Revista Artiletra celebra, esta quinta-feira, 35 anos com lançamento de número temático
A revista Artiletra assinala 35 anos de existência, um percurso invulgarmente longo para uma publicação cultural em Cabo Verde. Que vazio procurou a revista preencher em Abril de 1991? Tentamos preencher o vazio da não existência de uma publicação cultural, mais ligada à educação, à infância e à juventude. Não tínhamos nenhum jornal, nenhuma revista que se dedicasse exclusivamente a uma área que fosse muito interessante para as crianças e para a juventude. Outros países tinham essa possibilidade, mas Cabo Verde, um país de fracos recursos e também com poucos hábitos de leitura, não tinha esses periódicos. Por isso, a Artiletra desde o primeiro número teve uma banda desenhada como conteúdo pedagógico. Depois oferecemos vários jornais para escolas, primeiramente de São Vicente e de Santo Antão e vimos um brilho nos rostos dos meninos. Eles adoravam ler e fazer depois perguntas. Então isso provocou-nos uma grande satisfação quando vimos os resultados. Registamos também com grande satisfação quando vimos grandes nomes da literatura cabo-verdiana da geração de Félix Monteiro, de Gabriel Mariano, de Mesquitela Lima, de Francisco Lopes da Silva, de Francisco Fragoso publicando nas páginas da Artiletra ao lado de jovens que tinham entre 15 e 16 anos. Claro, não falamos também da geração de 30, 40 anos, idade que nós tínhamos naquela altura, já lá vão mais de 30 anos. Mas é interessante essa união das gerações à procura do belo, à procura de conhecimento. Que balanço faz dos 35 anos de publicação da Artiletra? Se falarmos de sacrifícios, foram 35 anos de sacrifícios enormes. Se falarmos de desafios, conseguimos vencer vários desafios. Se falarmos dos resultados, pelo que tenho sempre ouvido, foram satisfatórios. Possivelmente não conseguimos fazer tudo aquilo com que sonhámos, mas conseguimos fazer várias coisas. Como o presidente da Fundação Eugénio Tavares disse, ressuscitamos Eugénio Tavares e desde 1993-94 devolvemos a vida e obra de Eugénio Tavares a Cabo Verde. Para o grande público ele era uma pessoa desconhecida. Também devolvemos à sociedade cabo-verdiana o jornalista e escritor Luís Loff de Vasconcelos. O Dia Nacional do Jornalista celebra-se a 5 de Janeiro, data do seu nascimento. Também o Dia Nacional da Cultura e das Comunidades é 18 de Outubro, que descobrimos naquela altura, portanto o dia do nascimento de Eugénio Tavares. Manter uma publicação cultural durante mais de três décadas não terá sido tarefa fácil. Quais foram as maiores dificuldades ao longo deste percurso e como conseguiu a Artiletra ultrapassá-las? Algumas vezes através de créditos, outras vezes só com persistência, reduzindo a equipa e convidando, como no tempo antigo, grandes escritores a publicar na revista os seus artigos. Manter o jornal durante 35 anos é quase um milagre e uma missão impossível, mas aconteceu. Às vezes, o jornal não saía, porque a periodicidade dos jornais culturais é muito difícil de se manter em Cabo Verde. Uns prometem e não cumprem; este é um dos nossos grandes defeitos em Cabo Verde. Podia citar 10 grandes nomes da literatura cabo-verdiana que colaboram ou colaboraram na revista? Muitos. Arnaldo França, Santa Rita Vieira, Teixeira de Sousa, Manuel Ferreira, João Vário, Gabriel Mariano, Mesquitela Lima, João Lopes Filho, Félix Monteiro, Francisco Lopes da Silva, Osvaldo Osório, João Baptista Rodrigues, Pedro Gregório, Jorge Carlos Fonseca, Arménio Vieira, Valentinous Velhinho, Manuel Figueira, Tchalé Figueira, Vera Duarte, Luísa Queirós, Henrique Oliveira Barros, Carlota de Barros entre outros. Que projectos e prioridades gostaria de concretizar nos próximos anos? Vai depender dos financiamentos. Muitos serviços e empresas preferem hoje publicitar nas redes de comunicação digitais porque lhes garantem maior visibilidade. Por isso nós temos que aprender, outra vez, a cultivar a verdadeira leitura. E isso começa desde a infância. As pessoas desde pequenas vão procurar, vão sentir sabor de folhear um livro, um jornal. Não é por acaso que a Artiletra também publica normalmente apenas livros de poesia. Poesia não é uma área comercial. Mas o que será do homem sem poesia, sem arte e sem cultura? Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1299 de 21 de Outubro de 2026.
