Três onças e uma árvore: fotógrafo registra onça-pintada com filhotes no Pantanal de MT
Onça-pintada brinca com filhotes em tronco no Pantanal Um momento em família na fauna do Pantanal foi registrado pelo fotógrafo Marcello Cavalcanti: a onça-pintada conhecida como Medrosa aparece ao lado dos dois filhotes, Selva e Kairo, sobre um tronco no Parque Estadual Encontro das Águas, em Poconé, a 104 km de Cuiabá. A imagem foi feita no fim da tarde de 18 de setembro, durante uma expedição fotográfica no Pantanal de Mato Grosso. Além das fotografias feitas por Marcello, a cena também foi registrada em vídeo por pessoas que acompanhavam a expedição. Entre elas estava Andréia Forno, uma das alunas do fotógrafo (assista acima). A cena durou poucos minutos. Segundo Marcello, Medrosa estava escondida com os filhotes em uma espécie de toca formada por uma árvore caída e folhas quando, já no fim do dia, saiu do esconderijo, atravessou o rio e subiu no tronco. Os três permaneceram juntos por alguns minutos antes de mudarem de posição e deixarem a árvore. “Foi uma atitude dela, que ela tomou por livre espontânea vontade de, no finalzinho do dia, como se ela estivesse saindo para dar um último adeus para a gente”, contou. Marcello acompanha Medrosa desde 2021 e já havia fotografado outras ninhadas da onça. Segundo ele, encontrar a fêmea com os filhotes nessa fase não é incomum na região. O que chamou a atenção dessa vez foi a forma como os três se posicionaram sobre o tronco. “Essa fotografia que eu fiz, que ela encaixada no tronco com os filhotes lado a lado, é que ficou uma coisa diferente do que a gente vê normalmente lá. Essa foto foi uma coisa meio bíblica, meio etérea, meio pintura”, explicou. A imagem faz parte de uma sequência de 419 fotografias feitas durante o momento. Segundo o fotógrafo, os três chegaram a ficar deitados por cerca de três minutos antes de voltarem a se movimentar e brincar. “Eu consideraria a foto mais perfeita porque estão os três totalmente alinhados, olhando, tranquilos, numa posição legal”, afirmou Um momento em família na fauna do Pantanal: a onça-pintada conhecida como Medrosa aparece ao lado dos dois filhotes, Selva e Kairo. Marcello Cavalcanti 🐆 Mãe e filhotes Segundo Marcello, os dois filhotes são machos e estão em uma fase de intensa interação com a mãe e entre si. Eles brincam, mordem e exploram o ambiente enquanto permanecem próximos de Medrosa. A bióloga Julia Ghion explica que esse tipo de interação é compatível com o desenvolvimento comportamental de jovens onças-pintadas que ainda dependem da mãe. Brincadeiras e contatos físicos podem contribuir para a coordenação motora, o equilíbrio e o controle da força da mordida. Ela ressalta, porém, que não é possível afirmar, a partir de uma única cena, que uma determinada brincadeira esteja ensinando uma técnica específica de caça. O uso de árvores também é observado entre filhotes da espécie. Um estudo publicado em 2023 na revista científica Acta Ethologica, com observações feitas no Pantanal entre 2013 e 2020, registrou 252 eventos de onças subindo em árvores. Os pesquisadores identificaram que os filhotes apresentaram maior probabilidade de utilizar árvores do que os adultos e sugeriram que essas estruturas podem funcionar como locais de descanso e refúgio para fêmeas e filhotes. Para Julia, a permanência nesse ambiente pode contribuir para que os filhotes desenvolvam equilíbrio, coordenação, capacidade de subir e descer, exploração do ambiente e avaliação de riscos. A bióloga pondera, contudo, que não é possível concluir que Medrosa estivesse necessariamente ensinando os filhotes a caçar ao levá-los para a árvore. Os filhotes brincam, mordem e exploram o ambiente enquanto permanecem próximos de Medrosa. Marcello Cavalcanti A permanência com a mãe também é importante para o desenvolvimento dos filhotes. Um estudo de longo prazo sobre a espécie no Pantanal, publicado no Journal of Mammalogy em 2023, estimou em 17,6 meses a idade média de independência. A pesquisa acompanhou 21 fêmeas e 38 ninhadas e identificou que todos os 27 machos jovens monitorados deixaram a área natal, enquanto 63,6% das fêmeas permaneceram nela. “Esse período prolongado de dependência é fundamental para o desenvolvimento dos jovens”, explicou. Nesse período, os filhotes desenvolvem gradualmente habilidades relacionadas ao deslocamento pelo ambiente, à exploração do território, à identificação de locais seguros, à caça, à manipulação de presas, à avaliação de riscos e à utilização de diferentes estruturas do habitat. 🐾 Uma família acompanhada há anos O registro também faz parte de uma relação mais longa entre o fotógrafo e Medrosa. Marcello frequenta a região de Porto Jofre, onde está o Parque Estadual Encontro das Águas, desde 2021 e afirma já ter feito mais de 170 avistamentos de onças-pintadas na região. LEIA TAMBÉM: Medrosa é filmada atacando jacaré e caça até 3 vezes por semana, diz biólogo 'Medrosa': entenda origem do nome da onça famosa por caçar jacarés no Pantanal de MT Ele já havia fotografado Medrosa no mesmo tronco, inclusive em outra ocasião no fim da tarde. Também acompanhou filhotes de ninhadas anteriores e conta que já fotografou um deles, chamado Pantaneiro, depois de adulto, na mesma árvore em que havia registrado a mãe. “Você vê que esses ensinamentos dela vão sendo passados. A gente vê isso fisicamente acontecendo no Pantanal. É muito legal voltar todo ano, porque a gente vai vendo isso acontecendo”, disse. Segundo Julia, acompanhar individualmente uma mesma fêmea ao longo de diferentes períodos reprodutivos pode produzir informações importantes para a compreensão da espécie. Registros contínuos podem ajudar pesquisadores a observar o tamanho das ninhadas, o intervalo entre reproduções, a sobrevivência dos filhotes, a idade de independência, o uso do espaço e mudanças de comportamento ao longo do tempo. “Esse tipo de acompanhamento longitudinal é extremamente valioso para a ecologia de uma espécie de difícil observação”, afirmou. No caso dos dois filhotes de Medrosa, o acompanhamento ao longo dos próximos anos poderá mostrar como ocorre a transição até a independência. Conforme Julia, o fato de ambos serem machos também chama atenção porque, no estudo de longo prazo citado, os machos jovens acompanhados deixaram a área natal. Durante a expedição, Marcello estava acompanhado de cerca de dez pessoas. Entre elas estava Adelma Montagna, que também registrou em vídeo parte da cena (assista abaixo). Turistas avistam onça-pintada com filhotes em tronco no Pantanal de MT Segundo o fotógrafo, quando Medrosa saiu da toca, havia poucos barcos no Corixo Negro porque a luz do dia já estava acabando. Depois de alguns minutos sobre o tronco, os animais deixaram a posição e a noite chegou. “Quando a gente fotografa filhotes no Pantanal, de qualquer espécie, pra mim é uma alegria muito grande porque é a continuidade da vida. É a prova de que aqueles animais estão ali, residentes, estão sobrevivendo, estão se reproduzindo”, afirmou. Segundo o fotógrafo, quando Medrosa saiu da toca, havia poucos barcos no Corixo Negro porque a luz do dia já estava acabando. Marcello Cavalcanti
