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Praga de padre, fantasma que pede carona, cobra gigante e invasão alienígena: de onde vêm as lendas e histórias de 'terror' do interior de SP

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De onde vêm as lendas? Conheça histórias assustadoras da região de Piracicaba,SP Que abóbora esculpida, espantalho, vampiros e zumbis não são símbolos típicos do folclore brasileiro, quase todo mundo sabe. Ainda assim, esses personagens do Halloween ou Dia das Bruxas permeiam o imaginário nacional a cada mês de outubro. A festa milenar, de origem celta, popular nos Estados Unidos, é celebrada neste sábado (31). Mas o folclore caipira, no interior de São Paulo, tem a Inhala Seca, a lenda do Véu da Noiva da Colina no Rio Piracicaba, a cobra gigante adormecida que vive debaixo da terra, um fantasma que pede carona, o túmulo do livro no Cemitério da Saudade e tantas outras histórias de mistério, supense e terror que só quem vive na região conhece. O g1 reuniu algumas das lendas urbanas e assustadoras locais, que ainda incluem invasão alienígena em Piracicaba (SP) na década de 1990 e até maldição lançada por um padre que se revoltou com a população de Santa Bárbara d'Oeste (SP). Em Limeira (SP), tem o Milagreirinho das Mãos Queimadas. Ficou curioso (a) ou com medo? Confira, na reportagem. Representação da Inhala Seca, lenda urbana de Piracicaba Ilustração: Ana Clara de Negri Kantovitz Thiago de Souza, idealizador do projeto de necroturismo e de valorização histórica e arte cemiterial, "O Que Te Assombra" , explica as origens e significados das lendas urbanas da região de Piracicaba e mostra até que ponto essas histórias são fictícias ou aconteceram de verdade. Outro pesquisador que embarca nessa proposta de resgatar o folclore local é o historiador Mauricio Beraldo, que desenvolve projeto sobre valorização e preservação das lendas de Piracicaba e do centenário Cemitério da Saudade, fundado em 2 de dezembro de 1872, há quase 154 anos. 🎃 Confira, abaixo, a seleção de lendas urbanas da região de Piracicaba: Inhala seca Invasão de Aliens A Cobrona de Piracicaba O túmulo do Padre Galvão A Praga do Padre O Turco que Come Criança Véu da Noiva da Colina Túmulo do Livro O Milagreirinho das Mãos Queimadas Túmulo do padre Galvão no Cemitério da Saudade em Piracicaba Carol Giantomaso/G1 Inhala Seca 🧟 Há muitas décadas, uma mulher, provavelmente uma escrava morreu de tuberculose e foi enterrada em um cemitério onde hoje fica a Escola Estadual Morais Barros. "Após anos enterrada foram fazer a exumação do corpo e a encontraram extremamente magra, mas totalmente conservada, sem resquícios de decomposição", conta Mauricio. Passaram a dizer então que aquilo aconteceu pois "a terra não quis comer o corpo", assim como na lenda do Corpo Seco. Prédio do Grupo Escolar Morais Barros em 1986 Arquivo Câmara de Vereadores de Piracicaba No dia seguinte após a surpresa foram abrir o caixão novamente, para mostrar o cadáver incorrupto. porém ao abrir, o corpo não estava mais lá. A lenda conta que a Inhala Seca, como ficou conhecida, fugiu do cemitério e assombra a cidade. Segundo relatos, o corpo esquelético é visto principalmente na Estrada do Bongue (Avenida Jaime Pereira), pedindo carona para quem passa por ali. VEJA MAIS LENDAS Coqueiral assombrado, homem da capa preta e fantasmas do Engenho: grupo resgata lendas de Piracicaba em caminhada Inhala Seca e a noiva do rio: assombrações lendárias de Piracicaba são reunidas em livros infantis Estrada do Bongue em Piracicaba CCS/Prefeitura de Piracicaba Segundo Mauricio, a Inhala pede carona para Bom Jesus de Pirapora, onde busca pagar uma promessa. Para isso, ela oferece uma recompensa para os viajantes, um grande e misterioso tesouro que possui. Mas ninguém nunca conseguiu ajudar a assombração, pois ao ver sua aparência cadavérica, fogem de medo. De onde veio a lenda? Mauricio conta que a história provavelmente surgiu como uma adaptação de outra muito conhecida no folclore brasileiro: o Corpo-Seco, um homem que após morrer foi recusado tanto pelo céu quanto pelo inferno por causa de sua maldade e foi condenado a vagar pela terra eternamente, Porém, o povo piracicabano adicionou características de sua própria cultura à lenda, como a Estrada do Bongue e o antigo cemitério, onde foi construído uma cadeia e que posteriormente, em 1900, foi transformada na Escola Estadual Morais Barros. Invasão de Aliens em Piracicaba em 1996 🛸 Vista área de Piracicaba Prefeitura de Piracicaba Segundo relatos de locais, o avistamento teria acontecido na região do bairro Santa Terezinha. Cidadãos avistado um estranho objeto redondo com luzes brilhantes voando durante a noite. Além disso, um pasto ficou com estranhas marcas de queimado, que ufólogos da época afirmavam terem sido causadas pelo Objeto Voador Não Identificado (Ovni). Porém, a principal testemunha foi o morador João Galvão Coelho, que passava de moto pelo local. Segundo ele, em uma entrevista ao Fantástico em 1996, o objeto era extremamente rápido. Dele teriam descido, em um feixe de luz branca, três seres pálidos que possuíam orelhas grandes. Logo depois, a nave foi embora, deixando marcas de queimado onde supostamente teria pousado. De onde veio a lenda? Thiago conta que esse foi apenas um dos muitos avistamentos que aconteceram naquele ano. "A gente precisa contextualizar. O ano de 96 e esse período foi muito cheio de histórias de discos voadores. Inclusive o episódio do ET de Varginha, que completou 30 anos em 2026", lembra. Naquele período, o tema extraterreste estava em alta na cultura pop, com destaque de avistamentos pelos veículos de comunicação, o que pode ter encorajado pessoas a relatarem luzes e fenômenos incomuns. "Então, a aparição do Ovni de Piracicaba foi meio próxima a essa época. Talvez, isso justifique esse frenesi e registro de luzes. Quer dizer, não é que foi só o testemunho do pouso. Houve também uma frequência muito grande de luzes nos céus sendo registradas". Até hoje nenhuma explicação oficial foi dada. Especialistas dizem que o avistamento pode ter sido causado por fenômenos naturais e astronômicos, como satélites naturais, que normalmente podem ser vistos em áreas rurais logo que o sol se põe. A Cobrona de Piracicaba 🐍 Largo da Catedral de Santo Antônio, em Piracicaba (SP) Claudia Assencio/g1 Segundo a lenda, embaixo da cidade de Piracicaba estaria adormecia a maior cobra do mundo. Sua cabeça fica na Catedral de Santo Antônio, na Praça José Bonifácio, e seu corpo se estende até a Rua do Porto, próximo ao rio Piracicaba. Ainda é dito que um dia, o réptil gigante irá despertar e engolir toda a cidade, a menos que os cidadãos vivam de forma ética e justa. De acordo com Thiago, a história é uma forma de impor limites éticos para os moradores. "É evidentemente um freio moral, né? Que é quase como uma limitação ética, que as pessoas precisam ter, precisam respeitar para que isso não aconteça". De onde veio a lenda? Mauricio conta que a lenda sobre uma cobra presa subterrâneo pode ser vista também em outras regiões do Brasil, como por exemplo Araraquara, Manaus, Belém do Pará e Campinas. Segundo ele a lenda da cobrona de Piracicaba provavelmente veio das populações do norte do país, que migraram para Piracicaba e se estabeleceram perto do rio. "Lá eles tem a versão deles da história, e quando vieram para cá provavelmente continuaram contando". Com o tempo a cobrona sofreu adaptações e se tornou parte do imaginário da cidade. O túmulo do Padre Galvão 🪦 Túmulo do Padre Galvão no Cemitério da Saudade, em Piracicaba Cemitério da Saudade/ Redes Sociais Quem passa pelo Cemitério da Saudade em Piracicaba pode ver uma das lápides deslocadas das demais, ficando bem no meio da alameda principal da necrópole. Aquele sepulcro pertence a um padre que se tronou milagreiro na cidade, o Padre Galvão. Francisco Galvão Paes de Barros foi vigário da Matriz de Santo Antônio, em Piracicaba, até o ano de 1898. Quando faleceu, a cidade comovida com a morte do padre organizou um grande cortejo para sepulta-lo no Cemitério da Saudade. Quando a marcha fúnebre se aproximou da alameda principal do cemitério uma confusão se iniciou, pois todos queriam carregá-lo e o caixão caiu. Ao tentar o retira-lo do chão, ninguém conseguia move-lo, e depois de muitas tentativas decidiram fazer o enterro ali mesmo. Dizem que por essa razão o caixão acabou ficando no meio de um arroamento mesmo após várias reformas no cemitério. Capa do Livro A Lenda do Túmulo do Padre Galvão integra coleção Lendas de Piracicaba Reprodução De onde veio a lenda? Segundo os pesquisadores, o local deslocado onde está o túmulo seria a antiga entrada do cemitério e era planejado que ali fosse construído uma capela. Porém, com os anos o local sofreu diversas reformas e expansões, e a lápide ficou por ali mesmo. "Na verdade ali seria construída a capela central, mas quando houve uma mudança nos arroamentos, ali ficou o túmulo dele, num lugar meio deslocado", explica Thiago. O túmulo está no mesmo local até os dias de hoje e passou a receber pedidos e orações de fieis que acreditam que o padre realiza milagres. O Turco que Come Criança🍴 O turco seria um canibal que vive em Piracicaba. Pais contam que se as crianças não se comportarem e respeitarem as regras, o homem pode vir e sequestra-las. Depois disso, as crianças seriam levadas para uma floresta ou para a casa do canibal, que prepararia pratos utilizando os raptados. De onde veio a lenda? Assim como a lenda da Cobrona, o Turco Que Come Criança é uma adaptação de outra história, o Homem do Saco. Ambos o personagens são utilizados como uma ferramenta de controle das pessoas mais velhas com as crianças. Tiago salienta que esse tipo de lenda sempre existiu, porém a população de Piracicaba deu sua própria identidade. "Eu sempre falo que as lendas de Piracicaba são super cheias de identidade. O Turco é um caso bastante evidente disso, porque ele é uma versão do Homem do Saco", completa. Preconceito com imigrantes Segundo Mauricio, o personagem inusitado surgiu do preconceito que a cidade tinha com os imigrantes do Oriente Médio, que chegaram na região entre o final do século 19 e o início do século 20. "Muitos imigrantes começaram a chegar na região e a crescer economicamente muito rápido, por sua habilidade como comerciantes", comenta. Isso teria criado uma certa inveja na população local, que passou a espalhar boatos sobre os imigrantes e os utilizar como exemplo de coisas ruins. Tiago também pontua que não é sabido nem se os estrangeiros eram mesmo turcos. A maioria dos imigrantes do árabes recebia o passaporte de mesma origem, e acabavam sendo identificados assim. "O entreposto entre os países árabes era na Turquia. E lá eles recebiam um passaporte turco. Então todas as pessoas que tinham outras origens de outros países, Iraque, Irã, Síria, Líbano, todo mundo recebia um passaporte turco", esclarece. Véu da Noiva da Colina Lenda do Véu da Noiva da Colina que mistura romance, tragédia a o salto do Rio Piracicaba Claudia Assencio/g1 A lenda do "Véu da Noiva da Colina" remete à queda das águas do Rio Piracicaba e também permeia o imaginário do piracicabano. O nome da lenda tem uma explicação um tanto lúdica, lembrou a escritora, poetisa, integrante da Academia Piracicabana de Letras, Ivana Negri, em entrevista concedida ao g1 em 2023. De onde veio a lenda? A lenda é representado pela queda d'água principal no salto do Rio Piracicaba. A força da correnteza forma uma espuma branca e densa que se assemelha ao tule do véu de uma noiva. Lenda do Véu da Noiva da Colina que mistura romance, tragédia a o salto do Rio Piracicaba ilustrada Ana Clara de Negri Kantovitz por Ana Clara Ana Clara de Negri Kantovitz/ Ivana de França Negri Ivana contou que existia uma moça muito bonita, de Piracicaba (SP), que foi se banhar nas águas do rio. Diz a lenda que o Rio se apaixonou por Iraci. "Só que ela se apaixonou por um pescador, não pelo rio. Às vésperas do casamento, o rapaz foi colher uma flor para a amada nas margens do manancial e foi arrebatado para o fundo", narrou ao g1 em 2023. A lenda diz que o noivo nunca mais foi encontrado. A noiva, porém, foi até o fim da vida todos os dias até as margens do rio para chorar e lamentar a perda do amado. "Falam que ela chorou tanto que as lágrimas dela fazem o rio transbordar na época da cheia", disse Ivana. Túmulo do Livro no Cemitério da Saudade Livro do túmulo do 'Pradão' no Cemitério da Saudade em Piracicaba Carol Giantomaso/G1 Nas redes sociais do projeto "O Que Te Assombra", Thiago de Souza destaca que a lenda mais conhecida do Cemitério da Saudade de Piracicaba é, sem dúvida , a do monumento em homenagem a João de Almeida Prado, o Pradão, como ele o identifica. De onde vem a lenda? Quando alguém vai a algum velório ou vai visitar lápide de ente querido, entra no cemitério e vê que o livro do Pradão no chão, ao lado do pé dele, relata Thiago. "Dizem que quando as pessoas retornam para ir embora, em direção à saída do cemitério, o livro está na mão da estátua. O túmulo do Pradão é lembrado como o túmulo do livro", narra. Passeio noturno do Cemitério da Saudade em Piracicaba resgata lendas urbanas da cidade Prefeitura de Piracicaba/Reprodução Só que exista outra história atribuída à estátua e o livro, que segundo Thiago, é mais ligada a um tipo de desobediência para quem insistir em acender velas para no túmulo do Pradão. "Tem uma placa dizendo para não acender velas, e quem faz isso leva para casa a companhia do espírito de João de Almeida Prado. Então, eu não recomendo acender velas, a não ser que você esteja muito carente. Aí, sim, vai acender uma vela e ter como companhia João de Almeida Prado, o homem que descansa no túmulo do livro", brinca. A Praga do Padre ⛪ Vista aérea da área central da de Santa Bárbara d'Oeste em 1949 Acervo do Centro de Documentação (Cedoc) da Fundação Romi Segundo a lenda, um dia um circo chegou em Santa Bárbara d'Oeste (SP) e todas as autoridades da cidade foram convidadas para assistir aos espetáculos. No meio da apresentação, uma das equilibristas apareceu vestindo um maiô. O padre achou muito inapropriado. "Começou a dar um escândalo, falando que aquilo não era coisa de apresentar para a família. O dono do circo respondeu: 'ah, se senhor não gostou, pode ir embora'", irritado. "O padre então deixa o espetáculo, mas continua na porta do circo, impedindo as pessoas de entrar. O povo queria assistir, principalmente porque depois da metade do show era de graça. Ele ficou enchendo o saco do público, até que pegou uma turma de moleque lá que se irritou e deu um pé do ouvido no padre, que ficou muito bravo", conta Thiago. No dia seguinte, ele foi embora da cidade, mas antes de sair, retirou as sandálias, bateu uma contra a outra e disse: "dessa cidade eu não quero levar nem a areia do meu pé. Enquanto as famílias dessas pessoas que me bateram estiverem aqui, essa cidade não vai para frente". Desde então, a cidade estaria amaldiçoada, reza a lenda. De onde veio a lenda? A história teria realmente acontecido, porém sofreu uma série de exageros com o passar do tempo. A partir disso, tudo o que acontece de ruim na cidade é atribuído a suposta praga do padre. A crença ficou tão forte que, segundo lembra Thiago, foi feito até uma tentativa de quebrar a maldição por alguns religiosos anos mais tarde. "O interessante é que, muitas décadas depois, foi feita uma tentativa de descarrego dessa maldição do padre", detalha. O Milagreirinho das Mãos Queimadas 🖐️ Túmulo e epitáfio de Joãozinho em Limeira (SP) O que Te Assombra/Thiago de Souza/Redes Sociais João Baptista Amorim, nascido em 4 de março de 1892, morou em Limeira (SP). Quando tinha cerca de um ano, encontrou um maço de dinheiro de seu pai e jogou dentro de um fogareiro. Vendo a cena, o pai coloca as mãos do menino no fogo e as queima. Ele tem as mãos amputadas para evitar uma infecção, mas mesmo assim morre em 19 de setembro de 1893. Muitas pessoas relatam que durante a noite, veem uma criança chorando e pedindo a mãe, próximo do túmulo. De onde veio a lenda? Joãozinho, como foi carinhosamente apelidado, realmente existiu e morreu de sepse (infecção generalizada), foi causa dos ferimentos graves que sofreu. Nem mesmo a amputação pode salvá-lo na época. Hoje, seu túmulo é alvo de procissões de fieis da região, que acreditam que ele realiza milagres. Thiago conta que os milagres do milagreirinho estão normalmente relacionados principalmente a saúde de crianças, por causa da forma que morreu. *Sob supervisão de Claudia Assencio. VÍDEOS: tudo sobre Piracicaba e região Veja mais notícias sobre a região no g1 Piracicaba

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