'A palavra me preservou': sobrevivente da ditadura encontra registro do próprio interrogatório na Unicamp
Sobrevivente da ditadura encontra registro do próprio interrogatório na Unicamp Durante décadas, Robêni Baptista da Costa carregou as lembranças da tortura sofrida durante a ditadura militar brasileira. Os choques elétricos, o medo e os interrogatórios nunca desapareceram da memória. O que ela não sabia era que parte dessa história também estava preservada em documentos guardados pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O reencontro com o passado aconteceu quando Robêni, hoje aposentada, conheceu a bibliotecária Joana Bernadete de Campos, a Jô, que trabalha na preservação de documentos históricos da universidade. Entre fotografias e papéis antigos, estava o registro de um dos interrogatórios sofridos durante o regime militar. "Eu nunca tinha visto. Então, eu estou muito emocionada. Estou muito emocionada. Porque em algum lugar, a palavra me preservou", disse Robêni, diante do documento. Naquele encontro, duas mulheres de Campinas (SP), até então desconhecidas uma da outra, tiveram as histórias entrelaçadas. Uma sobreviveu à violência da ditadura. A outra dedicou boa parte da vida a preservar registros capazes de impedir que experiências como aquela desapareçam. Esta reportagem faz parte da série “Unicamp 60”, produzida pela EPTV em comemoração às seis décadas da Universidade Estadual de Campinas. Exibida no EPTV 2, a produção reúne cinco episódios que mostram, por meio de pesquisas e histórias de vida, como a universidade transforma a sociedade e contribui para o desenvolvimento do Brasil. Reencontro com a própria história Robêni Baptista da Costa (à dir.), sobrevivente da ditadura militar, e Joana Bernadete de Campos, bibliotecária da Unicamp, durante encontro marcado pela descoberta de um registro histórico de interrogatório Reprodução/EPTV Robêni estudou na Unicamp durante a ditadura e participou, em 1974, de uma mobilização que descreve como a primeira greve estudantil da universidade naquele período. Mais de cinco décadas depois, encontrou nos arquivos um pedaço daquele passado que desconhecia. Ao agradecer à bibliotecária, não conseguiu esconder a emoção. "Eu fico feliz de saber que você existe, que você me proporcionou esse momento de reencontro com a minha história. É a minha história. Muito obrigada, Jô." LEIA TAMBÉM: Estudantes, operários, jovens e moradores das capitais: o perfil das vítimas da ditadura militar no Brasil Mais de 100 famílias recebem certidões de óbito corrigidas de mortos e desaparecidos políticos em cerimônia na USP Joana trabalha na Unicamp há 47 anos. Começou como servente e, depois de um concurso interno, chegou ao setor de arquivos, onde atua há 38 anos. É entre documentos antigos, alguns bastante deteriorados, que encontra satisfação no trabalho. Para Robêni, a dedicação de profissionais como ela tem um significado especial. "Ninguém pode dizer que a ditadura não existiu, né? E é o trabalho de vocês que permite que a gente continue existindo através dessa palavra", afirmou. Marcas da violência Robêni Baptista da Costa e a bibliotecária Joana Bernadete de Campos observam registro de interrogatório da aposentada durante a ditadura militar, preservado no acervo da Unicamp Reprodução/EPTV Parte das lembranças mais dolorosas de Robêni está ligada ao DOI-Codi, na Rua Tutóia, em São Paulo. O local foi um dos principais centros de repressão e tortura da ditadura militar e também onde o jornalista Vladimir Herzog foi assassinado, em 1975. Robêni esteve presa ali. Ao recordar a violência, descreveu os choques elétricos aplicados durante os interrogatórios. "Muito choque elétrico. A pior foi nas orelhas, eles colocam dois fios nas orelhas e a impressão que eu tenho até hoje é que o cérebro estava dentro de um liquidificador." Segundo a aposentada, a intensidade dos choques aumentava quando as respostas não correspondiam ao que os torturadores queriam ouvir. Décadas depois, o antigo centro de repressão passou a revelar vestígios do passado. Escavações arqueológicas com participação da Unicamp encontraram milhares de objetos e fragmentos, entre eles uma meia-calça com manchas e um colar havaiano. A arqueóloga Aline Vieira de Carvalho, da Unicamp, explica que esses materiais ajudam a reconstruir o cotidiano do local. Junto aos testemunhos de sobreviventes e aos documentos escritos, são evidências importantes para compreender a violência praticada durante a ditadura. Histórias que resistem ao tempo Joana Bernadete de Campos, bibliotecária da Unicamp, percorre o acervo histórico da universidade, onde trabalha há 38 anos na preservação de documentos Reprodução/EPTV Fundada em 1966, em pleno regime militar, a Unicamp preserva um amplo patrimônio documental. Seus acervos reúnem desde registros da história política brasileira até obras raras, como um manuscrito medieval com cantos litúrgicos do fim do século XIII. São diferentes épocas, personagens e formas de contar a história. Mas há algo em comum entre esses materiais: a possibilidade de manter vivas experiências que o tempo poderia apagar. "Um arquivo é o lugar onde a gente vai decidir quais mortos a gente vai ouvir. É um lugar de escuta dos mortos do passado", refletiu Gustavo Rossi, antropólogo e diretor do Arquivo Edgard Leuenroth (AEL), da Unicamp. Hoje, Robêni vive sozinha em uma pequena casa na região de Barão Geraldo, em Campinas, perto do Rio Atibaia. Diz gostar da tranquilidade do lugar. Mas sabe que a história vivida vai muito além das lembranças que carrega. Diante dos documentos preservados pela universidade, deixou uma pergunta sobre o futuro. "Eu espero que no momento em que eu vá-me embora, e que vai ser logo, que alguém conte a minha história. Quem será que vai contar a minha história?" VÍDEOS: tudo sobre Campinas e região Veja mais notícias sobre a região no g1 Campinas
