Depository of News

Por que tantas empresas não conseguem praticar o que pregam?

newsdepo.com · world

O Programa de Pós-Graduação em Administração de Empresas da Unifor tem como missão contribuir para a evolução da pesquisa científica, da cultura estratégica e organizacional e das práticas da ciência administrativa nas organizações getty images Muitas empresas apresentam sua cultura organizacional já no processo seletivo. Ela aparece nos sites corporativos, em campanhas de recrutamento, treinamentos e programas de integração. O desafio começa depois: manter esses valores vivos quando as metas apertam, a pressão por resultados aumenta e a cobrança por produtividade se intensifica. Uma pesquisa realizada pelo iFood em parceria com o Instituto QualiBest mostra que a maioria dos profissionais acredita que uma cultura forte melhora os resultados das empresas. Ainda assim, boa parte deles vê esses valores perderem espaço justamente nos momentos em que são mais colocados à prova. Segundo o levantamento, 89% dos entrevistados acreditam que uma cultura forte contribui para melhores resultados. Na prática, porém, apenas 43% afirmam ver a cultura orientando decisões de negócio. Para 58%, quando a pressão por metas aumenta, a cultura é a primeira coisa a ceder. Entre líderes, 41% admitem abrir mão dela para atingir resultados. Como se identifica o adoecimento mental no trabalho A pesquisa ouviu 1.406 profissionais de empresas com mais de 100 funcionários em todo o país, de analistas a executivos C-level. Os dados ajudam a explicar uma contradição cada vez mais presente no mercado de trabalho: embora as empresas invistam em discursos sobre propósito, valores e bem-estar, muitos profissionais não enxergam esses princípios sendo mantidos quando surgem pressões por produtividade, crescimento ou redução de custos. Essa percepção tem consequências que vão além do clima organizacional. Durante muito tempo, salário, benefícios e possibilidade de promoção eram os principais fatores considerados por profissionais ao decidir entrar ou permanecer em uma empresa. A pesquisa indica que isso mudou. Hoje, a cultura organizacional também pesa nas escolhas de carreira. Segundo o levantamento, 79% afirmam que a forma como uma empresa vive seus valores influencia, ou influenciaria, uma decisão profissional. Na prática, 73% já recusaram uma oferta, pediram demissão ou decidiram permanecer em um emprego por causa da cultura da organização. Os números ajudam a explicar por que especialistas em gestão de pessoas frequentemente associam incoerências entre discurso e prática a problemas de engajamento, retenção de talentos e rotatividade. Afinal, quando os funcionários percebem que os valores divulgados internamente não se refletem nas decisões do dia a dia, a tendência é que a confiança na empresa diminua. O levantamento mostra ainda que 88% dos entrevistados consideram que uma cultura efetivamente praticada melhora as condições de trabalho. Chefes e funcionários enxergam empresas diferentes Outro resultado chama atenção para o distanciamento entre liderança e equipes. Entre diretores e executivos, 60% afirmam ver a cultura sendo praticada sempre. Entre analistas e especialistas, o percentual cai para 23%. A diferença aparece também quando os profissionais avaliam o próprio conhecimento sobre a cultura organizacional. Enquanto 69% dos diretores dizem conhecê-la muito bem, apenas 36% dos analistas afirmam o mesmo. Para 60% dos entrevistados, a maior distância entre discurso e prática está justamente na alta e média gestão. O resultado sugere que muitas empresas conseguem comunicar seus valores para a liderança, mas encontram dificuldades para transformar esses princípios em experiências percebidas por quem está na operação. IA aumenta pressão por produtividade A pesquisa também identificou uma relação cada vez mais forte entre cultura organizacional e inteligência artificial. O tema ganha importância num momento em que empresas ampliam investimentos em IA ao mesmo tempo em que aumentam a cobrança por produtividade. Um levantamento do Upwork Research Institute, citado em reportagem do g1 sobre Wokslop, mostrou que 96% dos executivos acreditam que a IA aumentará a produtividade, mas 77% dos profissionais afirmam que a carga de trabalho cresceu após a adoção dessas ferramentas. 📎 O termo Workslop vem da junção das palavras "work" (trabalho) e "slop" (malfeito), e pode ser traduzido livremente como "trabalho desleixado". Ele passou a ser usado para descrever tarefas geradas por IA que — na ânsia de economizar esforço ou acelerar processos — são superficiais e oferecem pouco valor prático para quem precisa utilizá-las. A pesquisa também identificou que 81% dos líderes aumentaram as expectativas sobre suas equipes e que 71% dos trabalhadores relatam sinais de burnout. Nesse contexto, a nova pesquisa do iFood indica que a adoção da IA pode representar mais um teste para a consistência da cultura organizacional. Entre os líderes, 70% afirmam esperar ser cobrados para conduzir suas equipes na adoção da inteligência artificial. Apesar disso, apenas 25% dizem se sentir muito preparados para essa missão. A percepção dos profissionais é de que o avanço tecnológico acontece mais rápido do que a preparação das empresas e das lideranças. Falta preparo e, muitas vezes, faltam ferramentas Embora 71% dos entrevistados afirmem estar familiarizados com inteligência artificial e 45% utilizem essas ferramentas várias vezes ao dia, o acesso e o suporte ainda são desiguais. Segundo a pesquisa, 57% trabalham em empresas que incentivam o uso da tecnologia e disponibilizam ferramentas adequadas. Outros 28% recebem incentivo para utilizar IA, mas precisam buscar as soluções por conta própria. O cenário reforça um dos desafios apontados por especialistas: a pressão para produzir mais com inteligência artificial muitas vezes vem antes da definição de processos, treinamentos e governança. A pesquisa mostra que 55% dos profissionais associam diretamente a adoção da IA à cultura organizacional. Entre aqueles que dizem ver a cultura sendo praticada sempre, esse percentual sobe para 75%. O dado sugere que a transformação tecnológica não depende apenas da ferramenta, mas também da capacidade das empresas de criar um ambiente que ofereça orientação, segurança e preparo para os trabalhadores. No fim das contas, os resultados indicam que o principal desafio não é convencer as empresas de que cultura importa. Nisso, quase todos concordam. A dificuldade está em manter esses valores de pé justamente quando surgem as metas, as pressões por produtividade e as transformações trazidas pela inteligência artificial.

Read full article →