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Economia Marítima em São Vicente. Avanços, dificuldades e potencial adiado

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Em São Vicente, o diagnóstico da economia marítima varia conforme o sector e o protagonista, mas converge na ideia de que ainda há muito por fazer e aproveitar. A visão, as promessas e as reclamações não são de hoje e têm atravessado diversos governos, de diferentes cores políticas. Jorge Maurício, presidente da Câmara de Comércio de Barlavento (CCB) , identifica mudanças concretas na expansão dos portos, nos novos terminais e na organização logística, com operadores mais especializados. “Há alguma especialização de serviços. Há serviços ligados ao transporte marítimo internacional, há o transporte marítimo nacional também de forma dedicada”, afirma. O presidente da CCB atribui à iniciativa privada um papel central e aponta os projectos da Fazenda do Camarão e da Nortuna como exemplos positivos de diversificação da actividade. Contudo, reconhece margem de crescimento. “Na área da reparação naval há muita margem de crescimento, há muita coisa que se pode fazer. Na área da pesca semi-industrial e industrial também é preciso fazer. Na área da regulação técnica e económica é preciso actualizar. Na legislação marítima, principalmente, termos uma legislação costeira nacional, que é um pedido urgente de todos os armadores de marinha mercante, que têm dificuldades tanto na gestão dos navios, como na gestão das suas tripulações”, exemplifica. Pescas É na pesca nacional que João de Deus Júnior concentra as preocupações. O armador nota que mudanças de orientação e de responsáveis interrompem sistematicamente o trabalho iniciado e defende um entendimento alargado para que as políticas possam ter continuidade. “O que falta é a vontade política dos sucessivos governos. É investir claramente numa política empresarial. Aqui estou a falar concretamente da armação nacional”, sustenta. Na sua avaliação, os problemas de escoamento de pescado contribuem para enfraquecer os armadores de São Vicente. “Tem de se fazer um levantamento urgente para perceber o que está a passar. Porque o país e os armadores nacionais, principalmente do Norte, estão a perder pujança económica e financeira. E ninguém está a ver esta situação”, alerta. O empresário pede que o Governo se sente com os armadores e as suas organizações para resolver os problemas. Defende apoio à capacidade de captura e à exportação, perante a reduzida dimensão do mercado interno. Considera que os estudos existentes já permitem orientar decisões e insiste na aplicação do conhecimento acumulado. Portos O novo presidente do conselho de administração da ENAPOR, Hamir Inocêncio, reconhece que a localização estratégica de Cabo Verde é invocada há muitos anos. Defende, por isso, que o país precisa de infra-estruturas e de parceiros comerciais para captar carga internacional e desenvolver o seu potencial, nomeadamente no transbordo de contentores. “Nós estamos perto de Dakar, estamos perto da Guiné e não rentabilizamos essa localização”, nota. O responsável recorda a previsão de um cais de transbordo na zona do Lazareto e realça a importância de se identificar um parceiro “forte”. “Há investimentos, falta é ter uma parceria pública ou privada forte, em que consigamos atrair um operador com o mercado, com a mercadoria e o negócio que posiciona Cabo Verde como alavanca da economia no hub da África Ocidental”, considera. Nas pescas, a ENAPOR prevê um cais dedicado, integrado no projecto de expansão do Porto Grande. Formação O desenvolvimento das actividades da economia marítima também depende da disponibilidade de profissionais. Nilton Silva, presidente do conselho de administração da Escola do Mar (EMAR), coloca a qualificação entre as condições para aproveitar as oportunidades económicas ligadas ao oceano. “Não há economia azul sem formação, porque nós temos que educar, formar, para depois aproveitar esse mar de oportunidades que é o nosso mar”, sublinha. O responsável identifica a soldadura naval como uma área em que é necessário formar trabalhadores, perante o envelhecimento dos profissionais existentes. A escola pretende desenvolver formação ligada à digitalização e à futura automatização dos portos e à logística dos armazéns portuários. Para definir a oferta, prepara uma mesa-redonda com agentes do sector. “Queremos alargar este leque de formação, porque é preciso adaptar as formações ao mercado, adaptar as formações às necessidades das empresas”, explica. Na semana passada, durante a abertura da ExpoMar, em São Vicente, o ministro da Cultura, Indústrias Criativas, Juventude e Desporto, António Duarte, em representação do Governo, defendeu a transformação do potencial marítimo em investimento, emprego e rendimento para as famílias. Apontou a necessidade de qualificação profissional e de modernização das infra-estruturas. “O nosso verdadeiro desafio não consiste apenas em reconhecer essa riqueza, consiste em transformá-la em valor económico, em oportunidades de investimento, em empregos dignos, em rendimento para as famílias e em melhores condições de vida para os cabo-verdianos”, disse. Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1299 de 21 de Outubro de 2026.

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