Acidente Voepass: quem são os denunciados pelo desastre aéreo que matou 62 pessoas em Vinhedo
Escombros de avião em Vinhedo (SP) neste sábado, dia 10 de agosto de 2024 Nelson Almeida/AFP Profissionais com experiência e formação no setor da aviação e engenharia aeronáutica estão entre os 12 funcionários e executivos da Voepass denunciados pelo Ministério Público Federal (MPF) pelo desastre aéreo que matou 62 pessoas em agosto de 2024. ➡ O MPF informou, nesta quarta-feira (21), que a denúncia foi aceita pela Justiça Federal, e os 12 denunciados se tornaram réus. Eles vão responder por crimes de atentado contra a segurança do transporte aéreo e sinistro em transporte aéreo. Entre os responsabilizados estão o dono da companhia de Ribeirão Preto (SP), José Luis Felicio Filho, e o diretor de manutenção Eric Cônsoli, apontado por ex-funcionários como uma figura de grande influência dentro da empresa antes da crise provocada pela queda do avião e do encerramento das atividades. Justiça torna réus 12 denunciados por queda de avião da Voepass que matou 62 pessoas 🔎 O atentado contra a segurança do transporte aéreo é previsto no artigo 261 do Código Penal. O crime ocorre quando alguém expõe a perigo uma aeronave ou dificulta, ou impede a navegação aérea. A pena prevista é de 2 a 5 anos de prisão. Se do fato resulta a queda ou destruição da aeronave, a pena passa para 4 a 12 anos. Se houver morte, a pena pode ser aplicada em dobro. Nos tópicos a seguir, veja quem são os denunciados pelo MPF após a queda do voo 2283: José Luiz Felício Filho Marcel Sarquis Moura Raphael Limongi de Figueiredo Rafael Gimenez Rodrigues Eric Cônsoli David da Costa Faria Neto Tiago Passucci Morani Marcos Hiroyuki Sato Alex de Souza Leandro William Schmidt Agatz Juliano Flores Pacheco Carlos Alberto Costa O que dizem os denunciados O que diz a Voepass Arte mostra quem são os 12 denunciados pelo MPF após queda do voo 2283 em Vinhedo (SP) Arte/g1 José Luiz Felício Filho Comandante Felício, presidente da Voepass, em primeiro pronunciamento após acidente Reprodução/Voepass Empresário e piloto comercial há mais de 30 anos, é o proprietário e o principal gestor da companhia desde os anos 2000, quando o pai, fundador da empresa, antiga Passaredo Transportes Aéreos, deixou o comando. Ao assumir o controle acionário e a gestão executiva da Passaredo, liderou reestruturações importantes, como o processo de recuperação judicial entre 2012 e 2017 e a aquisição da MAP Linhas Aéreas em 2019, quando a marca foi reformulada para Voepass. Após a tragédia em Vinhedo, voltou à liderança executiva direta da empresa, exonerando diretores. Como diretor presidente e acionista majoritário, foi indiciado por ter ciência da cultura de omissão. Em termos práticos, essa omissão dolosa, segundo a PF, permitiu que aeronaves inseguras operassem em rotas com previsão de gelo severo. Marcel Sarquis Moura Marcel Moura, diretor da de operações Voepass Acervo/EP Com experiência como piloto comercial e como instrutor, era o diretor de operações da companhia aérea do interior de São Paulo. Natural de Chapecó (SC), iniciou o curso de piloto em 1994 e ingressou na aviação comercial em 2000. Possui 30 anos de experiência, tendo atuado como copiloto, comandante, instrutor de voo e examinador. Trabalhou por 14 anos em uma fabricante de aviões brasileira, com experiência em voos internacionais em diversos países. Ingressou na Voepass em 2022, a convite do presidente da empresa, na diretoria de operações, departamento que tinha a função de assegurar que todos os procedimentos estivessem em conformidade com as legislações e protocolos nacionais e internacionais. Foi indiciado por não garantir que as operações seguissem as normas de segurança. Como gestor, era o responsável por setores que ignoraram restrições técnicas graves da aeronave acidentada, tendo inclusive respondido pessoalmente à Anac sobre falhas anteriores no mesmo avião, segundo a PF. Raphael Limongi de Figueiredo Raphael Limongi de Figueiredo, indiciado no inquérito da PF sobre a queda do voo 2283 da Voepass Reprodução Com mais de 15 anos de experiência na aviação civil nacional e internacional, foi chefe dos pilotos da Voepass até o fim de julho de 2024, quando foi substituído por Rafael Gimenez Rodrigues. Antes, também atuou como gestor da divisão de Garantia de Qualidade Operacional de Voo. Com a exoneração de Marcel Moura em setembro de 2024, Limongi foi alçado ao posto de diretor de Operações da Voepass. Segundo a Polícia Federal, é suspeito de usar a autoridade que tinha para forçar a operação de aeronaves inoperantes. Rafael Gimenez Rodrigues Rafael Gimenez Rodrigues, indiciado no inquérito da PF sobre a queda do voo 2283 da Voepass Reprodução Nomeado chefe dos pilotos no fim de julho de 2024, era encarregado de acompanhar os padrões de padronização operacional e escalas dos profissionais da companhia. Formado em 2021 em ciências aeronáuticas em Santa Catarina, escreveu na conclusão de curso uma monografia analisando fatores de risco associados à jornada de trabalho de tripulantes técnicos e a prevenção de acidentes aeronáuticos. Foi indiciado por participar da omissão sistêmica de reportes de panes e pela promoção irregular de comandantes sem experiência mínima exigida. Eric Cônsoli Eric Cônsoli, indiciado pela PF no inquérito da queda do voo 2283 da Voepass Reprodução/Linkedin Engenheiro aeronáutico formado em 2002, ingressou em 2010 na Passaredo (antigo nome da Voepass), onde ocupou os cargos de diretor de Frota, Logística e compras, além de diretor de manutenção da companhia, posição que deixou em setembro de 2024, após 15 anos à frente da área, quando foi um dos demitidos por Felício após o desastre aéreo. Segundo ex-funcionários da companhia, Eric era uma figura de grande influência dentro da companhia. Ele foi um dos executivos da companhia a prestar depoimento em uma comissão aberta na Câmara dos Deputados, em 2024, para investigar o acidente. Na oportunidade, ele afirmou que sempre trabalhou para garantir que todas as aeronaves voassem com 100% de condição de navegabilidade, seguindo rigorosamente os manuais dos fabricantes e as regras dos órgãos reguladores. Na época, ele também garantiu que a empresa passava por inspeções periódicas da Anac e por auditorias externas voluntárias da IATA. Segundo registros fiscais, Eric Cônsoli é dono da RP Aviation, criada em julho de 2025 e com funcionamento no mesmo hangar que antes era da Voepass. Segundo dados da Receita Federal, a empresa é de atividades auxiliares dos transportes aéreos, exceto operação dos aeroportos e campos de aterrissagem. No entendimento da PF, ele foi identificado como um dos diretores que ligavam para as equipes de pista para pressionar pela liberação de aviões inoperantes. David da Costa Faria Neto David da Costa Faria Neto, indiciado no inquérito da PF sobre a queda do voo 2283 da Voepass Reprodução Com mais de 50 anos de aviação, iniciou a carreira na Força Aérea Brasileira (FAB) aos 15 anos, onde permaneceu por 30 anos. Além disso, trabalhou na Agência Nacional de Aviação Civil por quatro anos. Na Voepass, atuou como diretor de Segurança Operacional da Voepass de 2016 até setembro de 2024, quando foi demitido por Felício. Ele também foi um dos representantes da empresa que, em 2024, prestou depoimento a uma comissão na Câmara dos Deputados, ocasião em que confirmou ter participado de todas as tratativas de apoio aos familiares das vítimas e reiterou boas práticas da empresa com relação à manutenção das aeronaves. Faria Neto foi indiciado por permitir que o sistema de gerenciamento de segurança operacional funcionasse sem efetividade prática de investigação. Na prática, segundo a PF, a diretoria falhou ao não identificar nem corrigir a sistemática de não se reportar falhas, o que foi central para a queda da aeronave. Tiago Passucci Morani Tiago Passucci Morani, indiciado no inquérito da PF sobre a queda do voo 2283 da Voepass Reprodução Com formação técnica em manutenção aeronáutica, era o inspetor chefe da companhia e credenciado pela Anac para liberar as aeronaves ATR 72 e a atestar suas condições de uso. O nome dele também consta como sócio-administrator de empresas nas áreas de comércio e importação e de serviços administrativos. Morani assinou liberações técnicas de aeronaves sem possuir a habilitação exigida e estava ciente das panes crônicas no sistema de degelo, de acordo com a PF. Marcos Hiroyuki Sato Marcos Hiroyuki Sato, indiciado no inquérito da PF sobre a queda do voo 2283 da Voepass Reprodução Era despachante operacional de voo e foi indiciado por autorizar o despacho da aeronave no voo do acidente contrariando regras objetivas da MEL sobre o limpador de para-brisa inoperante. Alex de Souza Leandro Alex de Souza Leandro, indiciado no inquérito da PF sobre a queda do voo 2283 da Voepass Reprodução Técnico de manutenção da Voepass, ele assinou o fechamento da lista de ações corretivas retardadas (ACR) e o "daily check" (inspeção diária) da aeronave no dia 9 de agosto de 2024. O laudo observa que, nas fichas por ele assinadas, não constavam as falhas de degelo ocorridas nos voos anteriores daquele mesmo dia, pois não haviam sido lançadas pelos pilotos. Ele foi indiciado por assinar a liberação técnica da aeronave sem realizar os testes obrigatórios e ignorando alertas verbais diretos sobre falhas no sistema de degelo. Assim, segundo a PF, ele permitiu que o avião operasse com um sistema crítico inoperante para ceder à pressão de não atrasar a malha aérea. William Schmidt Agatz William Schmidt Agatz, indiciado no inquérito da PF sobre a queda do voo 2283 da Voepass Reprodução Agatz era gerente do centro de controle operacional da Voepass e considerado uma peça central na cadeia de decisão das operações, como um elo entre a diretoria, o centro de controle de manutenção e os despachantes para decidir quais aeronaves operariam ou seriam retidas para manutenção. Segundo a PF, Agatz sabia da prática sistemática de mascarar falhas técnicas, mas se omitiu por não impedir a liberação das aeronaves, mesmo também tendo poder decisório. Juliano Flores Pacheco Juliano Flores Pacheco, indiciado no inquérito da PF sobre a queda do voo 2283 da Voepass Reprodução Atuava como gerente do centro de controle de manutenção, sendo o superior direto dos mecânicos de pista. Mesmo com sua licença de mecânico cassada pela Anaca desde 2022 por irregularidades técnicas, ele continuava na chefia do setor. Segundo a apuração da PF, Pacheco exercia pressão sobre mecânicos para liberarem aeronaves com defeitos e autorizou liberações baseadas em capítulos falsos da Lista de Equipamentos Mínimos para forçar voos irregulares. Carlos Alberto Costa Carlos Alberto Costa, indiciado no inquérito da PF sobre a queda do voo 2283 da Voepass Reprodução Costa era diretor de manutenção da companhia, integrando a alta direção técnica, e era o responsável pela supervisão direta do centro de controle de manutençãoi e do setor de confiabilidade (SASC). Segundo a PF, ele foi indiciado por omissão na posição de garantidor da segurança da frota, permitindo que deficiências crônicas como as falhas no sistema de degelo fossem mascaradas por manipulações de procedimentos, renovações artificiais de prazos de manutenção e até o uso de peças de sucata para simular trocas de componentes. O que disseram os indiciados durante as investigações A reportagem não conseguiu falar com as defesas dos indiciados até a última atualização desta notícia. Veja o que eles disseram durante as investigações da Polícia Federal: José Luiz Felício Filho: admitiu ter ciência da cultura de omissão de reportes de panes, revelando inclusive que diretores da Anac o alertaram pessoalmente sobre esse padrão de conduta dos pilotos ao longo dos anos. Ele também reconheceu que a aeronave não deveria estar nas condições técnicas em que se encontrava, nem deveria ter sido despachada para aquela rota, embora tenha alegado que sua equipe de segurança operacional trabalhava apartada das decisões diárias. Marcos Hiroyuki Sato: justificou o despacho da aeronave com o limpador de para-brisa inoperante alegando que o aeródromo alternativo não tinha previsão de chuva, mas admitiu que autorizou o voo para evitar transtornos logísticos e financeiros à Voepass, pois manter o avião parado em Cascavel causaria um cancelamento de pelo menos 12 horas por falta de tripulação no local. Alex de Souza Leandro: negou ter recebido qualquer relato verbal de seus auxiliares sobre a pane no sistema de degelo reportada pelo comandante Serra na madrugada do acidente. Apesar de ter assinado a liberação da aeronave no "daily check", alegou que, como o piloto não havia feito anotações formais no livro, a aeronave estava apta para o serviço, versão que foi contestada pelos testemunhos de seus subordinados. Raphael Limongi de Figueiredo: negou em depoimento ter conhecimento das falhas intermitentes no sistema de degelo da aeronave antes do acidente. Marcel Sarquis Moura: alegou em sua defesa que sua função na diretoria era apenas prover facilidades logísticas, e que a responsabilidade técnica pelas operações e tripulações cabia ao piloto chefe. O que diz a Voepass 'Não reportar': áudio de ex-piloto mostra rotina para não relatar panes na Voepass Reprodução/EPTV Em nota enviada nesta quarta-feira (21), a Voepass afirmou que manteve a segurança operacional como princípio fundamental ao longo de mais de três décadas de atuação na aviação brasileira. Disse também que seguirá colaborando com o Poder Judiciário e demais autoridades competentes. Leia na íntegra abaixo: "A VOEPASS entende que, com o recebimento da denúncia pela Justiça Federal, o processo seguirá os trâmites previstos em lei, assegurando às partes envolvidas. A companhia seguirá colaborando com o Poder Judiciário e com as demais autoridades competentes, fornecendo os documentos e as informações que forem solicitadas ao longo do processo. Ao longo de mais de três décadas de atuação na aviação brasileira, a VOEPASS manteve a segurança operacional como princípio fundamental, com procedimentos de manutenção, operação e treinamento orientados pela regulamentação aeronáutica e por suas diretrizes internas de segurança e conformidade. A defesa de José Luiz Felício Filho informa que tomou conhecimento do recebimento, pela Justiça Federal, da denúncia apresentada pelo Ministério Público Federal e que se manifestará nos autos, no momento adequado, exercendo plenamente as garantias constitucionais do contraditório, da ampla defesa e do devido processo legal. À época do acidente com o voo 2283, Felício integrava o Conselho da VOEPASS e estava afastado da gestão direta e cotidiana da operação, tendo retomado a gestão executiva após o acidente. Felício tem colaborado com as autoridades desde o início das apurações e seguirá à disposição da Justiça para contribuir com o completo esclarecimento dos fatos. O executivo mantém sua confiança no devido processo legal e reitera seu respeito às autoridades e sua solidariedade aos familiares das vítimas do voo 2283." VÍDEOS: Tudo sobre Campinas e região
