Justiça determina que comentarista político apague vídeo em que ele diz que a Bahia é o 'câncer do Brasil'
Justiça determina que comentarista político apague vídeo em que ele diz que a Bahia é o 'câncer do Brasil' e se retratar em até 5 dias Reprodução/Redes Sociais A Justiça da Bahia determinou que o comentarista político Rodrigo Constantino apague das redes sociais um vídeo em que ele disse que o estado é o "câncer do Brasil", classificou Salvador como "um lixo" e afirmou que os baianos são uma vergonha para o país. A decisão, assinada na quinta-feira (8) pelo juiz da 6ª Vara da Fazenda Pública de Salvador, determina ainda que Rodrigo Constantino faça uma retratação pública. As duas medidas precisam ser cumpridas em até cinco dias, a partir da intimação, sob pena de multa de R$ 100 mil por cada descumprimento. O conteúdo já não estava disponível na conta de Rodrigo, na manhã desta sexta-feira (9). No entanto, até por volta das 11h, a retratação ainda não tinha sido feita. No vídeo, publicado no Instagram no domingo (4), após o resultado do primeiro turno das eleições, Constantino também acusou a população de não querer trabalhar e criticou as escolhas dos eleitores baianos. 📲 Clique aqui e entre no grupo do WhatsApp do g1 Bahia Agora no g1 Na decisão, o magistrado considerou que as declarações ultrapassaram os limites da crítica política e da liberdade de expressão. Segundo o texto, as falas atingem a honra e a identidade de toda uma comunidade. A retratação deverá ser publicada nos perfis públicos e nas redes sociais do comentarista, em formato de texto, carta ou vídeo, e permanecer em destaque por pelo menos 30 dias. Conforme a decisão, caso o conteúdo não seja removido dentro do prazo, a Justiça poderá enviar uma ordem diretamente à plataforma para bloquear a publicação. Ao analisar o pedido do governo baiano, o juiz destacou que a liberdade de expressão é um direito garantido pela Constituição, mas não permite a prática de atos ilícitos nem justifica ofensas que violem a dignidade e a honra de outras pessoas. A decisão afirma que as declarações de Constantino foram além de críticas ao resultado eleitoral e classificou as falas como manifestações que desvalorizam e estigmatizam toda a população de um estado. O comentarista publicou um segundo vídeo na segunda-feira (5), após a repercussão das declarações. Na gravação, alegou estar protegido pela Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos, país onde mora, e afirmou que seu objetivo era criticar o Partido dos Trabalhadores (PT), e não a população baiana. Rodrigo Constantino também pediu desculpas às pessoas que se sentiram ofendidas. Na ocasião, disse que, ao chamar a Bahia de “câncer do Brasil”, queria se referir ao que considera a força do petismo no estado. "Teve gente que não gostou, não entendeu, então fica aqui a minha retratação. Quando digo que a Bahia é o câncer do país, o que quero dizer é que ali está o reduto do petismo. Para mim, o PT é o câncer do Brasil. É isso que quero dizer", afirmou. "Achei que tinha ficado óbvio, bem claro. Pelo visto, não. Teve baiano legal, gente boa, que não gostou. Então, a esses, fica o meu pedido de desculpas. Valeu, turma", pontuou o comentarista político. Entenda o caso O vídeo que motivou a ação foi publicado logo após o resultado do primeiro turno das eleições de outubro. Na gravação, Constantino relacionou o resultado eleitoral da Bahia à sua avaliação negativa sobre o estado e seus moradores. "Olha, o pessoal acha que eu pego no pé, aí vem a turma da Globo chamar de xenofobia, e eu estou pouco me lixando para isso. Vou falar para vocês: 'A Bahia é o câncer do Brasil, é o câncer'". Entre os exemplos usados para sustentar a acusação de que os baianos não gostam de trabalhar, ele relatou situações que, segundo afirmou, envolveram familiares em estabelecimentos comerciais e na praia. "Já tive lá algumas vezes: a trabalho e a lazer. Salvador é um lixo. Eu fui mais para o interior fazer uma feira literária e fiquei chocado. Segunda-feira, 11h30, e um monte de gente no barzinho, com violão e cerveja. Ninguém quer trabalhar". "Eu tenho dois episódios que são evidências anedóticas com familiares meus, tá? Um deles, a pessoa estava na praia e falou: 'Tem água de coco?' 'Tem não'. Ela olhou em volta e tinha 300 coqueiros. 'Como não tem água de coco?' 'É que o rapaz que tira o coco não veio hoje não, minha senhora'. A outra disse: 'Queria, por favor, um queijo quente'. Estava em um barzinho também, lanchonete. 'Tem não'. 'Tem misto quente?' 'Tem sim'. 'É só tirar o presunto'. 'Ah, é que já está pronto, é só tirar da chapa'", relatou Constatino. Ao final, criticou a reeleição do governador Jerônimo Rodrigues (PT) e a eleição dos dois senadores petistas, Rui Costa e Jaques Wagner, pela Bahia. "Baianos, com todas as boas exceções, em geral, vocês são uma vergonha para o Brasil. Dois senadores petistas eleitos, envolvidos com Vorcaro, um governador petista. Que papelão", disse. Lula durante agenda de campanha ao lado do governador Jerônimo Rodrigues, em Salvador Iamany Santos / g1 As declarações provocaram reações e levaram o governo estadual a anunciar medidas judiciais contra o comentarista. Na segunda-feira (5), o governador Jerônimo afirmou que buscaria responsabilizá-lo e defendeu o respeito à população baiana, que classificou como trabalhadora. "Ele tem que respeitar o povo da Bahia, um povo trabalhador. Levar um camarada desse no sertão para ver o quanto nosso povo dá duro. Pegue um motorista de táxi. Veja se você, que é taxista, concorda com um cara desse. O cara senta em um banco de carro para ganhar a vida. Então, essas coisas não cabem mais na civilidade humana". A Polícia Civil da Bahia também instaurou um procedimento para apurar as circunstâncias da divulgação do vídeo e possíveis responsabilidades relacionadas às declarações de caráter discriminatório. Segundo a corporação, as diligências seguem sob acesso restrito. Veja abaixo a íntegra da nota divulgada pelo delegado-geral da Polícia Civil da Bahia, André Viana, nas redes sociais: "A Polícia Civil da Bahia já instaurou procedimento para apurar as circunstâncias e eventuais responsabilidades relacionadas à divulgação, nas redes sociais, de vídeo em que a Bahia é chamada de 'câncer do Brasil', além de outras manifestações de possível caráter discriminatório contra a população baiana. As diligências seguem sob o acesso restrito, para preservar a apuração. A Polícia Civil reafirma seu compromisso com o enfrentamento à discriminação e com uma atuação técnica, imparcial e pautada na legalidade". 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