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Os escritores do presidente

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Ora, uma candidatura pode ser legal, legítima e perfeitamente constitucional, mas a legalidade de uma candidatura não encerra a conversa democrática, abre-a. Depois do Tribunal Constitucional, começa o trabalho dos cidadãos. Porque uma candidatura pode ter assinaturas e não ter respostas; pode possuir mandatários, estruturas, discursos, fotografias e uma quantidade respeitável de palavras bonitas e, ainda assim, deixar por responder a pergunta mais simples de todas: o que fará com o poder que pretende receber? E há uma pergunta ainda mais desconfortável para quem já exerceu o cargo: o que fez com o poder que já recebeu?É aqui que a democracia deixa de ser solenidade e começa a ser reminiscência. José Maria Neves não chega a esta eleição vindo de Marte, e nem é um extraterrestre, não apareceu ontem numa esquina com uma bandeira e uma promessa utópica: tem atrás de si décadas de vida política, foi Presidente de câmara municipal, primeiro-ministro e exerce a Presidência desde 2021. Isso não é acusação. Também não é absolvição: é simplesmente memória, e a memória é uma das coisas que o poder menos gosta de carregar. Cada político chega ao presente com um arquivo: uns carregam decisões, outros carregam discursos, outros carregam promessas, outros carregam vitórias, outros derrotas, e há aqueles que carregam explicações. O problema começa quando uma vitória eleitoral passa a funcionar como uma espécie de detergente histórico, capaz de lavar tudo o que aconteceu antes — não lava. Uma eleição dá legitimidade para exercer o poder, não transforma automaticamente todas as decisões anteriores em decisões acertadas. Cinco anos de experiência podem produzir sabedoria, mas também podem produzir apenas cinco anos de experiência: é uma diferença pequena na frase e enorme na vida pública. Também, por isso, chama a atenção a palavra que tem acompanhado esta candidatura: unidade. Unidade, uma palavra tão bonita que quase ninguém se atreve a perguntar o que ela significa: cabe numa Constituição, num discurso presidencial, numa missa, num funeral, numa fotografia de família e, com alguma facilidade, numa faixa eleitoral, e claro trouxeram a maltratada palavra. Humildade. Novamente. Ô palavras fonodjadu . Ninguém quer ser o homem que se levanta numa sala e anuncia: sou contra a unidade. Seria uma maneira extraordinariamente eficiente de perder amigos, mas a política começa precisamente depois das palavras bonitas. Unidos para quê? Unidos em torno de quê? Unidos para fazer o quê com o poder? E, sobretudo, unidos até onde? Porque há uma unidade que aproxima cidadãos e há outra que simplesmente lhes pede silêncio; há uma unidade que permite discordar e há outra que considera a discordância uma doença — uma democracia saudável não elimina o conflito, organiza-o. Não precisa que todos pensem da mesma maneira, precisa que ninguém tenha poder suficiente para decidir sozinho aquilo que todos devem pensar. Esta é uma distinção essencial, porque uma República adulta não precisa de um Presidente amado por todos, precisa de instituições suficientemente fortes para que ninguém tenha de amar o Presidente para confiar na República, e é aqui que devemos olhar não apenas para os homens e mulheres que disputam a Presidência, mas para aquilo que a Presidência significa: o Presidente não é Presidente apenas dos que votaram nele, é também Presidente dos que votaram no adversário. Dos que não votaram, dos que protestaram, dos que desconfiaram, dos que discordaram, e até dos que escreveram coisas que o Presidente preferiria não ler durante o pequeno-almoço. É precisamente por isso que a relação entre política e cultura merece atenção. José Maria Neves tem contado, neste percurso, com figuras de reconhecido peso intelectual e cultural, como Germano Almeida ou Mário Lúcio Sousa, que assumiu a função de mandatário da sua candidatura em 2026. Nada há, por si só, de estranho em escritores participarem na vida pública, pelo contrário: escritores são cidadãos e têm todo o direito de escolher os lugares onde colocam a sua voz, mas a literatura deveria conservar uma coisa que a política frequentemente perde: a capacidade de fazer perguntas quando todos já decidiram as respostas. Um escritor próximo do poder não deixa, por isso, de ser escritor, e um escritor que critica o poder não se transforma automaticamente num grande escritor só porque aprendeu a dizer “não” com a gravata apertada. A literatura não distribui medalhas de pureza ideológica, mas o problema começa quando a cultura deixa de ser consciência e passa a ser decoração de sala: uma planta bonita junto à janela do poder, regada com convites, fotografias e pequenos favores institucionais. Um escritor não deveria ser chamado pelo poder apenas para o legitimar; deveria conservar a liberdade de, quando necessário, lhe estragar o discurso. A literatura que nunca incomoda ninguém talvez seja literatura, mas também pode ser apenas mobiliário. Germano Almeida, às vezes, incomoda o poder, e isso já é alguma coisa; mas ninguém maltrata o poder como José Luiz Tavares, ele que negou candidatar, apesar dos apelos fervorosíssimos, e adianta que, se tivesse candidatado, negaria a votação nele por abuso e por recomendação — kusas di pueta , o nosso maior POETA e salbaxu . Mas José, o recandidato, possui outra especialidade: sabe adaptar-se ao ambiente com a elasticidade de quem nunca deixa o fato político amarrotar o fato pessoal, se a sociedade está suja, ele encontra maneira de comer sem sujar a gravata; se está limpa, consegue descobrir uma nódoa que justifique a sua intervenção; se o mar está calmo, observa; se está revolto, escreve sobre a tempestade, e se a ocasião permitir, sopra-lhe discretamente para cima. Há nisso uma espécie de talento nacional: transformar a sobrevivência política em virtude e a adaptação em inteligência. O povo, que já viu quase tudo e ainda conserva a extraordinária capacidade de se surpreender, olha para essas manobras e, muitas vezes, sente-se representado, talvez porque também tenha aprendido que, numa pequena República, convém não fechar demasiadas portas, nunca se sabe quem estará do outro lado quando chegar a hora de pedir um favor. E José, o recandidato, sabe navegar nessas águas, e talvez seja esse o seu verdadeiro talento político: não ser apenas homem do tempo, mas homem da meteorologia, sabe quando levar o guarda-chuva, quando abrir o guarda-sol e, sobretudo, quando aparecer na fotografia depois da tempestade. Agora, em setembro de 2026, José Maria Neves anunciou a sua recandidatura à Presidência da República, apresentando-a sob as ideias de “serenidade, confiança e sentimento do dever cumprido”. E eis que regressa o anjo. Não exatamente o anjo bíblico, desses que descem do céu para anunciar verdades; este é mais moderno: vive na terra, conhece os corredores do poder, sabe mandar e desmandar, sabe aproximar-se e afastar-se, sabe quando falar em nome da República e quando deixar que a República fale por ele; um anjo político, portanto. Só que os anjos, desde que começaram a ter eleições, também aprenderam uma coisa extraordinária: precisam de votos para voltar ao céu, e neste país, até o céu já tem campanha eleitoral. E José sempre encontrou cabos eleitorais entre escritores, chamem-se ele Germano (Almeida) ou Mário (Lúcio). O céu havia de tornar-se lugar de verdadeira humanidade se um outro José, não o anjo, mas o poeta, fosse esse cândido candidato.

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