Moscas revelam animais 'escondidos' na Mata Atlântica por meio de DNA
Moscas revelam animais 'escondidos' na Mata Atlântica por meio de DNA Moscas e mosquitos ajudaram pesquisadores a identificar vestígios de onças, primatas e outros mamíferos que vivem na Mata Atlântica. A descoberta ocorreu no Parque Estadual do Rio Doce, em Minas Gerais, onde cientistas utilizaram o DNA encontrado nos insetos para investigar a diversidade de animais da floresta. 📱 Acompanhe o Terra da Gente também no Instagram O estudo, publicado no final de setembro na revista científica European Journal of Wildlife Research, identificou 33 unidades taxonômicas de mamíferos silvestres, das quais 22 foram classificadas até o nível de espécie. Entre os animais detectados estão a onça-pintada (Panthera onca), a onça-parda (Puma concolor), o gato-do-mato-pequeno (Leopardus guttulus) e o muriqui-do-norte (Brachyteles hypoxanthus). A técnica utilizada é conhecida como iDNA, sigla em inglês para DNA derivado de invertebrados. Ela permite identificar vestígios genéticos de vertebrados presentes em organismos como moscas e mosquitos, que podem obter esse material ao se alimentar de sangue, fezes ou carcaças. Dessa forma, os cientistas conseguem investigar a presença de diferentes animais sem precisar observá-los diretamente. Moscas revelam animais 'escondidos' na Mata Atlântica por meio de DNA chon_kaue / iNaturalist VEJA TAMBÉM: 'Isso é tudo olho': casal flagra vários jacarés pelo brilho dos olhos durante a noite no Pantanal Ele é um gato, vive no Brasil e é mais raro do que se imaginava; agora é considerado 'quase ameaçado' Drone térmico revela mais de 60 muriquis escondidos na floresta em MG Mais da metade dos mamíferos esperados A pesquisa foi realizada em uma área do Parque Estadual do Rio Doce, que possui aproximadamente 36 mil hectares e abriga um dos grandes remanescentes de Mata Atlântica do Brasil. Os pesquisadores instalaram armadilhas em seis pontos da região sul do parque. As coletas ocorreram durante quatro dias consecutivos na estação chuvosa, em fevereiro de 2023, e outros quatro dias na estação seca, em julho de 2024. Parque Estadual do Rio Doce Fundação Renova Mesmo com esse período reduzido de amostragem, a análise genética recuperou registros correspondentes a 31 das 55 espécies de mamíferos terrestres esperadas para a área, segundo levantamentos anteriores — o equivalente a 56%. "Esses resultados destacam o potencial do metabarcoding de iDNA para levantamentos rápidos, incluindo a detecção de espécies raras, como grandes felinos", afirmam os autores no artigo científico, em tradução livre. A técnica de metabarcoding permite analisar simultaneamente fragmentos de DNA de diferentes organismos presentes em uma mesma amostra. Entre os animais identificados também aparecem a anta (Tapirus terrestris), o tamanduá-mirim (Tamandua tetradactyla), o bugio (Alouatta guariba clamitans), o macaco-prego (Sapajus nigritus) e o tatu-galinha (Dasypus novemcinctus). Moscas foram mais eficientes que mosquitos Um dos resultados que chamaram a atenção dos pesquisadores foi a diferença de desempenho entre os dois grupos de insetos. As moscas permitiram detectar 30 unidades taxonômicas de mamíferos, enquanto os mosquitos identificaram 18. Além disso, 15 unidades foram registradas exclusivamente por meio das moscas e três apenas pelos mosquitos. Onça-pintada Denis Ferreira Netto/Sedest-PR Os pesquisadores explicam que as moscas podem entrar em contato com diferentes fontes de material genético, como fezes, carcaças e outros resíduos de origem animal. Já os mosquitos obtêm DNA principalmente ao se alimentar de sangue. A análise também mostrou diferenças entre as estações do ano. Na estação chuvosa, foram identificadas 22 unidades taxonômicas, contra 21 na estação seca. Apesar dos números semelhantes, a composição dos registros mudou. Os vestígios de felinos, por exemplo, apareceram apenas nas amostras da estação chuvosa. Já a anta e a capivara (Hydrochoerus hydrochaeris) foram detectadas somente na estação seca. Essas diferenças reforçam a importância de considerar as condições ambientais e os períodos de coleta nos levantamentos de biodiversidade. O tatu-canastra que não apareceu Tatu-canastra foi flagrado em plena luz do dia na Serra da Canastra Alessandro Abdala Apesar dos resultados, os pesquisadores não conseguiram identificar vestígios genéticos do animal que motivou parte da investigação: o tatu-canastra (Priodontes maximus). A espécie, considerada criticamente em perigo na Mata Atlântica brasileira, é conhecida por viver no Parque Estadual do Rio Doce. Por isso, os cientistas instalaram armadilhas próximas a tocas monitoradas, onde os animais são registrados regularmente. Mesmo assim, nenhuma das amostras apresentou DNA do tatu-canastra. Segundo os autores, o resultado pode estar relacionado à baixa densidade populacional da espécie, aos hábitos subterrâneos e às características de suas fezes, relativamente secas e compactas, que podem atrair menos insetos. O tatu-canastra também passa grande parte do tempo dentro das tocas, o que reduz as oportunidades de contato com os insetos utilizados na pesquisa. "A ausência de detecção de DNA derivado de invertebrados não deve ser interpretada como evidência de ausência real", alertam os pesquisadores, em tradução livre. Uma nova ferramenta para a conservação Parque Estadual do Rio Doce abriga maior área contínua de Mata Atlântica de MG Primatas Perdidos O estudo foi desenvolvido por Carla C. Gestich, Bruno H. Saranholi, Lucas M. Barreto, Helen R. Taylor, Patrícia D. Freitas, Arnaud L. J. Desbiez e Pedro M. Galetti Jr., vinculados a instituições brasileiras e internacionais, entre elas a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e o Instituto de Conservação de Animais Silvestres (ICAS). Os resultados mostram que a análise do DNA obtido de insetos pode complementar métodos tradicionais de monitoramento, como armadilhas fotográficas e levantamentos de vestígios. A técnica também apresenta potencial para ampliar o acompanhamento da biodiversidade em áreas fragmentadas da Mata Atlântica, onde a identificação de espécies raras pode exigir grandes esforços de campo. "Mesmo com um esforço de curta duração, o DNA derivado de invertebrados revelou uma forte estrutura espacial e temporal na detecção de mamíferos", concluem os autores, em tradução livre. VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente
