Lula enfrentará Congresso à direita, crise no STF e precisará conciliar promessas com economia no 4º mandato
Entenda os desafios de Lula em seu 4º mandato Reeleito para um quarto mandato, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) terá pela frente o desafio de governar com um Congresso com maioria da oposição, lidar com uma crise interna no Supremo Tribunal Federal (STF) e conciliar promessas de campanha com equilíbrio fiscal. A articulação política para aprovar propostas no Legislativo, a relação com o Judiciário e a condução da política econômica estarão entre os principais pontos de atenção de um novo ciclo do governo, que começa em janeiro de 2027. Lula discursa na avenida Paulista REUTERS Na Câmara dos Deputados e no Senado, o fortalecimento do PL e a presença de partidos de direita devem exigir do Planalto novas negociações para formar maiorias. LEIA TAMBÉM: Reeleito para quarto mandato, Lula terá Congresso com maioria da oposição e precisará negociar para aprovar projetos No STF, Lula terá de lidar com divergências entre ministros em um momento de desgaste e questionamentos sobre a atuação da Corte. Ao longo do quarto mandato, o presidente também poderá indicar quatro ministros para o tribunal, o que terá impacto sobre a composição do Supremo nos próximos anos. Lula também terá de ampliar o diálogo com o Centrão, que não se sentiu plenamente contemplado na composição política do atual governo, e buscar apoio entre parlamentares que, mesmo pertencendo a partidos que apoiaram Flávio Bolsonaro (PL), optaram por Lula ou não seguiram a orientação das próprias legendas. Na economia, o petista terá de conciliar as promessas de campanha com a necessidade de equilibrar as contas públicas e estimular o crescimento. A dívida pública em alta, os juros elevados e a inflação resistente estão entre os desafios apontados por economistas para o quarto mandato. O governo também precisará encontrar espaço no Orçamento para financiar programas sociais e novas medidas, em um cenário de desaceleração da atividade econômica e de pressão por um plano fiscal capaz de conter o avanço do endividamento (veja detalhes abaixo). Dólar opera em alta e vai a R$ 5,60 após vitória de Lula; Ibovespa cai mais de 16% após 'circuit breaker' Crise no STF Outro desafio de Lula será lidar com a crise interna no Supremo Tribunal Federal (STF), que vive um período de divergências entre ministros. No próximo mandato, o presidente também deve quatro integrantes da Corte, o que pode influenciar a composição do tribunal e seu funcionamento nos próximos anos. A previsão das quatro indicações considera a vaga aberta com a aposentadoria de Luís Roberto Barroso e as aposentadorias compulsórias previstas de Luiz Fux, em 2028, Cármen Lúcia, em 2029, e Gilmar Mendes, em 2030. As escolhas terão de considerar o peso institucional do STF e o impacto político das indicações, em um cenário de tensão entre integrantes da própria Corte e de questionamentos sobre a atuação do Judiciário. Em suas manifestações durante a campanha, o petista defendeu uma reforma no Judiciário, "para que o povo possa continuar acreditando na Justiça", afirmou. O racha no STF tem sido exposto por divergências entre ministros sobre a condução de investigações relacionadas ao Banco Master e sobre a divulgação de informações dos inquéritos. A crise ganhou força no início de setembro, após a divulgação de um relatório da Polícia Federal (PF) sobre mensagens trocadas entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do extinto Banco Master, e o ministro Alexandre de Moraes. Os desdobramentos das investigações levaram a decisões conflitantes de integrantes do Supremo e exigiram a intervenção do presidente da Corte, Edson Fachin. Em meio à crise, Fachin defendeu uma resposta institucional aos fatos e afirmou que nenhuma autoridade está acima da Constituição. Lula, por sua vez, defendeu que todos os envolvidos sejam investigados, "sem blindagem de ninguém", e passou a defender mudanças no Judiciário. Congresso mais à direita O quarto mandato de Lula começará com o desafio de negociar com um Congresso mais conservador e com o PL, partido de Flávio Bolsonaro, fortalecido nas duas Casas. O PL terá 121 deputados e 29 senadores a partir de 2027. Ao mesmo tempo, o PT e os partidos aliados terão menos espaço no Congresso, o que obrigará Lula a buscar votos fora de sua base para aprovar propostas. Esse apoio será especialmente importante entre os partidos de centro. PP, União Brasil, Republicanos, Podemos e Novo apoiaram Flávio Bolsonaro no segundo turno. Juntas, as cinco siglas somam 245 deputados e 51 senadores. Isso não significa, porém, que esses parlamentares formarão automaticamente um bloco de oposição. A composição do Congresso aumenta a importância da negociação do governo com essas legendas para construir maiorias em votações. O tamanho do desafio varia de acordo com a proposta. Na Câmara, por exemplo, um projeto de lei complementar precisa de 257 votos para ser aprovado. Uma proposta de emenda à Constituição (PEC), que modifica a Constituição, exige ao menos 308 votos favoráveis. No Senado, são necessários, respectivamente, 41 e 49 votos. No discurso após a vitória, Lula reconheceu que terá de negociar com o Congresso eleito, mas minimizou as dificuldades. O presidente afirmou que os parlamentares foram escolhidos pela população e que pretende trabalhar com deputados e senadores para aprovar suas propostas. A relação com o Centrão, portanto, deverá ser um dos pontos centrais da articulação política do próximo governo. Lula também terá de reconstruir pontes com partidos e lideranças que ficaram afastados do Planalto durante o atual mandato ou que não integraram formalmente sua base. Outro fator importante será a definição do comando do próprio Congresso. As presidências da Câmara e do Senado serão disputadas em fevereiro de 2027, no início da nova legislatura. Os atuais presidentes das duas Casas, Hugo Motta (Republicanos-PB) e Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), sinalizaram disposição para trabalhar com Lula após o resultado da eleição. Motta afirmou que o presidente terá apoio para pautas voltadas a melhorar a vida da população. Alcolumbre disse que o Congresso terá uma atuação voltada à pacificação. Motta e Alcolumbre articulam ainda a permanência à frente de suas respectivas Casas. O resultado dessas disputas será importante para o Planalto porque os presidentes da Câmara e do Senado têm poder para definir quais propostas entram na pauta de votação. Ao mesmo tempo, o PL tenta ampliar seu espaço no comando do Congresso. Na Câmara, Motta buscou apoio de partidos do centro e da esquerda diante do crescimento da bancada do PL. No Senado, Alcolumbre também articula sua reeleição, enquanto o PL indicou que pretende disputar o comando da Casa. A composição dessas forças será uma das primeiras medidas da capacidade de Lula de construir uma base política para o novo mandato e avançar com sua agenda no Congresso. Promessas e economia Na economia, um dos principais desafios do quarto mandato de Lula será conciliar as promessas feitas durante a campanha com a necessidade de equilibrar as contas públicas e manter o crescimento. O novo governo começará em um cenário de dívida pública elevada, juros altos e pouco espaço disponível no Orçamento. Economistas ouvidos pelo g1 avaliam que, sem um plano capaz de conter o avanço do endividamento, essas condições podem limitar o consumo das famílias e os investimentos das empresas. A dívida bruta chegou a R$ 11,1 trilhões em agosto de 2026, o equivalente a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB). Ao mesmo tempo, 90% dos R$ 2,8 trilhões previstos para as despesas primárias de 2027 já estão comprometidos com aposentadorias, salários, benefícios sociais e outros gastos obrigatórios. Na prática, isso significa que sobra pouco espaço para despesas sobre as quais o governo tem maior liberdade de decisão, como investimentos e a criação ou ampliação de programas públicos. Durante a campanha, Lula prometeu ampliar o Bolsa Família, oferecer transporte público gratuito aos fins de semana, manter a política de valorização do salário mínimo e aumentar os investimentos públicos. As medidas podem sustentar a renda das famílias e estimular a atividade econômica. Mas, sem novas fontes de receita ou cortes em outras áreas, também podem aumentar a pressão sobre o Orçamento e a dívida pública. A condução das contas públicas também influencia os juros. Quando investidores avaliam que a dívida pode continuar crescendo sem uma perspectiva clara de estabilização, podem exigir uma remuneração maior para financiar o governo. Juros elevados encarecem empréstimos e financiamentos. Com isso, as famílias tendem a reduzir o consumo ou adiar compras de maior valor, enquanto empresas podem postergar investimentos. Esse movimento limita o crescimento da economia e a geração de renda. A preocupação com a condução das contas públicas também se refletiu no mercado financeiro após a eleição. Segundo Juliano de Lara Fernandes, da Armada Asset, o resultado das urnas e a perspectiva de manutenção dos juros elevados provocaram uma reavaliação dos ativos brasileiros. “Essa queda de 16% do Ibovespa está diretamente relacionada à ruptura da expectativa de eleição de Flávio Bolsonaro, que vinha acompanhada de uma promessa de controle fiscal e queda dos juros”, afirmou. Na avaliação do gestor, enquanto o novo governo não apresentar uma sinalização sobre a condução da política fiscal, a Bolsa poderá continuar refletindo a perspectiva de juros elevados, aumento dos custos das empresas e redução dos lucros. A economista Tatiana Goes também afirma que o comportamento dos ativos nas próximas semanas dependerá das sinalizações do governo, das negociações com o Congresso, do cenário externo e, sobretudo, da credibilidade das medidas fiscais. "Entre as principais dúvidas está a capacidade de compatibilizar compromissos de campanha, programas sociais e investimentos públicos com uma trajetória sustentável de dívida. Há argumentos econômicos favoráveis a políticas que sustentem renda, consumo e atividade; o desafio é definir fontes de financiamento, prioridades e regras previsíveis", afirma. O desafio fiscal não apaga os resultados positivos registrados no terceiro mandato de Lula. A economia cresceu por três anos consecutivos, o desemprego atingiu mínimas históricas e a renda média do trabalho avançou. A melhora, porém, não chegou da mesma maneira a todos os brasileiros. O custo de vida, o endividamento das famílias e os juros elevados continuaram pressionando o orçamento doméstico. Em julho de 2026, as famílias destinavam 28,7% da renda mensal ao pagamento de dívidas. O desafio do quarto mandato será, portanto, sustentar o crescimento e financiar as políticas públicas sem alimentar um ciclo de aumento da dívida, manutenção dos juros elevados e perda de espaço para investimentos.
