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Latinos, guerra, votação antecipada: o que explica a 'onda azul', que deu ao Partido Democrata uma vitória histórica nos EUA

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Marcelo Lins analisa derrota do partido de Donald Trump nas eleições dos EUA Uma espécie de tempestade perfeita está na raiz da vitória histórica conquistada pelo Partido Democrata, de oposição a Donald Trump, nas chamadas midterms, realizada na terça-feira (3) nos Estados Unidos. Desde o voto de protesto contra Trump até a alta nos votos antecipados, passando por uma nova leva de democratas carismáticos, a chamada "onda azul" — em referência à cor do Partido Democrata — foi proporcionada por uma combinação de fatores. ✅ Siga o canal de notícias internacionais do g1 no WhatsApp MAPA mostra resultados das eleições nos EUA em tempo real AO VIVO: Acompanhe as últimas notícias das midterms ➡️ No pleito, feito para renovar parte do Legislativo e de governos estaduais, os democratas recuperaram o controle tanto da Câmara dos Deputados quanto do Senado, que eram controladas pelo Partido Republicano, de Trump, desde que ele voltou à Casa Branca, em janeiro de 2025. É praxe, na política norte-americana, que o partido de oposição ao presidente ganhe o controle de pelo menos uma das Casas nas midterms. Desta vez, no entanto, os democratas avançaram sobre cadeiras historicamente ocupadas por republicanos. Também conquistaram, até a última atualização desta reportagem, 28 governos estaduais, incluindo os de redutos históricos republicanos, como o Texas e o Kansas. Veja, abaixo, fatores que levaram à vitória democrata: Voto anti-Trump O presidente dos EUA, Donald Trump, tira o chapéu por um instante ao sair do espelho d'água do Lincoln Memorial, após sua reabertura depois de meses de reformas, em Washington, DC, EUA, em 2 de novembro de 2026 REUTERS/Umit Bektas TPX IMAGES OF THE DAY Um levantamento feito pela agência de notícias norte-americana Associated Press (AP), que ouviu mais de 100 mil eleitores em todos os 50 estados dos EUA, apontou que cerca de 40% dos eleitores votaram para "expressar oposição" a Donald Trump. Para o comentarista de interncional da Globonews, Marcelo Lins, os resultados foram, antes de tudo, um voto de protesto contra o presidente dos EUA. "Donald Trump prometeu entregar uma economia estável, não colocar os Estados Unidos em conflito e trazer militares para casa", afirmou. "Ele não entregou nada disso. Entrega uma inflação pressionada. O desemprego não é uma preocupação nesse momento, mas as guerras sem fim são outra preocupação. Exaurem os cofres dos Estados Unidos. E, claro, o preço dos petróleos, que não deixam os americanos se planejarem nem para o curto, muito menos para o medio e longo prazos". Baixa popularidade de Trump As últimas pesquisas de aprovação do governo de Donald Trump já indicavam que os resultados a favor do Partido Democrata poderiam ser mais expressivo. A popularidade do norte-americano vinha despencando nos últimos meses e, em outubro, há semanas das midterms, alcançou a baixa histórica de 31% de aprovação da popução. A popularidade em baixa não permitiu que Trump mobilizasse seus eleitores, mesmo pedindo que eles votassem como se ele estivesse nas urnas. 'Guerra sem fim' Veículos passam por um outdoor com uma imagem do Estreito de Ormuz e com os lábios costurados do presidente dos EUA, Donald Trump, em uma praça no centro de Teerã, Irã, sábado, 2 de maio de 2026. AP Photo/Vahid Salemi A guerra no Irã também encabeçou a lista de fatores que entregaram a vitória aos democratas. Traumatizados com conflitos como os do Vietnã, norte-americanos digeriram mal a demora de Trump em dar um fim à guerra que ainda trava contra o Irã. Mas pesou mais que o conflito vem mexendo no bolso dos norte-americanos. A alta no petróleo provacada pelo confltio iniciado pelo presidente dos EUA encareceu ainda mais o custo de vida no país, que já era alto. O próprio vice-presidente dos EUA, JD Vance, em sua primeira manifestação após os resultados, culpou o confltio. "A razão pela qual perdemos é a guerra. O próprio presidente disse isso na noite passada. Se você quiser argumentar que valeu a pena, que perder o Senado pelos próximos 6 anos valeu a pena, então faça isso. Argumente que foi um custo válido a pagar. Mas todo mundo sabe por que perdemos", disse Vance. Candidatos carismáticos O candidato democrata ao Senado pelo Michigan, Abdul El-Sayed, atrás de uma bandeira dos Estados Unidos em ato de campanha em Mount Clemens, no Michigan, em 31 de outubro de 2026. Julia Demaree Nikhinson/ AP Ao lado da insatisfação com Trump, sua "guerra sem fim" e a economia, uma nova leva de candidatos democratas, mais carismáticos e com mais apelo que nomes do partido em pleitos anteriores, mobilizou o eleitorado. Encabeçaram essa lista o candidato ao Senado pelo Texas, James Talarido, o candidato ao Senado pelo Michigan, Abdul El-Sayed, e o senador pela Georgia, Jon Ossof. Os três foram eleitos nas midterms. Com linguagem afiada e mais capacidade de mobilização pelas redes sociais, os candidatos conseguiram ajudar os democratas a recuperar terreno e fazer com que eleitores voltassem a levantar a bandeira do partido, um movimento encabeçado pelo prefeito de Nova York, Zohran Mamdani. "Ele despertou algo nos eleitores", disse à rede de TV ABC News cientista política Christina Greer, da Universdade Fordham. "Antes, os eleitores achavam que precisavam aceitar o 'status quo' da política tradicional". Voto antecipado A mobilização pelo voto antecipado, um comportamento tradicionalmente democrata, foi um fator decisivo neste pleito. Quase 59 milhões de americanos votaram antes do dia da votação, contra 45,9 milhões nas midterms de 2022, segundo o levantamento da AP. Pesquisas reveleram que, de fato, houve uma forte mobilização de eleitores democratas para o voto antecipado. Um levantamento do site de notícias Axios mostrou ainda que o voto antecipado foi especialmente forte entre eleitores negros e latino-americanos, grupos que penderam para o Partido Democrata neste pleito. Latinos voltaram aos democratas Separados pelo ICE é o nome da fotografia tirada por Carol Guzy e vencedora do prêmio Imagem do Ano de 2026 do World Press Photo. Carol Guzy/ZUMA Press, iWitness para Miami Herald/World Press Photo 2026 via BBC Tradicionalmente democrata, o eleitorado latino-americano — que inflou e hoje representa mais de 15% de todos os eleitores do país — havia se aproximado do Partido Republicano nas últimas eleições, em 2020. Na ocasião, esse eleitorado expressava mais confiança em Donald Trump para retomar a economia do país e descolava-se do discurso anti-imigração de Trump, que viam direcionado a novos imigrantes, distantes de latino-americanos que vivem há anos ou décadas nos EUA. No entanto, além de o número não melhorar, a dura política anti-imigração de Trump não caiu bem entre os latino-americanos, que acabaram afetados direta ou indiretamente pela caça de agentes ICE a estrangeiros. A resposta já veio nas urnas. O levantamento feito pela AP revelou que, entre os eleitores latino-americanos, o apoio aos candidatos republicanos foi menor que o registrado por Trump dois anos atrás. De acordo com a pesquisa, seis em cada 10 eleitores hispânicos declararam ter votado no Partido Democrata — na eleição presidencial de 2024, esse grupo ficou praticamente dividivo entre Donald Trump e Kamala Harris, segundo o AP VoteCast. Jovens A pesquisa feita pela Associated Press também revelou uma guinada acentuada dos eleitores jovens em direção à esquerda. Sete em cada 10 eleitores com menos de 30 anos disseram ter votado em candidatos democratas para Câmara dos Deputados. O desempenho dos candidatos democratas entre os eleitores com menos de 30 anos foi maior que o apoio que esse grupo conferiu à vice-presidente Kamala Harris, que disputou a presidência com Donald Trump. A maioria dos eleitores com menos de 30 anos, ainda de acordo com a pesquisa, afirmou ter votado para expressar oposição ao atual presidente. O fator Obama O ex-presidente dos EUA, Barack Obama, faz campanha com o candidato democrata ao Senado dos EUA, Abdul El- Sayed , e a candidata democrata ao governo, Jocelyn Benson, em Detroit, Michigan REUTERS/Rebecca Cook Afastado de grandes comícios, o ex-presidente Barack Obama foi um reforço de peso para os democratas na reta final das eleições de meio de mandato. Quase uma década depois de deixar a Casa Branca, ele voltou aos palanques para mobilizar eleitores em estados estratégicos, como Ohio, Michigan e Geórgia. A capacidade de Obama atrair atenção e entusiasmar a base democrata foi destacada pela imprensa norte-americana como um dos principais mobilizadores do partido. O ex-presidente dividiu o palco com o candidato ao Senado por Ohio, Sherrod Brown, a candidata ao governo estadual do estado Amy Acton, com o senador Jon Ossoff e a candidata ao governo Keisha Lance Bottoms. Mas o destaque foram os atos de Obama ao lado de Abdul El-Sayed.

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