Brasileiro eleito na Flórida critica abrigo a Flávio Bolsonaro e diz se espelhar em Erika Hilton
Felipe Sousa-Lazaballet Divulgação Felipe Sousa-Lazaballet, 40 anos, gargalhou quando soube que virou meme por ser de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Eleito deputado estadual na Flórida, nos Estados Unidos, ele será o primeiro brasileiro a integrar o legislativo do Estado. Na internet, algumas pessoas pareceram surpresas. "Imigrante eleito, eu acredito. Agora, de Duque de Caxias?", brincavam os memes. Nas eleições de terça-feira (3/11), Sousa-Lazaballet venceu a disputa pelo Distrito 42, na região metropolitana de Orlando, em um Estado de maioria republicana, e integra um grupo de sete brasileiros, todos democratas, eleitos deputados estaduais em três Estados americanos. Ele foi a preferência de 49.752 eleitores, o equivalente a 62,41% dos votos. Filho de uma empregada doméstica cearense, o democrata saiu do Brasil aos 14 anos e viveu mais de uma década sem documentos nos EUA, período em que relata ter tido várias portas fechadas por conta de sua situação irregular. Ainda assim, conseguiu cursar Relações Internacionais no Miami Dade College, que aceitava inscrições de pessoas sem documento à época. Foi somente em 2021 que conseguiu obter a cidadania americana, quando pôde atuar na política institucional. Antes disso, participou da marcha que saiu a pé da Flórida até Washington, em 2010, para pedir a legalização dos chamados dreamers, imigrantes levados aos EUA ainda crianças. Foi depois dessa mobilização, aos 26 anos, que ele teve permissão para trabalhar. Ele cumpria os critérios do DACA, um programa federal criado durante o governo de Barack Obama para oferecer proteção temporária contra a deportação de imigrantes de até 31 anos e que haviam entrado nos EUA antes dos 16. Em entrevista à BBC News Brasil, ele atribuiu sua vitória ao "corpo a corpo" da campanha, mas também ao desgaste com as políticas do presidente Donald Trump. O deputado estadual eleito critica fortemente a atuação do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês). Segundo ele, escolas públicas do condado de Orange perderam milhares de alunos, filhos de imigrantes, por deportações ou medo. Ele também criticou o abrigo dado pelo governo americano ao candidato derrotado nas eleições presidenciais brasileiras, Flávio Bolsonaro (PL), na Flórida. O senador está no país desde 28 de outubro. "Não faz sentido nenhum para mim aceitar um político fugido do Brasil", diz. "Os EUA não deveriam interferir e, enquanto isso, estão deportando empregada doméstica que nunca cometeu nenhum crime." Para o deputado eleito, os brasileiros que chegam a cargos públicos nos EUA podem ser "uma ponte econômica, social e cultural" entre os dois países, cujas relações se tornaram tensas entre o governo Trump e o de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Na Assembleia da Flórida, o democrata diz que vai levar uma pauta focada na "melhoria da vida das pessoas" que moram no Estado, batizada de Prosperando Juntos. Ele descreve sua atuação com uma agenda em cinco frentes: moradia acessível, educação pública, saúde, meio ambiente e direitos civis. Na moradia, promete defender o direito dos inquilinos e enfrentar as seguradoras de imóveis. Citando as mudanças climáticas, ele também promete atuar para aumentar o investimento em infraestrutura contra enchentes causadas por furacões e outros eventos extremos. Por fim, ele, que será o primeiro imigrante que se declara gay a ocupar o cargo, diz que vai lutar pelos direitos de mulheres, pessoas negras e da comunidade LGBT+. Confira abaixo trechos da entrevista de Sousa-Lazaballet à BBC News Brasil. BBC News Brasil – Você vai ser o primeiro deputado estadual brasileiro na Flórida e o primeiro imigrante que se declara gay também no cargo. O que significa essa vitória para você e também para a comunidade brasileira? Felipe Sousa-Lazaballet – Eu saí do Brasil quando eu tinha 14 anos de idade. Eu sempre fui de família muito humilde. E, quando cheguei aqui, fui indocumentado por 15 anos na minha vida. Ou seja, eu sei exatamente o que significa batalhar, trabalhar e, às vezes, me sentir muito mais marginalizado. Então, essa vitória não é só para mim, ou até mesmo, mais até do que a comunidade brasileira ou a comunidade LGBT, mas é uma vitória para a classe trabalhadora. Pessoas que chegaram do nada, que constroem uma vida passo a passo. E eu acho que esse é o tipo de representação que eu vou levar para Tallahassee [cidade do Norte do Estado de Flórida]: uma pauta focada na melhoria da vida das pessoas que estão morando aqui, por meio da saúde, da educação pública, de moradias que sejam justas e baratas, e a proteção aos direitos civis e ao nosso meio ambiente. BBC News Brasil – Como sua trajetória individual se conecta com a do imigrante que vai aos Estados Unidos em busca de oportunidades? Sousa-Lazaballet – Eu cresci em Santa Cruz da Serra [bairro de Duque de Caxias], não é um lugar onde tem muitas oportunidades, principalmente na época em que eu morava no Brasil. Eu lembro que a gente nem tinha asfalto, eletricidade. Tinha uma vala de esgoto aberta na rua. Essa era a vida que eu levava no Brasil. Saí do Brasil, literalmente, com uma mala quebrada e um coração cheio de sonhos. Cheguei aos EUA e tive que batalhar muito, muito sacrifício, porque eu não tinha a minha situação regularizada aqui. E, embora tenha estudado e tirado boas notas, foi muito difícil eu conseguir terminar o meu curso na universidade. Mas tudo isso significa uma coisa simples: que não importa de onde você vem, não importa como você começou. O importante é a trajetória, como a gente consegue construir um futuro melhor, não só para a gente, mas para todos ao nosso redor. Eu, sinceramente, nunca pensei em ser político ou me candidatar, justamente porque foi somente em 2021 que consegui a cidadania americana. Você só pode ser candidato quando você é cidadão aqui. Então não era uma coisa que estava na minha cabeça, mas, ao mesmo tempo, a luta pela justiça social é uma coisa que eu já tenho feito há 20 anos. Me engajei no movimento pró-imigrante quando eu era muito jovem, caminhei de Miami até Washington para trazer essa pauta dos estudantes sem documentos nos EUA e da comunidade LGBT+. Quem diria que o menino que cresceu em Duque de Caxias um dia ia se tornar um deputado estadual aqui na Flórida, fazendo história. BBC News Brasil – Sobre ser um imigrante sem documentos, para você, qual foi o momento mais difícil de estar irregular? Sousa-Lazaballet – Estar sem documentos é como ter um pesadelo, em que tem um monstro e você não consegue se mexer. Você sente o monstro, você vê o monstro, você até mesmo escuta o monstro, mas não tem nada que você possa fazer. Você está preso. É essa sensação de ser uma pessoa indocumentada. É querer trabalhar e não poder. Querer poder ir para a escola, estudar, e não poder. Ou seja, são várias portas fechadas. Muitos momentos me causaram muita, muita dificuldade. Por exemplo, quando eu estava ainda no segundo grau e eu tentei ir para uma universidade, mas não consegui, a princípio. Quando eu tentei me engajar numa carreira que fosse alinhada com o que eu queria fazer, mas eu não conseguia, eu tive que trabalhar em um restaurante. Mas, ao mesmo tempo, eu acho que a coisa mais importante é que a gente consiga estar engajado em movimentos sociais, porque foi ali que eu não só me empoderei, mas também entendi que eu tenho uma voz, que eu não sou uma vítima. Que eu sou parte de uma história. BBC News Brasil – E por que, na sua opinião, esse tema da imigração ganhou centralidade na pauta política? Sousa-Lazaballet – Posso falar daqui, dos EUA. Acho que existe uma maneira de ver o que significa ser um americano que a extrema-direita dos EUA enxerga como uma pessoa branca, provavelmente um homem... Eles têm uma figura do que significa ser americano. E existe um outro grupo de pessoas que está dizendo: "Não, nós todos somos americanos." A minha história de um imigrante que veio do nada, que viveu na pobreza, que chegou aqui, construiu uma vida, é uma história muito americana. Os EUA foram criados dessa maneira. Eu sou um entre uma linhagem gigantesca de milhões que vieram antes de mim e milhões que virão depois, pessoas que chegam do nada e constroem uma vida aqui. Essa também é parte da nossa identidade. Não faz sentido a gente criar leis anti-imigrantes que não somente fazem com que a vida do imigrante fique cada vez mais difícil, mas também que não ajudam a economia, que não resolvem os problemas. A razão de você não conseguir pagar o aluguel não é o imigrante. BBC News Brasil – Como acontece sua entrada na política institucional? Sousa-Lazaballet – Quando você é cidadão americano, você já pode se registrar como votante. Sempre me registrei como democrata, mas eu não tinha uma atuação dentro do partido. Comecei a trabalhar mais no partido nos últimos dois anos, que foi quando eu decidi me candidatar. Por cinco anos, eu também fui assessor do prefeito de Orlando, o prefeito Buddy Dyer. Então eu tinha acesso à política e a políticos, mas realmente só comecei a me engajar quando eu tomei a decisão de me candidatar. BBC News Brasil – Com relação às midterms, em que os democratas foram bem-sucedidos. Na sua avaliação, o que pesou mais para a sua vitória e também para esse contexto da onda azul em todo o país? Sousa-Lazaballet – O principal foi o corpo a corpo. Nossa campanha tocou 42 mil portas, e eu ia me apresentando. Tínhamos voluntários, fizemos 20 mil ligações no final de semana antes das eleições, e sempre vendo essa como uma oportunidade para que a gente pudesse criar conexões diretamente com o eleitorado. Realmente foi o que fez a maior diferença. Mas, ao mesmo tempo, existe um contexto político. O presidente Trump criou muitas leis que são anti-imigrantes. Então, numa cidade muito diversa como Orlando, todos nós estamos, talvez, a dois graus de uma pessoa que foi deportada ou que foi detida, e muitas pessoas com histórias parecidas se sensibilizando pelo que está acontecendo contra os imigrantes. E, ao mesmo tempo, no contexto da Flórida, existiram várias leis contra a comunidade LGBT. Aqui na Flórida teve até um processo em que certos monumentos com arco-íris tiveram que ser trocados. Além disso, há o problema econômico que está acontecendo por causa das tarifas, e também por causa da guerra no Irã, que está tornando a vida mais cara. A gasolina está cara, a comida está cara. Você vai ao mercado e compra poucas coisas com US$ 100 (cerca de R$ 540). Estamos realmente vivendo um momento muito difícil. Foi aí que houve a abertura para uma pauta mais progressista, que questiona: por que a gente está focado em criar benefícios para as grandes corporações, cujos donos são bilionários? Por que a gente está gastando mais de US$ 1 bilhão para criar um centro de detenção no meio dos Everglades, o Alligator Alcatraz? E a gente não tem dinheiro para pagar pela educação. Não faz sentido. E essa foi a abertura que muitos democratas usaram para poder trazer essa pauta, que é uma pauta dentro do Partido Democrata, mas também mais na ala progressista, da qual eu me considero parte. BBC News Brasil – Vimos o endurecimento nesses dois anos do segundo mandato do Trump do ICE. Como deputado estadual, o que você poderia fazer de concreto, já que a imigração é um tema federal? Sousa-Lazaballet – Aqui na Flórida, infelizmente, somos o Estado que deporta mais pessoas no país inteiro, e a razão principal foi por causa de uma lei estadual que passou em 2025, que praticamente obriga o corpo da polícia, os governos municipais, a trabalhar com o ICE. Então você está na rua, dirigindo, de repente a polícia te para. A polícia pode ser um agente do ICE e vai ligar para o ICE. Isso acaba também criando um tipo de desconforto e, ao mesmo tempo, falta de confiança nas instituições governamentais. Outro exemplo são as escolas públicas do Orange County, que é onde eu estou, que perderam 5 mil alunos que são imigrantes ou filhos de imigrantes, ou porque foram deportados ou porque estão com medo. Os pais estão com medo de levar os filhos para a escola. Esses são impactos gigantescos num contexto nacional, mas, ao mesmo tempo, que estão tendo um impacto desproporcional aqui na Flórida por causa dessas leis que são estaduais, passadas aqui. O assunto da imigração deveria ser só tratado pelo governo federal, mas vários Estados, inclusive a Flórida, estão tomando essa atitude anti-imigrante que está causando cada vez mais dano, não somente à comunidade imigrante, mas, sinceramente, a todos. Porque, por exemplo, quando tem uma tempestade e o teto cai, o que acontece muito na Flórida, por causa dos furacões, não tem mão de obra que vá reconstruir essas casas. Ou seja, está se criando não só um problema para os imigrantes, mas também para as pessoas que são a favor dos imigrantes, mas até mesmo para a pessoa que está somente vivendo a vida dela. Há alguns meses, fizeram uma pesquisa e descobriram que o ICE é mais malvisto desde que foi criado. Isso significa uma mudança na maneira como as pessoas estão entendendo o discurso da direita, de que imigrante é criminoso. É mentira. O imigrante é quem corta a grama, limpa a casa, faz comida e até mesmo trabalha como médico. Outra coisa que também aconteceu foi que as pessoas que são cidadãs americanas, mas têm cara ou nomes que parecem ser de imigrantes, também estão sendo impactadas por isso. Ou seja, está se criando um caos aqui. BBC News Brasil – As relações entre Brasil e EUA têm se deteriorado desde o segundo mandato de Trump. Além de você, outros seis brasileiros foram eleitos deputados estaduais em outros Estados também. O que esses deputados brasileiros eleitos podem fazer por essa relação entre os dois governos? Pode haver uma ponte política de verdade, ou é mais simbólico? Sousa-Lazaballet – Há uma oportunidade para as pessoas brasileiras, e principalmente para os que são eleitos, de ser uma ponte econômica, social e cultural entre os dois países, porque nós temos os pés nos dois lados. Embora tenha nascido e tenha ficado no Brasil até eu fazer 14 anos de idade, eu vivo mais tempo aqui do que eu vivi no Brasil. E ter os pés nos dois lugares é uma grande vantagem que nós deveríamos usar para poder continuar crescendo uma relação que deveria ser muito boa. O Brasil é um dos grandes exportadores para a Flórida, e a Flórida exporta muita coisa para o Brasil. Ou seja, há muitas oportunidades que podem ser exploradas, e com certeza eu amaria ter a oportunidade de trabalhar diretamente com o governo do Brasil. Tem muitas pessoas eleitas que eu super admiro. BBC News Brasil – Tem alguém que você acompanha mais de perto? Sousa-Lazaballet – Tem vários políticos no Brasil que eu realmente admiro. Por exemplo, a Erika Hilton [deputada pelo PSOL em SP]. Eu acho incrível a maneira como ela consegue trazer uma pauta de representação, mas, ao mesmo tempo, uma pauta que é focada na classe trabalhadora. E eu acho que é esse tipo de político que eu quero ser. BBC News Brasil – A Flórida também tem sido um destino frequente de políticos e apoiadores da direita brasileira como Flávio Bolsonaro e outros aliados da família Bolsonaro. O que você acha dessa articulação política que eles fazem a partir da Flórida? Sousa-Lazaballet – Minha opinião é simples: o Brasil é um país soberano, a justiça brasileira deve ser respeitada, e não faz sentido nenhum para mim aceitar um político fugido do Brasil aqui. Tem que continuar com o processo que está acontecendo no Brasil. Os EUA não deveriam interferir e, enquanto isso, estão deportando empregada doméstica que nunca cometeu nenhum crime. Ou seja, não faz sentido nenhum. BBC News Brasil – Segundo dados do TSE, a maioria do eleitorado brasileiro na Flórida está mais identificada com a direita. Como é a sua relação com a comunidade brasileira na Flórida, que pode ser mais conservadora? Sousa-Lazaballet – Eu trabalho com quem quer trabalhar comigo, porque é o que eu sempre digo: se eu não concordo com você em 80% das coisas, mas concordo em 20%, vamos trabalhar nesses 20%. A comunidade brasileira me apoiou muito e continua me apoiando. Não são todos da mesma linha política, mas vemos a importância de ter a representação. E não só uma representação, mas também uma pessoa dentro do cargo que realmente vai estar preocupada em trazer soluções reais para as vidas das pessoas que moram aqui.
