Jorge Ben Jor celebra carreira inigualável com samba, festa e emoção para estádio lotado
Jorge Ben Jor em show no Nubank Parque, em São Paulo, em 17 de outubro de 2026 Divulgação/Lais Moss "Oitenta e sete anos?!", era a exclamação que mais se ouvia neste sábado (17), durante o show de Jorge Ben Jor no Nubank Parque, em São Paulo. Dá pra entender por que o músico guardava tanto segredo sobre sua idade: o número não tem nada a ver com o sambista que tocou, com vigor, por mais de duas horas. A gente nunca sabe como está o alquimista até que ele surge, poucas vezes por ano. Ao contrário de alguns contemporâneos, Jorge Ben faz, no máximo, meia dúzia de shows anuais. Não tem turnê de despedida, comemorativa... nem turnê, de modo geral. Por isso, Jorge Ben deixou fãs curiosos ao anunciar um show intitulado "Alquimia Popular Brasileira". À primeira vista, muitos esperavam uma homenagem ao emblemático "A Tábua de Esmeralda" (1974). No mínimo, um show diferente dos que ele faz anualmente em São Paulo. Não foi bem o caso: o setlist não escapou muito do padrão, só ganhou algumas adesões (como a bem-vinda "Errare Humanum Est", de "A Tábua"). A grande diferença foi a bela estrutura no palco, com dois telões cúbicos nas laterais e um telão circular atrás da banda. Nada muito exagerado nem fora do tom, mas finamente pensado pra ampliar o show. Jorge Ben Jor se apresenta no Nubank Parque, no dia 17 de outubro de 2026 Divulgação/Lais Moss Aliás, havia, sim, uma novidade importante: foi um show para 51 mil pessoas, segundo a assessoria. Anunciar show em estádio tem sido comum — encher, nem tanto. Principalmente para um artista nacional que, querendo ou não, veio para São Paulo no Espaço Unimed nos últimos dois anos. Não era uma despedida nem uma celebração de data redonda, mas o clima era de homenagem a uma carreira inigualável, com o privilégio de acontecer em vida. Desde o início, Ben Jor não deu fôlego para a plateia (nem para a banda, às vezes). Emendou sequências matadoras, como "Magnólia", "Ive Brussel", "Menina mulher da pele preta", "O telefone tocou novamente", "Oba Lá Vem Ela", "País Tropical", e a lista continua. Tocou muito, falou pouco. Justamente por ser tão lacônico, com o olhar escondido atrás dos óculos escuros, surpreendeu todo mundo ao se emocionar. Ao fim de "Alcohol", trocou o "gosto tanto de você" por "gosto tanto de vocês" e começou a chorar, ovacionado. Havia outros motivos para as emoções estarem à flor da pele: a 8 dias do resultado de uma eleição presidencial acirrada, o tema pairava sobre o público, mesmo sem Ben Jor se manifestar. Quando ele incluiu "Costa do Marfim", faixa em que entoa "pega a mulher do vinte e dois / ganha a mulher do vinte e dois", parte da plateia respondeu com um coro de "Olê, olê, olá, Lula", enquanto outros fizeram gestos de 22. Jorge Ben Jor, Simoninha, Samuel Rosa, Edi Rock, Rael, Baby do Brasil, entre outros em show no Nubank Parque, em São Paulo, em outubro de 2026 Divulgação Mas nem a maior polarização política do Brasil tirou o efeito desse show. Só alguém como Jorge Ben reuniria Samuel Rosa, Baby do Brasil, Rael, Edi Rock, entre outros para cantar "Taj Mahal" no palco. De certa forma, a noite lembrou como Jorge Ben é o próprio cânone da cultura brasileira, misturando gente, suingue, futebol e simpatia. Mesmo nos tempos mais duros, ele sabe fazer festa como ninguém.
