Crédito bilionário pode ajudar o PIM a transformar descarbonização em vantagem competitiva
Polo Industrial de Manaus. Divulgação/Suframa O Polo Industrial de Manaus (PIM) construiu sua relevância econômica produzindo motocicletas, televisores, aparelhos de ar-condicionado, celulares, concentrados para bebidas e uma extensa variedade de componentes. Agora, uma nova exigência começa a atravessar o chão das fábricas: produzir mais, com menos carbono. O Grupo Banco Mundial anunciou uma operação destinada a financiar a descarbonização de setores estratégicos da indústria brasileira. Serão US$ 1,06 bilhão em empréstimos, aproximadamente R$ 5,4 bilhões pela conversão divulgada, com os recursos canalizados por meio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Desse total, US$ 1 bilhão virá do Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (Bird), instituição que integra o Grupo Banco Mundial. Outros US$ 60 milhões serão provenientes do Fundo de Tecnologia Limpa dos Fundos de Investimento Climático, conhecidos pela sigla em inglês CIF. A expectativa é que a operação ajude a mobilizar mais US$ 1,8 bilhão de instituições de desenvolvimento e investidores privados. Isso não significa que todo esse dinheiro já esteja contratado por empresas. O desenho busca usar os recursos públicos e multilaterais para reduzir os riscos de projetos pioneiros e atrair capital privado. Há uma diferença essencial: trata-se de crédito, e não de recurso a fundo perdido. As empresas terão de contratar e pagar o financiamento, conforme as condições que forem estabelecidas. Por isso, os projetos precisarão demonstrar não apenas redução de emissões, mas também viabilidade econômica, por meio de economia de energia, menor desperdício, aumento de produtividade ou acesso a mercados que valorizem produtos de menor impacto climático. É bom esclarecer que o comunicado oficial não reserva recursos para o Amazonas e ainda não apresenta todas as condições que determinarão quem poderá contratar o financiamento. O PIM poderá buscar acesso aos recursos, mas essa oportunidade terá de ser disputada com projetos tecnicamente consistentes. O que será financiado O programa está organizado em três frentes. A primeira abrange a produção de commodities industriais de baixo carbono, com foco nos setores de aço, cimento, vidro, produtos químicos e alumínio. A segunda contempla combustíveis como biometano, combustível sustentável de aviação, conhecido pela sigla em inglês SAF, e-metanol e outras alternativas de menor emissão. A terceira frente financiará infraestrutura de uso compartilhado, como instalações de armazenamento e dutos para hidrogênio verde e amônia. A lógica é permitir que várias indústrias utilizem os mesmos ativos, reduzindo custos e barreiras para a adoção de novas tecnologias. O desenho inicial, porém, aponta uma diferença entre o foco do financiamento e o perfil produtivo de Manaus. As linhas anunciadas priorizam cadeias intensivas em energia, enquanto as maiores participações no faturamento do PIM estão nos segmentos de bens de informática, duas rodas e eletroeletrônicos. De janeiro a julho de 2026, esses três setores responderam, respectivamente, por 21,86%, 19,77% e 15,43% do faturamento do polo, segundo a Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa). No mesmo período, os segmentos químico, termoplástico e metalúrgico representaram 10,91%, 10,67% e 8,92%. Isso significa que há pontos de contato importantes, especialmente nas cadeias química, metalúrgica e de materiais. Mas a principal base produtiva de Manaus não aparece nominalmente entre os setores priorizados até então. Essa diferença pode reduzir a aderência imediata de parte dos projetos do PIM e aumenta a importância das regras que serão definidas pelo BNDES. Eficiência energética, materiais de menor intensidade de carbono, combustíveis mais limpos e infraestrutura compartilhada poderão funcionar como portas de entrada, desde que esses investimentos sejam considerados elegíveis. O acesso também não deverá acontecer simplesmente porque uma empresa está localizada na Amazônia ou integra um dos principais polos industriais do país. A expectativa é que os projetos tenham de comprovar a redução de emissões, estabelecer metas e apresentar indicadores que permitam acompanhar os resultados. Empresas do PIM partem de condições diferentes O PIM não é um bloco homogêneo. Grandes fabricantes tendem a dispor de equipes especializadas, maior acesso a capital e estruturas internacionais de sustentabilidade. Parte dos fornecedores locais, especialmente pequenas e médias empresas, pode encontrar mais dificuldades para elaborar inventários de emissões, estabelecer uma linha de base, calcular o retorno dos investimentos e oferecer garantias para contratar o crédito. Se o programa não combinar financiamento com assistência técnica, mecanismos de garantia e projetos coletivos, existe o risco de os recursos se concentrarem nas empresas que já estão mais preparadas. Para que a descarbonização alcance toda a cadeia, será importante incluir fornecedores de componentes, embalagens, serviços, transporte e manutenção, e não apenas as grandes indústrias instaladas no polo. Empresas de maior porte também podem funcionar como âncoras desse processo, estabelecendo metas comuns, compartilhando conhecimento e ajudando fornecedores menores a mensurar e reduzir suas emissões. Caso contrário, a modernização poderá avançar dentro das grandes fábricas sem produzir a mesma transformação na cadeia local. A oportunidade para o PIM No caso de Manaus, a descarbonização pode alcançar diferentes etapas da produção. Entre as possibilidades estão a substituição de equipamentos por modelos mais eficientes, a eletrificação de processos, o aproveitamento de calor, a redução do consumo de combustíveis fósseis e a modernização de sistemas industriais de refrigeração, pintura e tratamento de superfícies. Há ainda espaço para projetos de reaproveitamento de materiais, reciclagem, redução de perdas e reinserção de resíduos na cadeia produtiva. Em uma indústria cada vez mais pressionada a informar a origem dos insumos e a pegada ambiental de seus produtos, economia circular e descarbonização começam a fazer parte da mesma estratégia de competitividade. É um caminho sem volta! Os ganhos potenciais não se limitam ao meio ambiente. Máquinas mais eficientes podem reduzir custos de energia e manutenção. Processos com menos desperdício podem elevar a produtividade. Produtos de menor intensidade de carbono podem atender às exigências de grandes compradores e ampliar as possibilidades de participação em cadeias internacionais. Essa discussão é especialmente relevante para o PIM, que encerrou 2025 com faturamento recorde de R$ 227,67 bilhões. De janeiro a julho de 2026, o polo faturou R$ 142,98 bilhões e manteve média mensal de 131.197 trabalhadores diretos, segundo a Suframa. Pela escala alcançada, qualquer avanço consistente em eficiência energética, materiais, combustíveis e gestão de resíduos pode produzir efeitos econômicos e ambientais significativos. Estar na Amazônia não basta Existe, porém, uma questão que precisa ser enfrentada sem atalhos: estar no centro da Amazônia não transforma automaticamente uma fábrica em indústria de baixo carbono. A associação entre a Zona Franca de Manaus (ZFM) e a conservação da cobertura florestal é frequentemente apresentada como um dos argumentos em defesa do modelo. Isso, porém, não substitui a avaliação das emissões e dos impactos gerados pela atividade industrial. A análise ambiental de uma planta envolve a origem da energia, os combustíveis utilizados, as emissões da fabricação, a procedência das matérias-primas e o destino dos resíduos. A evolução da matriz energética também abre portas para a modernização do PIM. Desde 2013, Manaus está integrada ao Sistema Interligado Nacional (SIN), o que reduziu a dependência histórica de usinas térmicas locais e trouxe energia mais limpa para a região, combinando a rede nacional com a geração regional a gás natural. Para as fábricas do polo, contudo, a jornada rumo à sustentabilidade vai além de atualizar o maquinário e eletrificar processos: o cenário atual exige também medir as emissões associadas à eletricidade consumida, rastrear a origem dessa energia e expandir, quando viável, o acesso a fontes renováveis, contratos rastreáveis e sistemas de geração própria. Também é necessário considerar as emissões geradas antes e depois da linha de montagem. Componentes percorrem longas distâncias até Manaus e os produtos acabados precisam chegar aos principais centros consumidores. A logística fluvial e rodoviária, os transbordos, o uso de diesel e, em algumas situações, o transporte aéreo integram essa conta. As secas severas acrescentam outra camada ao problema. Quando os rios perdem profundidade, a movimentação de cargas pode exigir mudanças de rota, adaptações operacionais ou mais viagens, com reflexos sobre custos, prazos e emissões. Por isso, a descarbonização do PIM não pode terminar nos portões das fábricas. Reduzir intensidade não é o mesmo que cortar emissões totais Outro cuidado está na meta anunciada. O projeto pretende contribuir para que o Brasil reduza em 30% a intensidade das emissões de gases de efeito estufa do Produto Interno Bruto (PIB) industrial até 2033. Intensidade de emissões indica a quantidade de gases de efeito estufa emitida em relação ao valor econômico produzido. Não significa, necessariamente, uma redução de 30% no volume absoluto das emissões industriais. Se a produção crescer, por exemplo, as emissões totais podem não cair na mesma proporção, mesmo que cada unidade de valor econômico seja produzida com menos carbono. A diferença parece técnica, mas é importante, pois para que o investimento represente transformação ambiental efetiva, será necessário acompanhar tanto a eficiência das atividades quanto o comportamento das emissões totais. Da possibilidade ao investimento O anúncio do Banco Mundial coloca recursos expressivos no horizonte da indústria brasileira, mas o caminho entre a aprovação internacional e a modernização de uma fábrica envolve várias etapas. As condições de financiamento, os projetos elegíveis, as taxas, os prazos, as garantias e as exigências ambientais serão determinantes para avaliar quanto dessa oportunidade poderá efetivamente chegar a Manaus. O resultado dependerá das empresas, mas também exigirá articulação entre Suframa, governo estadual, entidades industriais, instituições de ciência e tecnologia, universidades, fornecedores de energia e agentes financeiros. O polo já demonstrou capacidade de produzir em grande escala. O próximo passo é provar que também pode modernizar suas linhas, envolver os fornecedores, mensurar sua pegada de carbono e reduzir emissões sem perder produtividade. O financiamento bilionário não garante essa transformação, mas cria uma oportunidade concreta para o PIM preparar projetos, buscar enquadramento e transformar a redução de emissões em eficiência e competitividade. Na indústria de baixo carbono o diferencial estará em demonstrar, com dados verificáveis, como cada produto é fabricado e quanto suas emissões foram efetivamente reduzidas e não apenas na quantidade produzida. Cristina Monte é jornalista, colunista e analista de negócios, com atuação na cobertura de indústria, inovação e desenvolvimento econômico na Amazônia.
