Crise no Paraguai: Senado começa a analisar impeachment contra o presidente Santiago Peña
Presidente do Paraguai renuncia ao cargo; veja íntegra do comunicado O Senado do Paraguai retomou a sessão nesta quinta-feira (5) para analisar o processo de impeachment contra o presidente Santiago Peña.O país vive uma profunda crise política após vir a tona um escândalo envolvendo a quebra do banco ueno, que deixou milhões de clientes sem acesso a seus depósitos. Esta reportagem está em atualização. Mais cedo, a sessão que decidiria sobre a renúncia do presidente foi interrompida. A votação foi suspensa depois que parlamentares do Partido Colorado, partido de Peña, deixaram o plenário, derrubando assim o quórum necessário para a continuidade da sessão. Com isso, a renúncia não foi aceita, e Peña continua no cargo. Senadores disseram à TV paraguaia ABC Color que a sessão será retomada na sexta-feira (5), já com a pauta do impeachment. A saída dos parlamentares ocorreu após um longo debate entre governistas e oposicionistas sobre o futuro do presidente. Quando perceberam que não tinham votos suficientes para aprovar a renúncia, os integrantes da base governista abandonaram a sessão, que acabou encerrada. Veja, abaixo, a cronologia da crise no país vizinho: Na manhã desta quinta (5), o Congresso do Paraguai deu os primeiros passos para votar um impeachment contra Santiago Peña, e contra seu vice, Pedro Alliana; Horas depois, Peña apresentou uma carta de renúncia; A Câmara do Paraguai, no entanto, não aceitou a renúncia e decidiu dar seguimento do processo de impeachment contra Peña - a votação foi unânime; Já o processo de impeachment contra o vice, Pedro Alliana, foi rejeitado. A decisão abriu caminho para Alliana assumir a presidência do país. Durante a tarde, o Senado abriu uma sessão para julgar o pedido de renúncia do presidente Peña, mas a sessão foi suspensa por falta de quórum. Com isso, o presidente continua no cargo. Segundo senadores presentes na sessão, o Senado deve retomar na sexta-feira (6) a análise do processo de impeachment contra Peña. Em carta publicada na noite desta quinta, Peña disse que vai se apresentar para fazer sua defesa no processo do impeachment. Renúncia x pedido de impeachment No início da tarde, a Câmara dos Deputados aprovou por unanimidade, com 78 votos, a abertura do processo de impeachment contra Santiago Peña. Na sessão conjunta do Congresso, porém, foi colocada em votação o pedido de renúncia do presidente. A oposição defendia que o Congresso rejeitasse a renúncia e desse continuidade ao impeachment. Os parlamentares argumentavam que a saída voluntária permitiria a Peña assumir uma vaga de senador vitalício, com direito a foro privilegiado. ➡️ No Paraguai, ex-presidentes que concluíram seus mandatos ou renunciaram ao cargo ganham o título de senador vitalício, o que lhe garante imunidade parlamentar pelo restante da vida. O senador de oposição Líder Amarilla alegou que aceitar a renúncia poderia impedir que o presidente respondesse a eventuais acusações na Justiça. "Se aceitarmos esta renúncia, o que estamos fazendo é permitir que Santiago Peña obtenha foro parlamentar e que todo o dinheiro que foi roubado fique impune, porque a Promotoria não poderá apresentar acusações contra ele", disse Amarilla, em entrevista ao ABC Color. Já os governistas sustentavam que aceitar a saída do presidente seria a maneira mais rápida de encerrar a crise política e permitir a transferência de poder ao vice-presidente, Pedro Alliana. O grupo também afirmava que o Senado poderia analisar um eventual pedido de retirada do foro de Peña, caso a Promotoria solicitasse a medida. Próximos passos Com a interrupção da sessão, a renúncia de Peña continua sem uma decisão formal do Congresso. O processo de impeachment, aprovado pela Câmara dos Deputados mais cedo, permanece em aberto e deverá seguir para análise do Senado, responsável pelo julgamento do presidente. Entenda os últimos acontecimento da crise Segundo Ariel Palacios, comentarista da GloboNews e especialista em América Latina, Peña tentou se blindar e manter seu foro privilegiado ao anunciar sua decisão de renunciar. Isso porque, pela Constituição do Paraguai, ao deixar o cargo, os ex-presidentes da República viram senadores vitalícios. A manobra, no entanto, foi frustrada quando a Câmara deu seguimento à abertura do impeachment. A Carta constitucional estabelece que o ex-presidente perde essa prerrogativa se tiver sido submetido a julgamento político e for considerado culpado. Opositores advertiram que aceitar a renúncia permitiria a Peña ter uma blindagem parlamentar, impedindo que fosse julgado pela Justiça comum pelas suspeitas de crimes relacionados à crise do banco ueno. 👉 A Constituição paraguaia estabelece que é prerrogativa do Congresso aceitar ou rejeitar a renúncia do presidente da República e a do vice-presidente. O pedido de renúncia de Peña Santiago Penã apresentou sua carta de renúncia em um vídeo, em que se desculpou com a população que perdeu o acesso ao próprio dinheiro e disse que decidiu renunciar "pensando na estabilidade do nosso país, na paz social e na necessidade de preservar nossas instituições democráticas". "Estou convencido de que nenhum cargo pode estar acima do bem-estar do Paraguai. Também quero pedir desculpas ao povo. Se em algum momento falhei, nunca foi minha intenção decepcionar a confiança que depositaram em mim", disse. ➡️ Santiago Peña é alvo de críticas por conta da crise bancária que começou após o banco digital ueno fechar as portas e deixar milhares de clientes sem acesso ao próprio dinheiro. Peña foi acionista do grupo que controla a instituição, e a oposição acusa o Banco Central paraguaio de encobrir irregularidades (leia mais abaixo). Santiago Peña, economista e ex-ministro da Fazenda durante o governo de Cartes, é o atual candidato presidencial do Colorado REUTERS Acusação contra Peña Clientes do banco ueno fazem protesto em Assunção, no Paraguai, em 5 de novembro de 2026. Daniel Duarte/ AFP A oposição acusa Peña de conflito de interesses, manipulação de regras e desvio de recursos previdenciários, entre outros pontos. A acusação também aponta que o Banco Central paraguaio teria encoberto irregularidades. “Nunca antes alguém prejudicou, em um único dia, 3 milhões de pessoas na República do Paraguai, e o senhor conseguiu isso, senhor presidente... o senhor é a origem desse monstro que criou”, disse a deputada de oposição Rocío Vallejo durante a sessão, pouco antes da apresentação do pedido. A acusação foi apresentada por 35 deputados, que pediram ao presidente da Câmara a convocação da sessão extraordinária. Penã foi acionista do grupo dono do banco Deputado da oposição no Paraguai segura cartaz em ato que pede impeachment do presidente Santiago Peña após fechamento de banco virtual que gerou crise bancária no país, em 5 de novembro de 2026. Cesar Olmedo/ Reuters 👉 Peña, que também é economista, foi acionista do grupo proprietário do ueno até março do ano passado. O banco tinha cerca de 3 milhões de clientes e concentrava aproximadamente US$ 850 milhões em depósitos públicos, incluindo recursos do Instituto de Previdência Social. O ueno, que pertence ao Grupo Vázquez, fechou as portas na terça-feira (3), depois que o Banco Central iniciou sua liquidação. A autoridade monetária identificou uma insuficiência de recursos para cobrir as obrigações do banco, relacionada a empréstimos concedidos a empresas vinculadas à instituição. Em uma publicação em suas redes sociais, o presidente paraguaio afirmou que os responsáveis pelas irregularidades responderão à Justiça, sem exceções. A declaração foi feita pouco antes de que ele promulgasse uma lei que permitirá aos clientes do ueno recuperar seu dinheiro mais rapidamente. “Peço veementemente a todos os setores políticos que coloquem o interesse dos poupadores acima de qualquer outro interesse”, afirmou. Executivos do ueno se entregaram às autoridades após a emissão de mandados de prisão pela Procuradoria, que também acusou formalmente 27 pessoas ligadas ao banco. A Justiça ordenou ainda o bloqueio dos bens dos acusados. Nesta quarta-feira, também circularam relatos de falhas em aplicativos de outros bancos, o que aumentou a preocupação com o sistema financeiro do país. A Associação de Bancos do Paraguai (Asoban) informou que as instituições financeiras trabalhavam para atender ao grande volume de clientes que estavam transferindo suas contas do ueno. A entidade ressaltou que o sistema bancário continuava “operando normalmente”. Pessoas fazem fila para tentar retirar dinheiro em banco em Assunção, no Paraguai, diante de temor gerado por crise bancária no país, em 3 de novembro de 2026. Daniel Duarte/ AFP
