CFP pede maior fundamentação de previsões económicas e análise aprofundada dos riscos económicos
O Ministério das Finanças prevê que o Produto Interno Bruto (PIB) cresça 5,6% em termos reais em 2027, com uma inflação média anual de 2%. O CFP apresenta um cenário ligeiramente mais moderado, antecipando um crescimento de 5,3% e uma inflação de 2,2%. A previsão governamental para o crescimento supera as estimativas do Fundo Monetário Internacional (FMI), que aponta para 5%, e do Banco de Cabo Verde (BCV), que prevê uma expansão de 4,9%. Para o CFP, esta diferença reforça a necessidade de explicitar melhor os factores que sustentam o cenário do Governo, nomeadamente a evolução do turismo, do investimento e da procura interna. Apesar de considerar as projecções oficiais globalmente plausíveis, o Conselho sublinha que a concretização do crescimento previsto dependerá da evolução da conjuntura internacional e da capacidade da economia cabo-verdiana para resistir a choques adversos. A dependência das importações de combustíveis e produtos alimentares torna o país particularmente vulnerável às variações dos preços internacionais. O relatório destaca que, entre Julho e Outubro de 2026, a gasolina aumentou 21,7%, o gasóleo normal 36% e o gasóleo destinado à produção de electricidade 40,9%, evolução que poderá pressionar os custos de transporte, produção e energia, com consequências para a inflação e o poder de compra das famílias. O cenário de risco apresentado pelo próprio Ministério das Finanças prevê que, perante condições adversas, o crescimento económico abrande para 3%, enquanto a inflação poderá subir para 4,2%. Segundo o CFP, a materialização destes riscos poderá reduzir a arrecadação fiscal, aumentar as necessidades de financiamento do Estado e dificultar a redução da dívida pública. Dívida pública deverá baixar para 90,4% do PIB No plano orçamental, as Directrizes do OE2027 apontam para a redução do défice de 1,9% do PIB, previsto para 2026, para 1% em 2027. O rácio da dívida pública deverá igualmente diminuir, passando de 94,1% para 90,4% do PIB. O CFP considera favorável esta trajectória, mas adverte que a sua concretização dependerá do crescimento nominal da economia, do desempenho das receitas e da capacidade de controlar a despesa corrente. A instituição chama ainda a atenção para os riscos associados às empresas públicas e a outras responsabilidades contingentes do Estado. Num cenário adverso, a dívida pública poderá aumentar significativamente, evidenciando a sensibilidade das contas públicas a uma desaceleração económica. Por isso, o Conselho defende que as projecções orçamentais sejam acompanhadas de análises de sensibilidade que permitam avaliar os efeitos de diferentes cenários de crescimento, inflação e preços da energia. Turismo continua a ser uma vulnerabilidade O sector externo deverá manter uma posição favorável em 2027. O Governo prevê um excedente da balança corrente equivalente a 2,5% do PIB, acima dos 2,1% estimados para 2026, e reservas internacionais suficientes para cobrir 8,6 meses de importações, face a 8,4 meses no ano anterior. As receitas brutas do turismo deverão representar cerca de 23% do PIB, enquanto as remessas dos emigrantes deverão corresponder a 11,1%. Contudo, a concentração das receitas externas nestas fontes mantém o país exposto a uma eventual redução da procura turística, das remessas ou do investimento estrangeiro. O CFP considera, por isso, importante que a previsão de crescimento seja sustentada por pressupostos claros sobre a procura turística, a capacidade de alojamento, as receitas por visitante e o investimento associado ao sector. Recomenda também que os investimentos públicos privilegiem projectos com maior retorno económico e social, capazes de aumentar a produtividade e contribuir para a diversificação da economia. No mercado de trabalho, as Directrizes apontam para uma taxa de desemprego de 5% em 2027. O Conselho alerta, contudo, que a redução do desemprego deve ser analisada em conjunto com a evolução da população activa e dos fluxos migratórios, uma vez que a emigração e a diminuição da mão de obra disponível podem influenciar o indicador sem traduzirem necessariamente uma expansão das oportunidades de emprego. Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1299 de 21 de Outubro de 2026.
