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Delírio de grandeza: o que acontece no cérebro de quem acredita ter poderes ou uma missão extraordinária?

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Neurônios aparecem em imagem ampliada do cérebro de um camundongo. Kaelin Wulf e Rachel Flannery/Nikon Small World Uma pessoa trabalha, paga as contas, comenta o noticiário com lógica e raciocina bem sobre praticamente tudo. Num único assunto, porém, não admite dúvida: está convencida de que foi escolhida para uma missão extraordinária, de que tem poderes que ninguém mais tem ou de que ocupa um posto de importância que o mundo ainda não reconheceu. A medicina chama o quadro de delírio de grandeza, e ele diz respeito a algo bem mais profundo do que vaidade: o modo como o cérebro interpreta a realidade e decide em que acreditar. Delírio, no sentido médico, é uma crença equivocada mantida com enorme convicção, mesmo quando as provas contra ela são claras. No de grandeza, a certeza envolve capacidades, identidade ou importância que não existem. Pode ser a pessoa que se acredita secretamente escolhida para um cargo político de destaque, a que se vê com poderes sobrenaturais ou a que se sente encarregada de salvar a humanidade. Quem vive isso não está mentindo nem tentando enganar ninguém. Para essa pessoa, tudo é real. Agora no g1 Arrogância não é delírio Exagerar as próprias qualidades, exigir tratamento especial e reagir mal a críticas são traços de personalidade que não rompem o vínculo com os fatos. O neurologista e neurocirurgião Helder Picarelli, do Hospital das Clínicas, explica que a pessoa narcisista se julga superior e vive atrás de admiração, mas segue em contato com a realidade. No delírio, o que se altera é a própria percepção do real. As duas condições não se equivalem, embora possam coexistir. O psiquiatra Arthur Danila, formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e coordenador do Programa de Mudança de Hábito e Estilo de Vida do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, faz uma separação ainda mais fina, entre o delírio e a mentira. Quem mente de propósito sabe, em alguma medida, que diz algo falso e costuma ter um motivo, como obter vantagem ou preservar uma imagem. Quem delira pode estar integralmente convencido. Danila ressalta que nenhum gesto, expressão ou resposta isolada separa os dois casos com segurança: há mentirosos capazes de sustentar uma história por anos, com emoção convincente, e há pessoas em delírio que mentem sobre outros assuntos. A fronteira também passa pela relação com o reconhecimento. “Ser reconhecido por ser bom no que faz não tem nada de doentio. A doença aparece quando a pessoa não tem esse mérito e, ainda assim, se considera o melhor de todos”, afirma Arthur Guerra, coordenador do núcleo de psiquiatria do Hospital Sírio-Libanês. Cérebro dá peso demais ao banal Alicia Petresc/Unsplash O cérebro não funciona como uma câmera que apenas registra o mundo. A cada instante, ele interpreta o que vemos, ouvimos e sentimos a partir de memórias, emoções e experiências anteriores, e decide o que merece atenção. Uma das hipóteses mais estudadas é que esse sistema de atribuição de importância se desregule. Fatos corriqueiros passam a carregar um significado desproporcional, e a dopamina, substância que faz a comunicação entre os neurônios e participa da motivação e da aprendizagem, parece ter papel nesse processo. Picarelli dá um exemplo: a pessoa encontra um semáforo quebrado, o agente de trânsito faz sinal para que ela siga em frente, e ela entende o gesto como o código para iniciar uma tarefa decisiva para salvar a humanidade. Três carros vermelhos num mesmo dia, que qualquer um chamaria de coincidência, viram mensagens endereçadas só a ela. Danila acrescenta que uma declaração pública pode ser lida como recado cifrado, e que a falta de reconhecimento oficial costuma ser explicada como parte de uma operação secreta para proteger a verdadeira identidade da pessoa. Os estudos de imagem apontam para circuitos que ligam a região frontal do cérebro, responsável por julgar e avaliar crenças, a estruturas profundas ligadas à motivação. Não existe, porém, uma área exclusiva do delírio de grandeza: as alterações observadas dizem respeito à psicose de modo geral. “O delírio não é um engano de informação”, resume Danila. “O que muda é o modo como a pessoa dá sentido ao que vive e fabrica suas certezas.” Quando a ausência de provas vira prova Em condições normais, o cérebro confronta cada convicção com as informações novas e corrige a rota quando erra. É esse ajuste que permite aprender e se adaptar. Nos quadros delirantes, o mecanismo falha: a pessoa valoriza o que parece confirmar sua crença, reinterpreta o que a contradiz e tende a chegar a conclusões precipitadas, com pouquíssima informação. Picarelli descreve o homem convicto de ser dono de um grande banco. Diante da prova de que seu nome não consta entre os proprietários, ele responde que a identidade é mantida em segredo. O mesmo vale para quem se diz milionário sem ter dinheiro e garante que a fortuna está num paraíso fiscal ou bloqueada por ordem de um ministro. A falta de documentos, observa Danila, deixa de ser contraprova e passa a integrar a narrativa, como indício de que existe um esquema de proteção. Há ainda uma dimensão emocional. Quando a convicção se torna o eixo da identidade, abandoná-la equivale a perder aquilo que organiza a história pessoal e o sentimento de importância. A capacidade de examinar os próprios pensamentos e reconhecer erros, chamada de metacognição, também pode estar comprometida. “Saber que ninguém mais concorda não leva a pessoa a duvidar de si”, diz Danila. “Muitas vezes ela conclui que os outros ainda não estão preparados para entender.” Lucidez em todo o resto Imaginar que alguém nessa condição esteja confuso em todas as áreas da vida é um dos equívocos mais comuns. Memória, inteligência e raciocínio dependem de circuitos diferentes, e alguns podem se alterar enquanto outros seguem preservados, explica Picarelli. A pessoa administra as finanças, trabalha, conversa com naturalidade e, ao tocar no tema do delírio, passa a ler acontecimentos comuns como provas de uma realidade que os outros não enxergam. Segundo Danila, a inteligência pode até alimentar o quadro, ao produzir justificativas cada vez mais sofisticadas, com datas, personagens e explicações que, dentro daquela lógica, parecem perfeitamente coerentes. O caminho costuma ser gradual. Começa com a sensação de que certos acontecimentos têm um sentido especial. Coincidências viram sinais, a suspeita se transforma em certeza e a história ganha funções, bastidores e justificativas, até formar uma estrutura de lógica interna consistente, apoiada em premissas sem nenhuma base. Dependendo do conteúdo, a pessoa pode abandonar oportunidades, comprometer relações e fazer investimentos a partir do que acredita. O que pode estar por trás O delírio de grandeza não é uma doença isolada, e sim um sintoma que aparece em quadros diferentes. Pode surgir na esquizofrenia, no transtorno delirante propriamente dito e nos episódios de mania do transtorno bipolar, em que a pessoa se sente extraordinariamente poderosa e inteligente, em geral com muita energia, pouca necessidade de sono e impulsividade. Também pode ser provocado por cocaína, anfetaminas, cannabis de alta potência, excesso de álcool ou sua retirada abrupta e alguns medicamentos, como os corticoides, além de doenças do cérebro, entre elas demências, epilepsia, tumores e lesões. Por isso, afirma Picarelli, é preciso investigar uma causa orgânica quando os sintomas surgem de repente, aparecem pela primeira vez ou têm características atípicas, sobretudo em idosos. Estresse intenso e privação de sono também pesam: dormir muito pouco por longos períodos pode causar delírios passageiros até em quem não tem doença psiquiátrica. A ciência trabalha com um modelo de múltiplas causas. A genética aumenta a vulnerabilidade sem determinar o destino de ninguém, e traumas, estresse e isolamento social entram na conta, já que o convívio oferece chances de confrontar interpretações particulares. Danila lembra que redes sociais e sistemas de recomendação podem reforçar convicções já formadas, mas não há evidência de que, sozinhos, provoquem o transtorno. Diagnóstico não sai de exame Ressonância magnética de um cérebro humano saudável. O estudo analisou exames desse tipo para comparar mudanças cerebrais na puberdade, na gravidez e na menopausa. Asnaebsa/Wikimedia Commons Nenhum exame confirma um delírio de grandeza. Pesquisas com ressonância magnética funcional mostram alterações em grupos de pacientes, mas elas não são específicas, e a imagem de uma pessoa em delírio pode ser inteiramente normal. Os exames servem, sobretudo, para descartar tumores, lesões vasculares e doenças degenerativas. O diagnóstico é clínico e se apoia em entrevista aprofundada, história de vida, relatos de familiares, quando apropriado, e observação ao longo do tempo. O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, da Associação Americana de Psiquiatria, exige ao menos um mês de crença delirante, enquanto a Classificação Internacional de Doenças, da Organização Mundial da Saúde, descreve em geral períodos de três meses ou mais. Convicções compartilhadas por uma comunidade religiosa ou cultural não são tratadas como sintoma. Pelo mesmo motivo, segundo Danila, não há base científica para diagnosticar alguém a partir de discursos, vídeos ou postagens: sem avaliação clínica, qualquer conclusão é especulação. Quando o quadro se confirma, o tratamento combina acompanhamento psiquiátrico, vínculo de confiança, psicoterapia e, quando indicado, medicamentos que modulam a ação da dopamina. Confrontar de forma agressiva ou ridicularizar costuma piorar a situação, porque aumenta a sensação de ameaça. O objetivo não é concordar com a crença, mas reconhecer que, para quem a vive, ela é uma experiência profundamente real. O prognóstico, segundo Guerra, é melhor do que muita gente imagina: abandonar o delírio é possível e frequente. Quando o quadro vem do uso de drogas, ele desaparece com a interrupção do consumo, e na mania do transtorno bipolar cede com o tratamento adequado. O transtorno delirante crônico costuma levar mais tempo para melhorar, mas também pode responder, e quanto mais cedo o cuidado começa, melhores as chances. As evidências reunidas até aqui apontam para uma interação complexa entre predisposição individual, funcionamento cerebral, vivências emocionais e contexto social. “Uma cultura que cultua fama e superioridade fornece o vocabulário da grandeza, mas isso está longe de explicar o surgimento de um delírio”, diz Danila. Rara e menos estudada que outras psicoses, a forma grandiosa ainda pede pesquisas específicas. O que a ciência já descarta é a explicação fácil: o delírio não nasce de vaidade, sede de poder ou carência de atenção, mas de um fenômeno clínico que exige avaliação cuidadosa e respeito a quem o vive.

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