De sebo que resistiu a enchentes à origem do Bahamas: conheça o comércio da Avenida Ibitiguaia, em Juiz de Fora
Avenida Ibitiguaia no bairro Santa Luzia, em Juiz de Fora Arquivo/TV Integração Em Juiz de Fora, comércio e serviços concentram 78,9% dos empregos formais. Para além das relações de compra e consumo, os setores forjam relações de pertencimento e resiliência. Este é o caso da avenida Ibitiguaia, no bairro Santa Luzia, na Zona Sul da cidade, onde o potencial econômico se mistura à construção de memórias por meio de histórias de amizade e superação. É nesta avenida que Renato Ribeiro abriu um sebo, que Patrícia Ribeiro fundou um salão de beleza e que Jovino Campos e Paulo Roberto Lopes estabeleceram uma unidade do Grupo Bahamas. A partir dessas iniciativas e de outros empresários, o comércio e os serviços se tornaram parte da identidade local. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Zona da Mata no WhatsApp De acordo com levantamento realizado pela Prefeitura de Juiz de Fora, 257 estabelecimentos comerciais e de serviços estão registrados na avenida Ibitiguaia. A maior parte deles (34) é vinculada à alimentação fora do lar. Em seguida, estão as categorias de transporte, estacionamento e logística; serviços automotivos; educação, capacitação e atividades esportivas; e comércio de veículos, autopeças e acessórios. 📊 Outros 17 seguimentos têm menos de dez estabelecimentos registrados junto ao Executivo Municipal. A professora da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e líder do grupo de pesquisa Comunicação, Cidade e Memória, Christina Musse, defende que as ruas e avenidas de uma cidade têm “alma própria”, que sobrevive às mudanças arquitetônicas, políticas e econômicas. “As relações econômicas de uma rua marcam a identidade dela [...]. Conhecer a cidade é perceber essas mudanças, encontros e rupturas, que, por obra do acaso ou não, acontecem nas ruas. O comércio, nesse aspecto, tem uma importância fundamental, crucial para nós mantermos vivas as nossas cidades.” Avenida Ibitiguaia; Juiz de Fora Arquivo/TV Integração Almeida Livros: mais que comércio, um guardião da história Proprietário de uma casa na avenida Ibitiguaia e leitor assíduo, Renato Ribeiro, de 82 anos, acumulava mais de 3 mil livros em uma biblioteca particular, na cobertura do imóvel. Mas uma chuva forte na década de 1990 deixou a casa destelhada, e apenas 600 livros resistiram à água. Naquela época, decidiu abrir um sebo para vender seus exemplares. Com as portas do comércio abertas, apareceram oportunidades para comprar livros e, assim, o sebo cresceu. Um cômodo da casa na avenida Ibitiguaia se tornou espaço para funcionamento do negócio. A história de Renato Ribeiro é marcada pela resiliência durante as fortes chuvas que atingiram o bairro Santa Luzia. Reprodução/Redes Sociais Mas as chuvas não ficaram restritas apenas à fundação do comércio. Renato recorda que, por volta de 2020, aconteceu “a maior enchente que tivemos”. Ele contabiliza cerca de 15 mil livros perdidos. Mas, naquele momento, o sebo já tinha se tornado uma ocupação para sua aposentadoria, e desistir não parecia uma opção. O comércio se tornou parte da identidade da avenida Ibitiguaia e, hoje, Renato conta que empresta muitos livros à vizinhança. “Às vezes, a pessoa chega e eu comento sobre livros, sobre um determinado assunto que eu conheço. Eu recomendo o livro à ela e, esse livro, eu empresto”. Mais do que a relação de consumo, o sebo Almeida Livros reúne a preservação da história e da memória sob a guarda de Renato, que conta, com orgulho, a importância de sua profissão. “O sebo é importante para a história. Porque, normalmente, os livros estão fora de catálogo ou não têm reedição. É muito livro que tem valor pelo conteúdo e valor histórico. E quem gosta, principalmente o pessoal mais antigo, que foi criado na dependência do livro para se informar, sempre lembra de um livro que leu.” ano Studio Patrícia Ribeiro: relações de proximidade constróem redes de apoio Patrícia Ribeiro conta que estabeleceu uma relação de parceira e amizade com suas clientes. Arquivo Pessoal/Patrícia Ribeiro A cabelereira Patrícia Ribeiro, 48 anos, inaugurou o Studio Patrícia Ribeiro em 2001, na avenida Ibitiguaia. O salão nasceu no mesmo ano em que seu filho e, desde então, a história do negócio, da família e da própria rua se entrelaçam em uma mesma trajetória. A empreendedora conta que a rede de apoio que se construiu na avenida faz com que os negócios se fortaleçam: um grupo nas redes sociais mantém a vizinhança informada em tempo real, e as conversas vão desde os impactos das chuvas às questões diárias dos comerciantes, como a necessidade de troco. E se engana quem acredita que a parceria é apenas entre os comerciantes. A cabeleireira se tornou amiga de seus clientes e reconhece que o tratamento e o cuidado são personalizados para cada um. “A pessoa entra e você fica sabendo tudo da vida dela ali, traz pra você alguma história. Aí você sofre junto ou, então, comemora alguma vitória da pessoa. Isso é bem legal. Vai além de ser só profissional”, afirma. Patrícia Ribeiro é proprietária de um salão de beleza na avenida Ibitiguaia Arquivo Pessoal/Patrícia Ribeiro Com saudade e carinho, Patrícia relembra a sua parceria com Dona Dodora, que morava em cima de seu salão de beleza: “Meu filho, quando pequeno, às vezes, ficava na casa dela. Ela pegava, dava banho, dava comida”. “A dona Dodora, na minha vida, ocupou uma parte muito importante. Meus filhos chamavam ela de vó, criamos um vínculo muito grande. Ela se transformou em avó dos meus filhos através do salão. Era muito carinhosa”, relembra. Grupo Bahamas: de mercado de bairro à rede de supermercados O bairro Santa Luiza também é o berço do grupo Bahamas, que figura entre as principais redes de supermercados do Brasil. No final de 1982, Jovino Campos e Paulo Roberto Lopes inauguraram o Ba’Hamas, botequim que daria origem aos empreendimentos do grupo. Primeira Unidade do Bahamas foi inaugurada no bairro Santa Luzia. Reprodução/Site Bahamas Desde o início da trajetória, os empreendedores reconheceram a importância estratégica de se fazer presente no comércio da avenida Ibitiguaia, local escolhido para abrir a segunda unidade do grupo: "A gente teve lá a segunda loja, entre [as avenidas] Ibitiguaia e Darcy Vargas, que é a ligação de Santa Luzia com o Bairro Ipiranga e hoje vários bairros que estão na redondeza. Antigamente, [no bairro] só tinha comércio praticamente na Ibitiguaia", relembra Paulo Roberto. O crescimento da unidade fez com que o supermercado precisasse mudar de ponto duas vezes, para espaços maiores, na avenida Ibitiguaia. Segundo ele, a escolha considera o fato de a avenida conectar o centro de Juiz de Fora a outros bairros da Zona Sul, sendo um polo atrativo aos moradores da região. Grupo Bahamas mantém unidade na avenida Ibitiguaia, em Santa Luzia Divulgação/Site Bahamas *Estagiária sob supervisão da editora Gracielle Nocelli. LEIA TAMBÉM: Vilas de Juiz de Fora resistem ao tempo e guardam memórias da cidade Veja o que não existia em Juiz de Fora há 10 anos, quando nascia o g1 Zona da Mata RELEMBRE: Chuva gera estragos e transtorno no Bairro Santa Luzia em Juiz de Fora Chuva gera estragos e transtorno no Bairro Santa Luzia em Juiz de Fora VÍDEOS: veja tudo sobre a Zona da Mata e Campo das Vertentes
