato “fazia parte do trabalho espiritual”. Um dos filhos do depoente, na época com 14 anos e atualmente com 16 anos, também narrou no último mês de agosto ter passado pelo mesmo problema. O jovem largou a religião e mudou para Pernambuco com a mãe. Só depois de vários meses da mudança teve coragem de contar para a mãe que Ailton tentava beijá-lo, passava mão em suas partes íntimas e a língua na sua orelha durante as chamadas ‘incorporações’. “Como existe um acordo de confidencialidade sobre a relação das pessoas dentro dos rituais com as entidades espíritas, os meninos não relataram isso de cara. Quando fiquei sabendo pela mãe do meu filho mais velho, questionei o mais novo que também frequentava o centro e ele confirmou que também sofria esse tipo de coisa”, contou o pai. O Templo Espírita de Umbanda comandado por Ailton Ribeiro da Silva, de 64 anos. Reprodução/Redes Sociais O caçula, também de 14 anos à época – atualmente com 15 anos - contou ao pai que sofria o mesmo tipo de assédio do irmão, mas não se sentia a vontade para contar porque não sabia se se tratava de fato de um ritual espírita. O jovem relatou, inclusive, que numa das vezes, em um terreiro que Ailton Ribeiro tinha em Itapecerica da Serra, o pai de santo o convidou para dormir numa cama com ele, mas o menino se recusou. O adolescente de 14 anos disse que chegou a levar uma faca escondida no bolso para o trabalho espiritual, a fim de se defender das investidas do pai de santo, que aconteceram várias vezes. “Me sinto enganado. O Ailton usou da minha fé para cometer abusos contra mim e os meus filhos. É uma situação que a gente não consegue nem descrever. Porque a gente acredita na religião e na boa fé dos sacerdotes. Mas quando eles usam sua influência e seu poder espiritual para fazer esse tipo de coisa, é nojento, é hediondo, é sujo e rasteiro”, disse o pai ao g1. Já em posse dos relatos dos filhos e da própria experiência, o pai dos adolescentes começou a comentar com outros frequentadores da casa e descobriu na verdade uma rede de assédios que eram silenciados. “Há pessoas que hoje são maiores, mas que também foram assediados quando menores e deixaram a religião por conta do assédio do Ailton. No fim das incorporações ele era questionado e dizia que não sabia de nada”, afirmou. Dez vítimas já registradas Ailton Ribeiro da Silva, de 64 anos, é pai de santo e comanda o Templo Espírita de Umbanda Caboclo Tatuy de Oxóssi, no bairro Jardim Ipê, região do Capão Redondo, em São Paulo. Reprodução/Redes Sociais No total, dez vítimas já registraram boletins de ocorrência contra Ailton Ribeiro. O que levou o delegado Antonio Giovanni, do 37° Distrito Policial (Campo Limpo), pedir a prisão temporária do pai de santo à Justiça. Giovanni afirma que o pai de santo é apontado por ter cometido diversos crimes sexuais. “Ele está sendo investigado por estupro de vulnerável por ter realizado esses atos com uma pessoa à época tinha 13 anos de idade, outra de 14, que também teria relatado que já vinha sendo abusada. Temos também a violação sexual mediante fraude, que é quando um ato sexual é realizado com um adulto que a princípio poderia consentir ao ato sexual, porém, ele é induzido a um erro. Ele consente ao ato sexual sobre um contexto fraudulento, que nesse caso seria o o a desculpa religiosa”, diz. O delegado também diz que, em alguns casos, ainda houve importunação sexual, quando o ato acontece contra a vontade da pessoa. Foi decretada a prisão temporária do pai de santo por 30 dias. A polícia também cumpriu mandados de busca e apreensão em diversos endereços ligados ao investigado para coleta de documentos e equipamentos que possam ajudar na investigação. A expectativa é que, com a divulgação do caso, novas vítimas apareçam e se encorajem a dar seu depoimento à Justiça, segundo uma outra vítima que conversou com a reportagem. O rapaz de 34 anos era ‘mentor’ dos jovens que estavam começando na Umbanda dentro do templo presidido por Ailton. Ele conta que, em 2025, num dos rituais, foi levado para uma sala isolada do local e, enquanto estava em meditação, sentiu o pai de santo esfregar o corpo nele, passar a língua na sua orelha e pegar em suas partes íntimas. “Eu achava que era uma situação isolada que só tinha acontecido comigo. Mas um dos meus alunos me contou que ele também tinha passado por isso e me acendeu o sinal de alerta. Comecei a perguntar para outros rapazes e cheguei ao pai dos dois menores. E aí a situação ficou clara que se tratava de uma conduta comum”, afirmou o cientista de dados ao g1. O ‘mestre’ dos mais jovens disse que chegou a falar duas vezes com Ailton no telefone anunciado o motivo da sua saída e dos demais do templo e ele apenas lamentou. “No telefone ele me disse que não se lembrava de nada, mas que lamentava o que tinha acontecido comigo, que tava chateado. Chegou a falar que também passou por esse tipo de assédio lá atrás, em 1980, quando estava iniciando, mas que era comum na religião”, contou. “Quando narrei que outras vítimas também tinham narrado o mesmo, ele disse que precisava se recompor e me procuraria para explicar o tinha acontecido, mas nunca mais nos falamos”, declarou. “Como o templo funciona há cerca de 30 anos, a gente acha que mais pessoas vão aparecer e tomar coragem de denunciar, após a prisão dele”, completou.
